Religião: o véu do mistério e da ilusão (II)

 Camilo Cogiro

Laís Fritzen


“Se a humanidade não existisse, os deuses não existiriam”

Provérbio Iorubá


A vida nasce e renasce no trajeto do mundo. O que é essa energia que permite tais ressurreições? Entender a dinâmica que proporciona essa “magia” em tudo o que existe é um desafio complexo e instigante. 

Neste texto, nós, autores, travamos um diálogo entre nossas perspectivas distintas, que ora se complementam, ora se contradizem, enfatizando o caráter heterogêneo da constituição de religião enquanto crença, fenomenologia e expressão histórica e cultural.

Eu, Camilo, já escrevi sobre espiritualidade, mas sinto que ainda não alcancei os argumentos exatos para explicar como vivencio essa faceta da experiência humana. Hoje, considero-me agnóstico. A existência de divindades não pode ser provada nem refutada pela razão ou pelos elementos de que dispomos. Os indícios são inconclusivos: não é possível verificar a veracidade de espíritos conscientes ou se algo transcende a vida biológica. Essa postura é, para mim, uma forma de libertação dos dogmas e das amarras religiosas, já que não acredito em castigos divinos, carmas ou na eficácia de alterar a realidade material por meio de rezas ou rituais.

Eu, Laís, apesar de compartilhar em parte do ceticismo de Camilo — principalmente no que diz respeito à existência de divindades que determinam acontecimentos em nosso mundo — acredito que algo transcenda à vida biológica. Em pouco mais de três décadas, já vivi experiências que me colocaram para além do explicável logicamente. Chame de alinhamento de acontecimentos, força maior, destino ou vibrações energéticas (do ponto de vista físico), muito há a ser desvendado, já que tão pouco conhecemos sobre nós mesmos e para além de nós. Devo informar, porém, que refuto totalmente a noção de que seríamos apenas marionetes, à mercê de uma entidade superior que dita nossos caminhos. 

Quantas vezes já não ouvimos asserções como “Seja como Deus quiser” ou “Deus cuida”? Porém, inúmeras vezes essas são falas de pessoas que, ao dizê-las, ignoram completamente a existência do livre-arbítrio que não é, de forma alguma, desconsiderado pela maioria das religiões. Para mim, trata-se de uma forma de lavar as mãos; afinal, se deus cuida, posso dirigir sem usar cinto de segurança. É mais fácil colocar a culpa por uma situação irreversível em uma entidade superior do que responsabilizar a si próprio por uma imprudência.

Entretanto, parece que, como a imensa maioria de brasileiros, nós, autores deste texto, fomos ensinados desde cedo sobre conceitos religiosos, vindos de famílias que são completamente diferentes, mas que cultivam formas de religiosidade. 

Para mim, Camilo, essa experiência moldou significativamente minhas primeiras percepções metafísicas, de tal modo que a ausência de certezas divinas não me impede de argumentar que somos energia — o que costumo chamar de biofrequências. Costumo interpretar que sintonizamos frequências energéticas. 

Então, nós concordamos ao dizer que é evidente que somos constituídos de algo mais; cada organismo vivo possui uma assinatura energética única. Há um fundamento científico no fato de que o corpo humano se comunica por sinais elétricos e eletromagnéticos; antes de uma resposta bioquímica, ocorre um pulso elétrico. Isso torna possível utilizar frequências sonoras para promover o bem-estar ou acessar estados alterados de consciência. A frequência de 432Hz, por exemplo, é tida por muitos como uma sintonia harmoniosa que proporciona relaxamento profundo. Partindo disso, podemos estimar que outras frequências também possuam efeitos terapêuticos ou nos conectem à natureza.

Essas questões científicas ajudam a elaborar parâmetros para pensar a espiritualidade e a conexão com o outro além do mecanicismo. Entender as frequências auxilia a pensar para além do "corpo bruto" e a contestar teses propagadas por diversas religiões. 

A ausência de qualquer explicação razoável para um fenômeno desconhecido é oportunidade para a criação de explicações que exploram a transcendência. Diremos conjuntamente que, como seres filosóficos e construtores da história, fabricamos teses que buscam abarcar os mecanismos do cotidiano. A religião, de um ponto de vista não teológico, díspar ao de propagação e compreensão de seus dogmas, é um complexo sistema de crenças compartilhadas por uma comunidade que dá sentido à sua existência. 

Eu, Laís, entendo que, condição essencial à persistência da vida além da dureza do óbvio comum de dormir, comer e trabalhar, é se apropriar do campo simbólico, criando representações nas mais diferentes formas artísticas para abstrações que, de outro modo, seriam incompreensíveis (ou mesmo intoleráveis); e as formas de espiritualidade ocupam esse lugar a mais de 150 mil anos.

Nós, autores, entendemos que a história da religião acompanha a evolução humana, passando de ritos anímicos à institucionalização de crenças. A mitologia grega — na intersecção de lendas, mitos e espiritualidade —, por exemplo, constitui uma religiosidade baseada em cultos e sacrifícios organizada de modo a conceituar simbolicamente o momento premente da Grécia Antiga, respondendo às dúvidas existenciais dos gregos sobre o antes, o agora e o depois da vida. 

Para os antigos gregos, os deuses olímpicos eram entidades reais que interferiam no mundo, mas que possuíam falhas morais humanas, como o ciúme e o orgulho, criando uma dualidade pouco vista em religiões atuais. O conjunto de mitos sobre múltiplos deuses e criaturas constituía uma forma de espiritualidade praticada, mas também compôs um vasto conjunto de histórias difundidas por poetas e filósofos e eternizadas em diferentes expressões artísticas, porque não apenas davam existência material ao desconhecido, mas recontavam ficcionalmente acontecimentos históricos. 

Muitas crenças como essa são tão antigas que suas origens se perdem no tempo, ou são frequentemente rotuladas como "paganismo", por terem forte ligação com elementos da natureza, como os cultos de celtas, egípcios e diferentes povos originários brasileiros. 

O Cristianismo, por sua vez, surgiu como um divisor de águas, alterando profundamente a percepção religiosa e a administração social do Ocidente. Diferentemente das religiões vistas como obscurantismo, o Cristianismo tornou-se político; sua difusão foi tão ampla — e tão bem engendrada em relação às formas de governo e ao capital — que redescobrimos repetidamente (e testemunhamos, hoje, em grande medida) instâncias na qual a cristandade valeu-se de seu lugar de poder simbolicamente instituído para cometer atos condenáveis moralmente e legalmente. 

A Bíblia, o livro mais difundido do mundo, traz narrativas que, embora soem tão improváveis ou fantasiosas quanto as de “religiões pagãs”, ditam as premissas de fé para milhões. E o perigo dessa configuração, para mim, Laís, não está na crença na história de um Deus que viveu e morreu para redimir a humanidade, afinal, acredito que não há razão de viver sem expressar uma existência simbólica, mas na ação daquele que faz da expressão simbólica mecanismo de submissão e materialização da segregação violenta.

Muito embora a Bíblia trate de uma narrativa que pode ser lida como qualquer outra história, no interior das religiões sua palavra se torna meio de identificação e modo de ação. O que está escrito nela não atua no vácuo de uma escrita estéril, pois o que está escrito é lido, dito e repetido como exemplo a ser seguido e como instâncias a serem vividas. Assim, a palavra escrita se faz prática que, ainda que possa ser voltada ao bem-estar e a solidariedade — como tratar o próximo como a si e amar sem ter inveja ou se vangloriar —, na maioria das vezes serve aos propósitos daqueles que agem em benefício próprio.

Em parte, eu, Camilo, percebo que a religião pode oferecer significado, disciplina e consolo no luto. No entanto, sigo convicto de que ela também pode ser uma forma de alienação ao retirar do indivíduo sua capacidade de questionamento. Ainda, esperar por uma salvação posterior ao mundo materialmente experienciado, sem data ou formato, configura a instrumentalização da fé para protelar ações que deveriam ser tomadas no presente. Quem vive à espera de que forças espirituais o salvem ou castiguem torna-se refém de intermediários que podem usar a religião para objetivos pessoais, porque anula sua condição de sujeito autônomo.

Portanto, concordamos ao afirmar que tornou-se comum a venda de "soluções religiosas", como se fosse possível convencer uma deidade a atuar em favor de alguém. Tais intermediários — santos ou espíritos — nunca se manifestam de forma objetiva, deixando os resultados no campo da abstração. Qualquer acontecimento posterior a um "trabalho espiritual" é, muitas vezes, associado irracionalmente à fé, pois não existem parâmetros situacionais para refutá-lo; e quando a explicação é suficientemente ampla e vaga, sua veracidade é atestada para aqueles que a buscam. 

Diremos que, nesses casos, sobressaem-se interpretações particulares, frutos de contextos pessoais: um ritual pode fazer sentido psicológico para o participante, elevando sua autoestima ou otimismo, a partir de uma experiência que se molda às suas expectativas ao ser vivida, mas isso não prova uma conexão irremediável com forças extrafísicas conscientes.

O fenômeno religioso é complexo por unir percepções subjetivas e ação coletiva. As igrejas estão cheias de fiéis clamando por Deus, assim como os terreiros de matriz africana reúnem aqueles que encontram ali estados alterados de consciência; e a religião se sustenta ao perdurar na linguagem cotidiana, de um “Deus me livre!” a um "vá com Deus!". 

Para mim, Camilo, é constrangedor lidar com justificativas religiosas para comportamentos humanos. A ideia de um Deus antropomórfico em um trono me parece nascer do medo da solidão e da dificuldade em assumir a responsabilidade pelo bem e pelo mal. Esse Deus exterior e onipotente é, a meu ver, uma contradição: o mundo é construído pelo que há nele, não por um espírito externo.

Eu, Laís, vejo a necessidade da espiritualidade e entendo que sua existência ocorre juntamente da humana, estando uma interligada à outra. Gosto de pensar, porém, sobre o que se dá no meio do caminho: não a crença cega em soluções milagrosas, nem um Deus punitivo, que delimita bem e mal, tampouco a existência essencialmente física, pontuada por Camilo, sem possibilidade de transcendência, mas o funcionamento simbólico, por meio do qual tão bela, e habilmente, tecemos um véu que tanto nos explica aquilo que almejamos entender quanto ilude, nos mantendo cientes, porém alheios, daquilo nem chegamos perto de compreender.

Eu, Camilo, continuo acreditando em um "mundo encantado", não puramente mecânico, onde cada subjetividade é indecifrável. Pode existir algo além do véu, mas não sinto necessidade de intermediários — padres, pastores ou pais de santo — para lidar comigo mesmo. Delegar a solução de problemas humanos a entidades me afasta da minha essência. E pensar que um exército celestial resolverá a fome ou a crise climática retira de nós o atributo do agir.

Cada pessoa deve se alinhar ao que considera mais convincente, e eu jamais presenciei a manifestação de qualquer espírito, nem recebi prova de que teses espirituais ou religiosas sejam procedentes. Então, no momento, não vejo sentido, praticidade ou motivo para participar de celebrações religiosas ou delegar a forças especulativas a razão dos meus erros e acertos.

Não temos a intenção de resolver todos os problemas do mundo, tendo consciência do laborioso caminho da construção coletiva que se apresenta, mas temos a convicção de que as soluções não virão de milagres. Assumir a falha de respostas equívocas não nos torna inaptos, mas nos ajuda a focar nas certezas possíveis: o que desejarmos que seja, será construído com o "lápis da ação". 

Se Camilo se firma na crença de não atribuir poder ao que não se prova real, nós dois nos encontramos na certeza de que a vida é agora, construída sobre a razão e a complexidade humana, não em um tempo extracorpóreo projetado a partir de promessas de vidas passadas ou futuras.

Nosso itinerário espiritual e filosófico é, portanto, constituído por desvios de rota. Ao frequentarmos igrejas, templos, assembleias ou giras, podemos não somente estar em busca de conforto espiritual, mas também à procura de elementos empíricos e práticos que fundamentem nossas reflexões sobre o mundo.




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