Camilo Cogiro
O termo “fascismo” é comumente utilizado para atacar inimigos políticos; no entanto, trata-se, rigorosamente, de uma ideologia de Estado totalitário. Na visão fascista, o Estado é supremo, absoluto e central na vida social e econômica, anulando as liberdades individuais. É um sistema em que o cidadão e suas liberdades devem estar submissos ao governo.
Não à toa, algumas políticas da extrema-direita atual são rotuladas de “fascistas”. Quando o poder público age contra minorias, exacerbando as desigualdades, favorecendo o vácuo social e discriminando certos grupos, tais práticas podem ser compreendidas sob essa chave analítica. Tal modelo considera as desigualdades necessárias, além de carregar inúmeras contradições. É, de fato, um sistema em que coexistem grupos evidentemente privilegiados e outros claramente perseguidos.
O fascismo postula a existência de um grupo de pessoas a ser favorecido, seja pela cor da pele, pela condição financeira ou pelo histórico familiar; tais indivíduos detêm privilégios e ocupam o topo da hierarquia social. Para o restante da população, impõe-se uma rotina de trabalho incessante, baixos salários e precariedade. Enquanto o fascismo esteve em vigor na Itália, por exemplo, o salário do trabalhador foi reduzido substancialmente. Além disso, os mecanismos repressores do Estado italiano foram ampliados — a exemplo da polícia, que exercia forte coerção sobre a população e perseguia grupos que pleiteavam melhores condições de vida.
Um aspecto marcante do fascismo é sua capacidade de transformar o medo em instrumento político. Em momentos de crise, desemprego, insegurança ou instabilidade institucional, parcelas da população passam a ansiar por respostas rápidas e por figuras de autoridade que aparentem força e controle. O fascismo alimenta-se desse cenário ao simplificar problemas complexos e criar inimigos sociais responsabilizados pelas angústias coletivas. Minorias, opositores, imigrantes, intelectuais e movimentos sociais passam, então, a ser tratados como ameaças à ordem nacional.
A propaganda fascista possui forte dimensão emocional; ela não busca o aprofundamento crítico ou a reflexão racional complexa. Sua comunicação opera predominantemente por meio de símbolos, frases de efeito, nacionalismo exacerbado e construção constante de uma sensação de ameaça. O medo, a indignação e o ressentimento tornam-se ferramentas políticas permanentes. A repetição contínua de slogans simplifica a realidade e deprime a capacidade de análise crítica da população.
Socialistas e comunistas foram profundamente perseguidos pelo fascismo; muitos militantes de esquerda foram presos, torturados ou mortos pelo governo. A propaganda fascista apresentava-se como uma “terceira via”, buscando afastar-se das conotações tradicionais de esquerda e direita. Essa suposta alternativa cooptou muitos adeptos e atraiu até mesmo um contingente de “intelectuais” que, por algum tempo, engajaram-se no pensamento fascista.
Pensadores críticos de esquerda, professores, artistas e pesquisadores passam a ser vistos como perigosos por questionarem as estruturas de poder e estimularem a reflexão. O fascismo tende a valorizar mais a obediência do que a crítica, e mais a disciplina do que a autonomia. Em muitos contextos, universidades e produções culturais foram reprimidas justamente por gerarem pensamento dissidente.
Além disso, o fascismo estimulava formas específicas de espiritualidade, opondo-se ferozmente ao materialismo marxista. Não se tratava, contudo, de uma espiritualidade livre ou plural, mas de uma construção simbólica voltada para a disciplina, o nacionalismo, o culto à autoridade e a mobilização das massas.
No fascismo italiano de Mussolini, por exemplo, houve uma aproximação estratégica com a Igreja Católica. O regime percebeu que a religião possuía enorme capacidade de organização moral e emocional da população. Em 1929, os Pactos de Latrão reconciliaram o Estado italiano com a Igreja Católica, fortalecendo mutuamente suas posições. A espiritualidade era, assim, instrumentalizada como elemento de legitimidade.
Uma característica marcante dos movimentos fascistas é a tentativa de transformar a política em uma experiência quase religiosa. O líder passa a ocupar uma posição simbólica análoga à de uma figura sagrada, enquanto rituais políticos, desfiles, bandeiras, hinos e cerimônias geram um forte sentimento de pertencimento emocional. O indivíduo deixa de existir prioritariamente como sujeito autônomo, sendo absorvido pela “nação”, pelo “destino coletivo” ou pela “missão histórica”.
O fascismo também constrói uma estética própria. Uniformes, bandeiras, símbolos nacionais, desfiles militares e grandes cerimônias públicas não possuem apenas função decorativa; eles produzem uma sensação de força simbólica. A estética fascista busca impressionar emocionalmente as massas e criar identificação com a autoridade política, fazendo com que o indivíduo sinta pertencer a algo grandioso, disciplinado e historicamente importante.
Do ponto de vista psicológico, o fascismo explora sentimentos de frustração. Indivíduos que se sentem economicamente inseguros, desvalorizados ou sem perspectiva encontram em movimentos autoritários uma sensação artificial de grandeza. O nacionalismo extremo fomenta a ideia de uma superioridade coletiva capaz de compensar sofrimentos individuais, deslocando problemas estruturais da sociedade para o terreno dos conflitos identitários.
Do ponto de vista psicossocial, muitos autores interpretam esse fenômeno como uma tentativa de preencher angústias sociais e existenciais por meio de uma identidade coletiva, de uma ordem simbólica rígida e de uma falsa sensação de propósito. Em períodos de crise, humilhação nacional ou instabilidade, movimentos fascistas capitalizam sobre o medo e o ressentimento.
O fascismo não é antiespiritual em sentido estrito; ele reorganiza a espiritualidade para colocá-la a serviço do poder político e da homogeneização ideológica. A transcendência deixa de apontar para a emancipação humana e passa a ser mobilizada em favor do Estado, da autoridade e da unidade nacional.
Dessa forma, é possível relacionar o fascismo aos slogans da extrema-direita contemporânea, que buscam convencer o eleitorado por meio de frases abstratas e generalistas, utilizando a religião para atrelá-la a um projeto político conservador e autoritário.
A relação entre fascismo e masculinidade também merece destaque. Nesses movimentos, observa-se a exaltação constante da força física, da virilidade, da agressividade e do militarismo. A sensibilidade emocional e comportamentos estigmatizados como “fracos” são ridicularizados, enquanto a figura masculina idealizada consolida-se como símbolo de autoridade e dominação, alimentando o machismo, a violência e a intolerância.
No plano econômico, o fascismo aproxima-se de um capitalismo produtivista, subordinando parcialmente a economia aos objetivos políticos e militares do Estado. O trabalho era tratado quase como um dever moral absoluto, exigindo que o indivíduo “servisse à nação” por meio da produtividade, ao passo que o ócio e o dissenso eram interpretados como fraqueza. Rejeitando o marxismo, o fascismo procurou substituir o conflito de classes pela noção de “harmonia nacional”, na qual patrões e empregados deveriam colaborar em nome da pátria.
O anticomunismo desempenhou papel central no fortalecimento histórico do fascismo. Grandes grupos econômicos e setores conservadores enxergavam os movimentos socialistas como ameaça à propriedade privada e à ordem social. Em vários países, o fascismo recebeu apoio de parcelas proprietárias dos meios de produção justamente por prometer conter greves, sindicatos e organizações populares. Desse modo, o combate ao comunismo converteu-se na justificativa primordial para a repressão política e a concentração de poder.
Na prática, essa dinâmica beneficiava os grandes conglomerados econômicos, enquanto os trabalhadores perdiam autonomia política e sindical. O produtivismo imposto não era apenas econômico, mas cultural e psicológico: o corpo, a juventude, a educação e a arte eram rigorosamente moldados em torno da disciplina estatal e da força coletiva.
A relação entre fascismo e capitalismo é, portanto, marcada por contradições. Embora o fascismo critique determinados aspectos do liberalismo econômico, ele preserva as estruturas de propriedade privada e as hierarquias de classe. O Estado intervém fortemente na sociedade, mas essa intervenção serve para reorganizar o sistema econômico em benefício das elites. O discurso de “união nacional” atua, assim, para enfraquecer a consciência de classe e neutralizar os conflitos laborais.
Em termos culturais, o fascismo combate manifestações artísticas estigmatizadas como “degeneradas”, “subversivas” ou “imorais”. A arte é pressionada a servir a objetivos nacionalistas e propagandísticos, enquanto produções críticas sofrem censura ou perseguição. O controle da mídia consolida-se como instrumento fundamental para moldar o imaginário coletivo e sufocar o pensamento alternativo.
Sob uma ótica crítica, muitos teóricos enxergam o fascismo como uma modalidade autoritária de reorganização do capitalismo em momentos de crise. Em vez de superar as contradições estruturais, o regime buscava estabilizar o sistema por meio do nacionalismo extremo, da repressão política e da mobilização emocional das massas.
Do ponto de vista psicossocial, o fascismo pode ser compreendido como uma tentativa de eliminar a complexidade humana em prol da homogeneização. As diferenças são percebidas como ameaças, as ambiguidades são rejeitadas e os conflitos sociais são reduzidos a narrativas binárias entre “aliados” e “inimigos”. A pluralidade deixa de ser vista como riqueza social e passa a ser interpretada como um obstáculo à unidade nacional.
Embora os regimes fascistas clássicos tenham surgido no século XX, vários dos mecanismos por eles utilizados permanecem ativos nas formas contemporâneas de comunicação. As redes sociais, por exemplo, ampliam discursos de ódio, simplificações ideológicas e mobilizações emocionais em larga escala. A circulação acelerada de informações fragmentadas favorece reações impulsivas, a polarização e a propagação de desinformação, fazendo com que a política opere mais pela emoção imediata do que pela racionalidade.
Mesmo em contextos democráticos, certos elementos fascistizantes podem emergir gradualmente por meio da normalização da violência, da intolerância, da desumanização de grupos e do enfraquecimento das instituições. O neofascismo nem sempre se manifesta através de ditaduras explícitas; frequentemente, revela-se por discursos autoritários, perseguição a minorias e manipulação da opinião pública.
Embora se tenha utilizado o pretérito em alguns trechos para contextualização histórica, o fascismo continua a se manifestar no presente, sendo denominado neofascismo. Ainda que nenhum ator político atual se declare abertamente fascista, é visível a permeabilidade desse modelo de fazer política, perceptível em discursos racistas, segregadores e preconceituosos disseminados no debate público, inclusive no Brasil.
Em síntese, o fascismo consubstancia-se como uma forma autoritária de reorganização social que articula nacionalismo extremo, mobilização de massas e preservação das estruturas capitalistas sob rigorosa tutela estatal. Seu produtivismo nunca esteve voltado para a emancipação humana ou para a justiça social, mas para o fortalecimento do Estado, da indústria e do poder militar. Ao instrumentalizar a espiritualidade, a cultura e o trabalho como mecanismos de disciplina, o fascismo converteu a própria vida humana em instrumento político, alicerçando sua força histórica tanto na violência explícita quanto na capacidade de engendrar um falso pertencimento simbólico, uma identidade coletiva adoecida e uma ilusória sensação de ordem em tempos de crise.
