Camilo Cogiro
Revisão: Thaís Mesquita
Todos os dias somos atravessados por situações que tocam diretamente nossa saúde mental. Não importa se estamos em uma metrópole ou em um lugar afastado; a vida psíquica é sempre desafiada pelas exigências do cotidiano e pelas condições sociais em que estamos inseridos.
Como pessoa neurodivergente, com diagnóstico psiquiátrico estabelecido há mais de dez anos, compreendo os efeitos do capacitismo. Essa tendência de desqualificar, reduzir ou interpretar alguém exclusivamente pelo seu diagnóstico fere e desgasta a autoestima. Em muitos momentos, percebo que minha condição é tratada como se fosse a explicação definitiva de quem eu sou — como se um documento médico, por ter legitimidade social, bastasse para me definir.
Contudo, não caibo em um diagnóstico. Nunca coube. Reconheço que sou antinormativo na maneira de pensar, no modo como conecto ideias e até em certos traços da minha personalidade. Essa divergência, porém, não é uma falha; é parte de uma singularidade que carrego e que, ao mesmo tempo, me desafia e me fortalece.
A experiência da neurodivergência também me fez perceber que a comunicação humana vai muito além da linguagem objetiva. Muitas vezes, os indivíduos são avaliados apenas pela forma como respondem socialmente a determinados códigos normativos, enquanto suas experiências internas permanecem desconsideradas. Existe uma pressão para que todos reajam, sintam e interpretem o mundo da mesma maneira. Porém, a subjetividade humana não funciona como uma linha de produção. Cada consciência organiza afetos, memórias e percepções de forma singular, influenciada tanto pela biologia quanto pelas experiências sociais acumuladas ao longo da vida.
Tem sido cada vez mais comum ouvir que o sistema em que vivemos produz adoecimento. E é verdade. O excesso de velocidade cotidiana, a saturação de informações, a desigualdade, a falta de oportunidades reais e a precarização da vida criam um terreno propício para o desgaste emocional. O ritmo frenético adoece. Por isso, é essencial estabelecer limites, desacelerar quando possível e pensar a saúde de forma integral — corpo, mente, ambiente e vínculos.
A medicalização excessiva da existência contemporânea revela uma dificuldade coletiva em lidar com o sofrimento humano enquanto fenômeno histórico e social. Em muitos casos, sentimentos produzidos por isolamento, exploração, violência simbólica e insegurança material passam a ser tratados exclusivamente como desordens individuais. Isso não significa negar a importância da psiquiatria ou dos tratamentos clínicos, mas compreender que nenhuma ciência da saúde mental pode ignorar as estruturas concretas que atravessam a vida das pessoas. Sofrimentos produzidos socialmente não podem ser compreendidos apenas por meio de protocolos diagnósticos.
Tenho encontrado alívio em atividades físicas: caminhar, alongar, movimentar o corpo. Isso me ajuda a organizar a mente e a manter energia para as minhas atividades. A superurbanização, entretanto, pesa: ruídos constantes, carros demais, poluições tamanhas. Sempre que posso, busco um parque ecológico ou uma trilha. Esses espaços me lembram que o bem-estar também é silencioso.
É evidente que não posso transformar o mundo de imediato para que ele se ajuste à minha sensibilidade. A luta por mudança é longa, coletiva e exige preparo. Para contribuir com essa transformação, preciso estar bem, lúcido e inteiro. Essa é uma responsabilidade que ninguém pode assumir por mim. Afinal, quem conhece meus limites e ciclos sou eu.
Percebo também que o capitalismo contemporâneo produz uma lógica de desempenho constante, em que o descanso precisa ser justificado. A produtividade se transforma em medida de valor humano. Pessoas adoecidas passam a se sentir culpadas por não conseguirem corresponder às expectativas sociais de rendimento e eficiência. Neste sentido, cuidar da saúde mental é um ato de resistência, que exige o reconhecimento dos limites em uma cultura que naturaliza o excesso, o esgotamento e a hiperestimulação cotidiana.
Com apoio das pessoas que me cercam e com a compreensão de que nem tudo precisa ser interpretado como sintoma ou tratado como problema clínico, sigo caminhando. Sigo aprendendo sobre mim, cuidando das minhas vulnerabilidades e reconhecendo minhas forças. Minhas dificuldades não anulam quem sou; fazem parte da minha trajetória e da pessoa que continuo me tornando.
A tendência de patologizar qualquer incômodo acaba nos afastando da análise sistêmica social. É importante se perguntar se determinado sintoma é algo orgânico ou produzido pelas estruturas coletivas em que estamos inseridos. A título de relato próprio, mantenho minha saúde mental com cuidados diários; a participação social me ajuda a esvaziar minhas questões. Sem dúvidas, contribuir com a minha comunidade é contribuir para um mundo melhor. Assim, me engajo em ações políticas, e isso favorece minha saúde mental.
Existe ainda um aspecto profundamente humano no acolhimento coletivo. Nenhum indivíduo constrói estabilidade emocional sozinho. Os vínculos afetivos, o sentimento de pertencimento e a possibilidade de diálogo sincero possuem um impacto imenso sobre a maneira como enfrentamos nossas fragilidades. Uma sociedade marcada pela competitividade extrema tende a enfraquecer os laços comunitários e transformar o sofrimento em experiência individual. Por isso, fortalecer relações humanas também é uma maneira de produzir saúde mental.
É nítido que a pobreza, a carência material e, sobretudo, a falta de condições mínimas podem desencadear problemas psíquicos. A relação entre a carência material e o sofrimento psíquico é profunda, complexa e, acima de tudo, urgente. Longe de ser apenas uma questão de estatística econômica, a escassez de recursos básicos — como alimentação segura, moradia digna, saneamento e estabilidade financeira — atua como um fator de estresse crônico que molda e, muitas vezes, compromete a saúde mental dos indivíduos.
Cuidar da saúde mental quando se está sob o peso da vulnerabilidade ou da incerteza é um dos desafios mais complexos que existem, pois, como vimos, a raiz do problema é concreta. Afinal, carências materiais não são passíveis de ressignificação quando faltam condições objetivas para manter a dignidade.
Atualmente, vivo com as condições necessárias para encarar minhas questões de saúde mental de forma pragmática. Faço um esforço pessoal para perceber a realidade conforme ela se apresenta, evitando atalhos mentais e facilitações de pensamento que não podem ser comprovadas. Em muitos momentos, utilizei argumentos ou elaborei explicações não verificáveis para pensar o mundo. Hoje, evito esse tipo de postura, mas, mesmo assim, em alguns momentos, sou trapaceado pela minha própria mente.
Ao longo da minha trajetória, compreendi que consciência crítica não significa viver em permanente negatividade. Pelo contrário: compreender as contradições da realidade permite desenvolver formas mais maduras de lidar com elas. A lucidez não elimina o sofrimento, mas impede que ele seja romantizado, negado ou transformado em identidade absoluta. Existe uma diferença crucial entre reconhecer uma vulnerabilidade e ser completamente definido por ela.
A saúde mental, assim como explica a Organização Mundial da Saúde, é entendida de uma forma bastante ampla, que vai muito além da mera ausência de transtornos mentais ou de doenças. Segundo a OMS, a saúde mental é um estado de bem-estar funcional no qual o indivíduo manifesta suas próprias capacidades. Ele consegue lidar com os estresses normais da vida, pode trabalhar de forma produtiva e frutífera, e é capaz de dar uma contribuição para a sua comunidade.
Cada subjetividade enxerga a vida sob a perspectiva singular. Isso é normal; inclusive, essa diversidade é fundamental e estrutural para a composição da cultura. A diversidade representa a própria condição de existência saudável. A cultura se move por meio de respostas que os seres humanos dão aos desafios da existência. Quando pessoas com diferentes origens, vivências, gêneros, idades e visões de mundo se encontram, ocorre o que os sociólogos chamam de fricção cultural.
Estar bem é um direito de todas as pessoas. Não se trata de ter muito dinheiro ou uma casa com piscina; é um continuum em que o sujeito consegue desfrutar da vida e lidar com os problemas que se apresentam. Ter saúde mental significa dispor de recursos psíquicos para viver, adaptar-se às adversidades, manter conexões significativas com os outros e exercer a própria autonomia dentro da sociedade.
A partir desses elementos, consigo estabelecer que ser neurodivergente não é estar privado de saúde mental, mas enxergar o mundo de uma ótica própria. Se eu estou bem comigo mesmo, consciente dos meus desafios pessoais, crítico e autocrítico em relação à realidade, posso, dessa maneira, desfrutar da vida, independentemente de qualquer diagnóstico ou opinião médica. O diagnóstico médico, nesse caso, é apenas uma avaliação externa que aponta alguns níveis de atenção, nunca uma conjectura de incapacidade.
O diálogo, como primazia das pessoas, ajuda-me a entender as cosmovisões e, assim, estabelecer a minha própria visão de mundo. Sendo um indivíduo interessado por cultura, pelas peculiaridades dos ambientes sociais e pelas malhas formadas pela coletividade, estudo esses elementos para conseguir desenvolver melhor meus pensamentos.
Concluir essa reflexão é reconhecer que saúde mental não pode ser compreendida de forma isolada da realidade social, econômica, cultural e afetiva em que cada indivíduo está inserido. Somos atravessados por experiências, vínculos, desigualdades, pressões e formas distintas de perceber o mundo. Reduzir a existência humana a diagnósticos ou classificações rígidas significa ignorar a complexidade da subjetividade e das condições concretas que moldam a vida.
Ao longo da minha trajetória, compreendi que cuidar da mente também é desenvolver consciência sobre os próprios limites, questionar estruturas adoecedoras e construir formas mais humanas de viver. Ser neurodivergente não me impede de experimentar bem-estar, construir relações, produzir conhecimento ou contribuir socialmente. Minha singularidade representa uma forma distinta de existir, perceber e elaborar a realidade.
Acredito que uma sociedade verdadeiramente evoluída é aquela capaz de acolher diferenças sem transformar toda divergência em patologia. A subjetividade humana precisa ser escutada com responsabilidade e sensibilidade. Afinal, saúde mental é a possibilidade de construir coletivamente condições mais dignas, conscientes e humanas de existência.
