Bolsonarismo: NUNCA MAIS!

 Camilo Cogiro



A possível concretização de um governo bolsonarista representa a destruição de conquistas sociais que demoraram anos para ser alcançadas. Figuras como Flávio Bolsonaro simbolizam o sucateamento dos serviços públicos, a desmobilização da assistência social e a entrega integral das riquezas do nosso país — a exemplo de minerais raros e commodities —, além de uma submissão industrial e produtiva aos interesses imperialistas. Ou seja, um eventual governo sob essa vertente nada trará de positivo para o Brasil.

Parto do princípio de que as políticas públicas devem contemplar, sobretudo, as classes trabalhadoras do país. Os mais ricos, muitas vezes, ampliam suas margens com o encarecimento dos alimentos, dos combustíveis e do vestuário, visto que são os detentores dos meios de produção ou indivíduos ligados à gestão das empresas. Se o custo de vida aumenta, essas figuras tendem a extrair ainda mais sobre o esforço do trabalhador, que continua precisando adquirir itens essenciais, agora muito mais caros. Em contrapartida, a tendência é que os salários dos trabalhadores comuns fiquem estagnados.

No governo de Jair Bolsonaro, o salário mínimo registrou altas reais inexpressivas (entre 0,01% e 0,02%). Sabendo que a inflação representa o aumento generalizado dos preços de bens e serviços, conclui-se que o trabalhador deixou de acessar vários produtos e serviços durante aquela gestão. A título de comparação, os reajustes do salário mínimo no governo Lula foram historicamente maiores. Nos anos de maior consolidação de suas diretrizes políticas, o aumento real chegou a 13,04%, com uma alta nominal superior a 16%. Em contraste, a atual administração Lula registrou um incremento mais modesto, de 3,3% em valor efetivo no ano de 2024, ainda muito acima dos valores do bolsonarismo.

Produtos caros associados a salários estagnados ou com ganhos inexpressivos resultam em uma apropriação ampliada da mais-valia pelo empregador, intensificando a exploração da força de trabalho. O trabalhador, por sua vez, atua para enriquecer ainda mais os patrões. Segundo Karl Marx, a mais-valia é o valor produzido pelo trabalhador que excede o necessário para reproduzir sua própria força de trabalho, sendo apropriado pelo capitalista. Em outros termos, o trabalhador produz muito mais valor do que recebe como retribuição.

Vale destacar que Marx considerava esse mecanismo restrito ao processo de produção das mercadorias. Contudo, proponho uma atualização dessa tese: a mais-valia também pode ser apropriada como valor adicional ao salário em diversos outros processos mercantis, como no comércio e nos serviços.

Da perspectiva do cidadão comum, é evidente que um governo bolsonarista é prejudicial às classes populares. Mas a questão vai além…

Avalio também os impactos sobre grupos sociais específicos, como o movimento negro e os povos originários. Políticos bolsonaristas já se referiram aos indígenas como “canibais e atrasados”. Durante sua presidência, Jair Bolsonaro não ampliou demarcações de terras indígenas e quilombolas. Em discurso na ONU em 2019, afirmou que não aumentaria a área demarcada — que correspondia, segundo ele, a 14% do território nacional —, além de sugerir a possibilidade de redução de algumas reservas. No mesmo ano, declarou que o indígena não deveria ser "pobre em cima de terra rica". Em 2020, o governo apresentou o Projeto de Lei 191/2020, que regulamentava a mineração e outras atividades econômicas em terras indígenas, condicionando-as à autorização do Congresso e à consulta às comunidades afetadas.

Além disso, Jair Bolsonaro referiu-se aos habitantes de um quilombo utilizando a unidade de medida “arrobas” em vez de tratá-los como pessoas. Conforme denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), essa analogia os equiparava a animais, caracterizando incitação à discriminação. Sob sua gestão, a política de regularização fundiária quilombola apresentou baixíssima execução, segundo levantamentos do próprio governo federal.

Entendo que o PT também carece de propostas mais impactantes no cenário atual e que o discurso de Lula soa pouco atrativo. Ademais, a meritocracia é propagandeada incessantemente na mídia e nas redes sociais, reforçando o mito de que o burguês é unicamente alguém que “venceu na vida”, desconsiderando que a riqueza de poucos é fruto da exploração de muitos. Sem políticas robustas de distribuição de renda, investimentos em serviços públicos de qualidade, lazer nas comunidades periféricas e fomento à nossa produção cultural legítima, não alcançaremos nenhum desenvolvimento real. No máximo, teremos uma minoria extremamente rica lucrando sobre a maioria da população — uma população que permanecerá reprimida por forças políticas cada vez mais reacionárias e violentas, empenhadas apenas em defender a propriedade privada, criminalizar e encarcerar negros, e blindar as estruturas do Estado.

Não podemos permitir o avanço do bolsonarismo; não se trata de simpatia ou antipatia por Lula, mas de uma urgência de sobrevivência para que a classe trabalhadora preserve o mínimo de dignidade. Reconheço que o país é profundamente desigual, mas com um governo bolsonarista esse abismo tende a se aprofundar ainda mais. Se os meus compatriotas não tiverem o que comer, de que adianta ter o meu pão e manteiga garantido? Como poderei vislumbrar um futuro coletivo?

Por outro lado, não me surpreende que o Brasil ocupe essa posição. O resultado eleitoral do primeiro turno em 2026 foi o pior que presenciei em quase 40 anos de vida e 15 dedicados à militância política. Colegas que vivenciaram a ditadura relatam não ver um cenário análogo desde a década de 1970.

Enfim, precisamos avançar, mas isso só ocorrerá por meio da conscientização. Políticos altamente reacionários, conservadores, elitistas, racistas e até NAZISTAS (!!!) foram eleitos em 2026. Não entregarei o jogo de bandeja: seja qual for o cenário, saibam que haverá muita luta!

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem