Camilo Cogiro
“Eu voto Lula, eu voto 13!”
Frequentemente ouço frases e pensamentos durante o meu trajeto político, reproduzo-os e os divulgo em meus textos. Nessas eleições, participei ativamente da campanha política pelo partido do qual sou militante, a Unidade Popular pelo Socialismo. O colega Daniel Tito, garoto promissor na política e jovem de grande maturidade pela sua idade ainda tenra de 20 e poucos anos, disse: “Temos que votar com o pensamento do trabalhador e não de acordo com os argumentos do patrão”. De certa forma, estou muito desiludido com o povo votando de acordo com os argumentos dos opressores, racistas, misóginos e LGBTfóbicos. Assistir a pessoas que representam o reacionarismo, o conservadorismo e que até se inspiram no fascismo não tem sido fácil neste momento.
O conceito de luta de classes é uma tese antiga e, simultaneamente, muito atual. No Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848, Marx e Engels escreveram:
“A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes.”
Sem dúvidas, a tese de Marx de dividir a sociedade apenas em duas classes, que ele mesmo definiu como proletariado e burguesia, está um tanto empoeirada. Continua fazendo sentido apenas dentro de uma perspectiva mais ampla. Porém, hoje vemos que a sociedade capitalista se complexificou de tal forma que existem muitas divisões mesmo dentro dos trabalhadores assalariados, assim como entre os proprietários que contratam força de trabalho.
Hoje, existem gestores e profissionais liberais multimilionários, sem que sejam exatamente donos dos meios de produção. Assim como existem pequenos empresários e até os "CEOs de si mesmos": aqueles que têm um CNPJ apenas para gerir a própria atuação, comumente conhecidos como MEI (Microempreendedor Individual), pessoa que trabalha por conta própria e se formaliza como um pequeno empresário.
A isso se adiciona a ilusão dos trabalhadores individuais que atuam situados apenas por aplicativos digitais. Eles constantemente se reconhecem como pequenos administradores, sem nenhuma garantia trabalhista, sem férias, auxílio-doença ou qualquer ajuda além dos rendimentos on demand para manter sua ferramenta de trabalho (geralmente carro ou moto).
A luta de classes não se manifesta apenas no mercado de trabalho; está inserida na gramática cultural de forma muito ampla, na elaboração de políticas sociais, nas disputas ideológicas, nos identitarismos diversos… A cultura é permeada pela luta de classes. Eu, sendo marxista e seguindo o materialismo histórico-dialético, só posso considerar que qualquer grupo humano está invariavelmente ligado às condições materiais que o amparam. Mesmo sendo um marxista não ortodoxo, nada dogmático e que constantemente tenta revisar teses marxistas por conta própria, ainda assim não posso me desligar do materialismo. Somos pessoas que vivem num mundo materialmente situado. Quem quer acreditar em santos, orixás, poseidon etc. pode, se isso é edificante para a própria pessoa. Contudo, não há como desprezar que vivemos numa realidade essencialmente material. Ademais, várias dessas religiões que andam por aí, pregando Jesus Cristo como salvador ou defendendo a magia de Exu, estão, ao mesmo tempo, eminentemente relacionadas às condições materiais que proporcionam aquele culto e aquela maneira de pensar. Tanto os evangélicos falam de prosperidade material, com algumas correntes defendendo que ser ungido por Deus é ser rico, quanto a Igreja Católica, que acumulou ouro e pedras preciosas, ou até a Umbanda, que se manifesta na caridade (que, na minha leitura, é algo com consequências materiais), tudo na vida humana está relacionado à materialidade. A própria natureza é material, situada e com uma possível finitude temporal. Os recursos naturais são finitos, e alguns até não renováveis: acabou, já era!
Por isso, ser marxista é analisar a realidade materialmente e, com isso, acrescentar leituras humanistas, como a luta de classes (que é uma das estruturas das análises marxistas). Mesmo assim, ser marxista é também aceitar que as teses, assim como a cultura, também precisam de renovações e possivelmente não são eternas: correspondem a um arco histórico material. Daí a riqueza do marxismo, pois, ao defender o materialismo histórico-dialético, torna-se quase atemporal. A historicidade é atemporal.
Estamos numa encruzilhada: a luta de classes, amparada pela inteligência artificial mais acessível, pelos aplicativos sob demanda e pela crise de identidade que as novas tecnologias têm causado, pelo visto, tem colocado o poder do voto institucional da classe trabalhadora contra ela própria. E isso é um fenômeno notável de ser posto em análise. O rendimento domiciliar médio mensal por pessoa no Brasil é de apenas R$ 2.316, menos da metade do salário mínimo na Espanha, por exemplo.
Temos que ser realistas: é uma questão de disputa de ideias dentro de uma sociedade material. A nossa sociedade é carente em aspectos materiais, e os altos índices de concentração de renda no Brasil refletem essa realidade. Por isso, a opinião continua sendo formada por aqueles que detêm o poder econômico e querem continuar a acumular mais e mais às custas do trabalho do povo. Mesmo o sistema político no Brasil é todo desenhado e constantemente redesenhado para atender às classes ricas em dinheiro. Com isso, muitos ficam reféns de discursos meritocráticos e acreditam que os super-ricos são pessoas que “venceram na vida”, e não sabem, ou se esquecem, de que existe uma estrutura que limita muito a mobilidade social em benefício de quem já é rico historicamente.
Meus textos mais recentes têm sido em formato de desabafos urgentes. Não consigo aceitar calado, sem ao menos tentar falar (ou escrever) sobre esse péssimo momento político no Brasil e uma piora que se prenuncia. Se o meu colega não tem condição de sobreviver, como eu poderei viver? E mesmo eu, trabalhador que nenhum capital detém, como eu mesmo vou sobreviver? Duvido muito que Jesus Cristo venha interceder por mim… ou que algum Exu ouça os meus clamores e trabalhos mágicos para que eu consiga quitar as minhas contas.
Temos que nos mobilizar, sem quebra-quebra, sem violência, mas com muita decisão em lutar pelos nossos direitos. Pois só assim conseguiremos ser ouvidos, já que o voto da maioria está entregue às forças mais malignas que se apresentam. E sem luta não há vitória!
