Meu mundo situado

 Camilo Cogiro



            Enquanto sou marxista teórico em formação e marxista-leninista de atuação, compreendo, na prática situada, a lucidez teórica de Karl Marx e de Lênin. À medida que Karl Marx fez uma avaliação social da economia louvável que, embora esteja empoeirada pelo tempo, ainda é fidedigna em vários elementos presentes no capitalismo, Lênin complementou sabiamente, observando o imperialismo e o monopolismo, que já nasciam em sua época.

Como militante ativo em espaços diversos — tendo já uma trajetória ligada à contracultura e a partidos políticos —, sou atravessado por ideias de esquerda desde quando comecei a formar minha personalidade política, ainda na adolescência. Na primeira juventude, eu gostava de ler revistas progressistas com análises políticas. Lembro-me bem das críticas ao governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Dessa forma, comecei a entender a erva-daninha do neoliberalismo na economia, em que há mínima intervenção do Estado, entregando o cenário ao livre mercado, ao financismo, ao capital financeiro e ao rentismo como determinantes da economia social. Desde cedo, minhas ideias foram opostas a esse modelo. Quando comecei a formular minhas primeiras reflexões sociais, relatadas em textos escolares e em redações sobre temas contemporâneos, já me declarava progressista, para posteriormente reconhecer-me como socialista.

Outro dia, li uma matéria falando sobre a produção intelectual política no Brasil. Foi declarado que essa produção é essencialmente analítica, contentando-se em avaliar o cenário político nacional e pouco intervindo teoricamente na proposição de novos conceitos. Sem dúvidas, isso se reflete também na imaturidade institucional política em nosso país.

Lênin trouxe, sabiamente e situadamente, a tese da necessidade de um partido de vanguarda para guiar o processo revolucionário. Considero que tal processo não se resume a uma mudança parlamentar ou à tomada de poder por uma força revolucionária, mas consiste em uma ação ampla na conjuntura. A revolução socialista é, sem dúvidas, uma mudança na gramática cultural de uma sociedade. Partindo disso, é também a assunção de responsabilidade por setores mais avançados de muitas esferas sociais. A influência revolucionária dá-se em múltiplos espaços: sindicatos, escolas, universidades, fábricas, movimentos, ocupações urbanas e administração comercial.

Mesmo que eu venha presenciando pretensões de colocar em prática ideias socialistas ultrapassadas, vejo que são, muitas vezes, instrumentalizações de teses dogmáticas oferecidas pelos edificadores do socialismo na história. Contudo, a sociedade é situada, está a qualquer momento em um arco histórico e constitui um quadro contextualizado por condições materiais, ideológicas, objetivas e intersubjetivas. Provavelmente, uma tese do século XIX não será aplicável na contemporaneidade e, muito provavelmente, uma tese atual se tornará obsoleta no futuro. Por isso, considero importantes todas essas teses passadas, que foram e são fundamentais, mas que precisam, quase sempre, de atualizações.

Existem releituras para o conceito de "partido de vanguarda"; por exemplo, anarquistas utilizam o termo "minoria ativa" ou "fermento revolucionário". Considero-me próximo a Lênin nesse quesito: se existe a atuação militante, ela precisa ser especializada e profissionalizada. Hoje, pelo que percebo na minha realidade situada, ser militante está muito relacionado a participar de um partido político.

Durante algum tempo, considerei-me "ativista social", estando ligado a causas de direitos humanos, de inserção social, de produção de conhecimentos e de organização coletiva. Após experienciar melhor a atuação partidária socialista, hoje considero-me militante político; inclusive, acho que é a minha profissão por vocação. Claro, vocação é o que se aprende a fazer, não uma missão divina ou uma destinação. Já dizia Sartre que "a existência precede a essência". Influenciado por essa premissa, não creio que exista qualquer destino missionário; o destino é um recorte histórico, cultural, ambiental e genético. Quando afirmo isto, é no sentido amplo: envolve condição material, condição moral familiar, nacionalidade e ambiente gestacional — ou seja, tudo o que interfere na vida de qualquer pessoa.

Na leitura da obra de Lênin, é fácil perceber um contexto político situado. Ele cita figuras da época e faz análises de conjuntura do seu ambiente, no seu tempo. Autores idealistas, como Hegel, por exemplo, tentaram ser mais atemporais. Acrescento, porém, que me identifico mais com o materialismo do que com o idealismo. O idealismo, que se volta para as ideias, é fundamentalmente mental, espiritual e imaterial, ao passo que o materialismo é mais verificável. Partindo do princípio de que cada pessoa interpreta o ambiente de uma forma — embora existam elementos comuns —, eu, sendo músico, discordo grandemente da ideia de Hegel de que a música não precisa de grandes atributos técnicos. Fundamento meu argumento com a explicação de que o grande instrumentista precisa de uma excelente técnica de motricidade, sobretudo a motricidade fina, assim como um grande cantor precisa de um excelente aparelho vocal e de grande técnica para utilizá-lo a serviço da melodia.

Tenho feito pesquisas diversas com alguns autores com os quais me identifico, mas reconheço uma dívida com uma leitura mais cuidadosa dos clássicos. Já percorri autores como Platão, Rousseau e Sartre, entretanto sem uma leitura sistematizada na interpretação corrente. De alguma forma, isso é um elemento que me permite tirar minhas próprias conclusões, mediado pelo ambiente em que vivo.

De toda forma, inserido em vanguardas, consigo avançar minha cosmovisão em direção ao mundo que quero concretizar. Decerto, isso não depende só de mim. Eu e mais três colegas não vamos conseguir mudar muita coisa no mundo social. Porém, compreender melhor as estruturas que me cercam permite que eu avance até mesmo no meu vocabulário, no meu repertório de assuntos e na minha própria autoestima.

Ter um pensamento vanguardeado (desculpem o neologismo) significa estar aberto às possibilidades do novo, ser uma pessoa em devir e estar apto a compreender novos conceitos. Sou confrontado com novos pensamentos e não estou imediatamente apto a assimilá-los, mas sim inserido em um recorte de sucessões de ideias. A vanguarda nunca é algo acima ou fora da realidade, mas sim uma postura de aprendizado.

Faço deste texto um conjunto de fragmentos baseado no meu momento de vida. Não espero formular uma filosofia fechada em um sistema. Meu intento é tatear acontecimentos, situadamente, em um recorte da minha própria vida. De imediato, agradeço e estimo aos que se identificam com minhas ideias e formulações. Não quero ser alguém isolado no mundo, nem pensar coisas que só fazem sentido na minha cabeça. Quero compartilhar experiências e minha subjetividade de um jeito minimamente objetivo, compreensível e partilhável.




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