Drogas: desafio coletivo

 Camilo Cogiro

Cesar Bernardino

Revisão: Bruna Paquier Cestari

Este texto é centrado em experiências patológicas do uso de substâncias químicas. Não se trata de uma análise moralizante, sequer tenta resumir qualquer vivência do uso de drogas de maneira generalizada. Cada um tem sua liberdade de agir e pensar como bem entender, desde que respeitados limites necessários. Trata-se de uma cartilha de alerta sobre o uso e o abuso de drogas, incluindo as consequências para o indivíduo, o convívio e a sociedade. Não pretendemos ditar modelos ideais, mas alertar para os perigos resultantes da drogadição com base em fatos. Mesmo considerando que cada vivência é única, o trajeto do uso de drogas aponta para padrões recorrentes. Falamos de experiências agudas, levando em conta que o uso é progressivo e pode ser fatal. 

A escolha de usar drogas certamente é feita com base no desconhecimento, curiosidade ou falta de informação. Nem todos que experimentam se tornam toxicodependentes ou têm problemas maiores com a drogadição. Contudo, a taxa de dependência ainda é alta. As estimativas disponíveis pelo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD - relatório de 2012) afirmam que 3,8% da população adulta no Brasil declarou ter usado cocaína pelo menos uma vez. No caso da maconha, esse número sobe para 5,8% de prevalência. De acordo com diferentes pesquisas, esses números são divergentes. Contudo, vemos que as instituições de tratamento para toxicodependentes estão sempre lotadas, e observa-se que deixar o vício é muito difícil e penoso. Os índices de recuperação são extremamente baixos, enquanto a reincidência é frequente.

A dependência química não pode ser compreendida apenas como uma falha individual. O sujeito contemporâneo vive submetido a uma lógica excessiva de desempenho, aceleração e cobrança emocional. Exige-se felicidade constante, produtividade ininterrupta e satisfação imediata. Nesse contexto, muitas pessoas encontram nas substâncias químicas uma tentativa desesperada de aliviar angústias, anestesiar frustrações ou suportar o vazio existencial produzido por relações cada vez mais superficiais e competitivas. A droga surge muitas vezes como síntese de um sofrimento social silencioso.

As drogas são um dos principais fatores que levam uma pessoa a morar nas ruas. A dependência química enfraquece os laços sociais, leva ao desemprego e à exclusão econômica. Sem dúvidas, as drogas são uma das maiores mazelas sociais, e prejudicam a saúde em geral e todas as áreas da vida do usuário, com efeitos multifacetados. Dito isso, o mais prudente é não começar a utilização, já que, assim, é possível se prevenir de inúmeras consequências nefastas e, até mesmo, da morte prematura.

Além disso, existe uma indústria do prazer e da estimulação permanente envolvida no processo da drogadição. A sociedade de consumo impulsiona mecanismos de recompensa imediata em praticamente todos os campos da vida: redes sociais, apostas, pornografia, consumo compulsivo, álcool e substâncias psicoativas. O cérebro humano passa a funcionar condicionado por estímulos rápidos e intensos, dificultando processos mais lentos como construção emocional, disciplina, elaboração do sofrimento e amadurecimento psíquico. A dependência química aparece, então, como uma das expressões mais extremas dessa lógica de satisfação instantânea.

A toxicodependência, também conhecida como dependência química, acarreta a desestabilização do meio do usuário, afetando seu sistema biológico, ao ponto de entorpecentes gerarem a sua destruição. Quando combinadas, as drogas causam “choques” no sistema nervoso central e destroem por completo o organismo do viciado. Esse estágio de consumo tem características patológicas e pode causar sequelas irreversíveis; é quando o usuário não consegue ficar sem consumir droga, necessitando de suporte urgente, pois, caso contrário, não conseguirá viver uma vida adequada.

Outro fator importante é a ruptura de vínculos comunitários. Em diferentes épocas, os indivíduos encontravam pertencimento em experiências coletivas mais sólidas, como convivência familiar ampliada, espaços culturais, organizações sociais, religiosidade ou relações comunitárias. O isolamento contemporâneo favorece sentimentos de desamparo e desconexão. Muitos dependentes relatam que a substância inicialmente oferece uma sensação artificial de acolhimento, coragem ou pertencimento que não encontram mais nas relações humanas tradicionais.

Freud chegou a receitar cocaína aos seus pacientes; agora fala-se em vacina anticocaína. Dependência química é vício: é uma tristeza a pessoa se viciar e não conseguir mais parar.

Qualquer tipo de droga ilícita prejudica a sociedade, pois, no universo das drogas, estão envolvidos vários processos obsessivos e psicopatológicos. O usuário viciado em substâncias químicas se limita a viver em um submundo, onde, progressivamente, só se relaciona com outros dependentes e, por fim, acaba em uma realidade doentia e de solidão. O repertório social se torna limitado, já que ele estará sempre em busca de mais uma dose, interagindo, assim, somente com outros viciados.

Milhares de pessoas cederam aos encantos de substâncias psicoativas e não conseguiram interromper o uso. Foram seduzidas por uma fonte de prazer muito perigosa e traumaticamente submetidas a tratamentos diversos sem sucesso. Dados demonstram uma taxa de recuperação para a dependência química de cerca de 10% a 20%, ou seja, é muito difícil se livrar do vício.

São vários fatores que justificam a taxa de sucesso de tratamento tão baixa: o próprio uso aprisiona o usuário por meio do vício físico e das mudanças comportamentais; depois, as unidades de tratamento são ambientes que se visam à desintoxicação física sem fornecer uma reformulação de interesses, resgate de capacidades, uma direção de novas formas de relação e comportamentos dinâmicos. As drogas prejudicam uma das maiores características humanas, que é a interação. O físico e o social adoecem, tiram da pessoa suas qualidades e potencializam inabilidades.

A questão da dependência química também exige reflexão sobre saúde mental. Quadros de ansiedade intensa, depressão, traumas emocionais, abandono afetivo e violência social frequentemente aparecem associados ao abuso de substâncias. Em muitos casos, a droga é um mecanismo de fuga diante de dores psíquicas profundas. Isso demonstra que o tratamento não pode se limitar à interrupção do consumo, sendo necessário compreender a história subjetiva do indivíduo e as condições concretas de sua existência.

Muitas pessoas muito inteligentes sucumbiram em suas vidas ao abuso de drogas. É alegado que chega um momento agudo em que o toxicodependente percebe que há algo de errado, mas, por estar entregue a uma rotina de consumo, não admite que o seu problema são as substâncias entorpecentes. É preciso querer interromper o vício. Há diversas possibilidades de tratamentos, como grupos de ajuda, rodas de conversa, terapias…

Discute-se a descriminalização da maconha, algo que já foi comprovado como danoso para a sociedade, por meio do insucesso de políticas de permissibilidade à venda e consumo em alguns países. Os movimentos antiproibicionistas defendem que o indivíduo tem a liberdade de escolher usar ou não, o que não procede de maneira nenhuma, pois as leis são um elemento mediador e visam estabelecer um bem-estar coletivo, sendo claro que acarretam muitos problemas nas famílias, no sistema de saúde e na produtividade das pessoas. A planta agora é medicinal. Desde que o mundo existe, as drogas permeiam a Terra; já existiram guerras, como a do ópio.

Por outro lado, é necessário evitar simplificações que tratem todos os usuários da mesma forma. Existem diferenças entre uso ocasional, abuso e dependência severa. A realidade da drogadição é complexa e multifacetada. Reduzir o fenômeno apenas à criminalização ou apenas à liberdade individual impede uma compreensão mais profunda das causas sociais, emocionais e culturais que atravessam o consumo de substâncias psicoativas.

Lê-se que a produção das drogas financia o crime. É sensato pensar também que promove facções criminosas e grupos terroristas. O mais prudente é investir em campanhas de conscientização, prevenção e tratamento humanizado para dependência química.

A rotina do uso limita e humilha o dependente. Por exemplo, o crack e o K9 são extremamente prejudiciais e arrasadores, pois destroem o sistema nervoso central de forma muito intensa, causando várias sequelas ao organismo do usuário. É importante nos lembrarmos que, geralmente, o dependente químico começa com usos mais leves e socialmente aceitos, como o tabaco, o álcool ou a maconha, antes de se viciar em substâncias como essas, muito pesadas para o organismo. Existem muitas possibilidades para se interromper o uso e buscar uma melhor qualidade de vida. Vale a pena se inteirar, procurar ajuda e entrar no caminho para, enfim, conseguir parar. Nesse processo, é importante que o dependente encontre uma nova maneira de viver, percebendo que a realidade desintoxicada oferece uma incrível diversidade de possibilidades antes ofuscada pelas drogas.

Partindo do princípio acima

O que leva o sujeito a usar? Inequivocamente, a substância causa prazer. Inicialmente, pode ser uma liberdade ilusória, em que, a cada passo em direção ao vício, se estreita e diminui o seu horizonte. O dependente químico é, além de dependente do produto (droga), dependente de prazer. Torna-se prisioneiro de rituais que envolvem o consumo: o momento da compra por meio de traficantes, o preparo para o consumo. O usuário passa a remodelar o seu mundo em função do uso. Ele esquece seus sonhos, vai perdendo seus planos reais e restringe seu repertório social a situações que proporcionam o uso.

Existe uma predisposição biológica para o vício, além de mecanismos de produção de substâncias como a dopamina e a aceitação dessas descargas cerebrais no organismo. Há, também, uma predisposição social ao consumo; daí a importância da prevenção. A droga não difere sua prevalência em classe social ou gênero, mas tem uma preponderância maior através de alguns condicionantes, como o contato precoce com a realidade da drogadição.

Outra motivação para o uso é a supressão de vazios emocionais e sociais. Os problemas relacionados à droga estão muito relacionados ao campo emocional. Uma perda sentimental, uma relação de entrega dos melhores adjetivos, uma desistência da vida…

Toxicodependência! A realidade é dura. Muitos foram abandonados pela família, e a impossibilidade de satisfazer os seus instintos de forma saudável leva o indivíduo a uma busca fantasiosa por prazeres cada vez mais curtos.

A própria sociedade, quando institui os prazeres sem mediações como modelo, acaba seduzindo diferentes pessoas a comportamentos de recompensa imediata. Assim, a falta de juízo sobre a organização das vontades leva à fuga de processos que deveriam ser priorizados, por exemplo: o autocuidado, a aceitação do fluxo da vida e a maturação dos argumentos. Quem tem o prazer como meta urgente torna-se vulnerável aos atalhos destrutivos que prometem intensidade, como é o caso das substâncias químicas.

Na Cracolândia tem médico, advogado, mães, imigrantes… Essa realidade reforça o argumento de que todos estamos sujeitos a alguma condição que leve ao vício. Basta experimentar e as possibilidades se abrem. A drogadição começa de maneira sutil, como uma ideologia. No início não se vê problema, até que o panorama vai se tornando doentio. O corpo se acostuma com a química e a inabilidade de viver de forma lúcida faz o adicto buscar aqueles prazeres que encontrava nas primeiras etapas do consumo. No entanto, a esse ponto sua vida já não é mais a mesma, seu núcleo social mudou, suas motivações foram embotadas, só restando a droga em seu repertório.

Oportunidades são desperdiçadas. O mundo gira em função de mais uma dose. Os planos são para conseguir usar de forma livre, sem o peso social negativo que a droga tem.

Drogas e o desconhecimento

O impulso inicial para a adição pode ser diverso, como uma vontade de se afirmar coletivamente, o que na adolescência está ligado à imaturidade e à inconsequência. Não parto do pressuposto do inconsciente da psicanálise, mas de outro: o do desconhecimento. Para a psicanálise, o inconsciente é um “lugar” inacessível à consciência, mas que influencia crucialmente o comportamento, emoções e decisões. Aqui trago outra significação para o inconsciente: ações, reações e padrões que ocorrem sem que a pessoa esteja ciente dos seus motivos e resultados. Quando utiliza as primeiras vezes, não percebe as consequências futuras. Esse comportamento inicial se reflete nas autojustificativas para não interromper a ingestão da química. 

A ignorância é um pressuposto para os erros humanos. E, na droga, não é diferente. Existem diversas figuras intelectuais que menosprezam a gravidade da substância por ter uma ideia vaga, ou seja, desconhecem as consequências de um único trago.

Há, também, uma dimensão econômica no problema das drogas. Regiões marcadas pela pobreza extrema, falta de acesso à educação, desemprego estrutural e ausência de perspectivas tendem a apresentar maior vulnerabilidade ao narcotráfico e ao consumo problemático. A exclusão social cria ambientes onde o desespero, a violência e a ausência de horizontes facilitam a expansão da drogadição como fenômeno coletivo.

A recuperação da dependência química envolve um processo de reconstrução de identidade. O indivíduo precisa reaprender formas de experimentar prazer, reconstruir vínculos, elaborar frustrações e desenvolver novas perspectivas de existência. Muitas vezes o maior desafio não é apenas interromper o uso da substância, mas suportar o reencontro com a própria realidade emocional sem recorrer ao entorpecimento químico.

Mesmo diante de quadros graves de dependência, é importante afirmar que existem possibilidades reais de recuperação. Muitos indivíduos conseguem reconstruir suas vidas por meio do apoio familiar, tratamento adequado, fortalecimento comunitário, espiritualidade, cultura, trabalho e acompanhamento psicológico. O resgate da autonomia humana depende não apenas da interrupção da substância, mas da reconstrução de sentido para a própria existência.

Resumindo…

Em última análise, a luta contra a toxicodependência não se trava apenas nas clínicas e nos tribunais, mas no campo da consciência. Compreender que o prazer efêmero das substâncias é um simulacro de liberdade é o primeiro passo para não se deixar escravizar por mecanismos dopaminérgicos e rituais destrutivos. O conhecimento atua como a saída para a ignorância que seduz, e o esclarecimento serve de escudo contra as mazelas que fragmentam o ente. Escolher a lucidez é reivindicar o controle sobre o próprio destino, resgatando a capacidade de comunicação e a plenitude dos laços. Que a prevenção seja a diretriz e a busca por uma vida saudável seja o horizonte; uma emancipação do sujeito reside na capacidade de viver além de ilusões químicas e abraçar a existência sóbria. Ao se informar sobre os malefícios das drogas, qualquer pessoa pode optar por preservar a sua saúde e a dos seus contatos próximos.




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