O que significa tornar-se marxista

Camilo Cogiro


Revisão: Laís Fritzen



O humanismo coloca o ser humano e a razão no centro de suas formulações. Com essa breve afirmação, e após as devidas leituras, fica fácil conceituar Karl Marx como um grande humanista. A partir disso, apresento a ideia de humanismo marxista, já catalogada na literatura intelectual. A teoria de Marx vai muito além dos moldes renascentistas ou iluministas; para ele, a concepção de ser humano está relacionada às relações sociais, ao trabalho, à produção material, à possibilidade de emancipação e à transformação das condições concretas de existência.

Alguns autores conseguem se destacar por produzir vanguardas ideológicas e novos conceitos que ultrapassam as meras ideias convencionais, estando à frente de seu tempo. Comecei a ler Marx após me engajar em atividades políticas e, atualmente, ele é meu autor de pesquisa. Não utilizo um crachá de identificação marxista, mas me torno marxista quando não renuncio à luta de classes e às condições objetivas de reprodução da vida, quando interpreto a “ditadura do proletariado” não como uma ditadura no seu conceito vulgar, mas como uma verdadeira condição de democracia para as classes trabalhadoras e como uma necessidade indispensável para a transição entre o capitalismo e o socialismo.

Por outro lado, sou uma pessoa imersa numa realidade e, assim, continuo com as falhas impressas pela sociedade vigente. Tento implementar o socialismo, mas continuo vivendo numa sociedade capitalista; milito por convicção pessoal e me voluntario sempre que possível; porém, a manutenção da minha dignidade não me pergunta sobre minha ideologia ou se sou socialista, tampouco o fazem minhas contas, que são prementes em suas cobranças.

Diferentemente do que diz a apreciação superficial da obra de Marx, ele nunca se colocou contra a filosofia; muito pelo contrário, em diversos momentos conceituou a filosofia como a teoria necessária para o exercício da prática. Marx, portanto, não rejeitou a filosofia, nem mesmo a considerou pouco importante.

Eu acrescento que a teoria é a argamassa de uma construção de tijolos de reivindicações: só com ela conseguimos ligar diferentes lutas, diferentes pautas, para concretizar uma agenda ampla e complementar. E a construção só terá uma fundação sólida, no meu ponto de vista, com uma teoria humanista. Ser humanista é agir com razão e discernimento para superar as contradições entre a humanidade e o meio ambiente, sem desconsiderar outras espécies além da humana.

Cada autor que está dentro de uma tradição ideológica faz leituras próprias sobre as centelhas daquela tradição. O ponto de partida pode ser o mesmo, mas seus destrinchamentos serão diversos. Eu tenho tentado ler Marx de acordo com a minha cosmovisão, interpretando seus textos de forma fidedigna, mas dentro do meu contexto, e com isso fica fácil considerá-lo um humanista. Muitos leem Marx apenas como o estopim revolucionário, mas ele trouxe considerações importantes para a subjetividade que não podem ser ignoradas.

Considero que Marx partia da sociedade como moldura do comportamento individual. Mas eu me questiono: a sociedade é feita de pessoas e, se as pessoas não mudarem individualmente, haverá alguma mudança social? Certamente, uma parcela consciente da população vai lutar por transformação, mas o tecido social amplo, não convencido, vai ser um entrave para os resultados objetivos de tal formulação. Marx traz essa questão nas entrelinhas.

Então, há que se ter equilíbrio entre o que fazemos como unidade e o que fazemos como uníssono. Acho que essa é uma leitura fiel à tradição marxista e que merece ser considerada com mente aberta, já que muitas vezes qualquer intervenção nova é rotulada como “revisionismo” ou dispersão da luta revolucionária fundamental.

Pensar, formular, questionar, perguntar-se e trazer inquietações contemporâneas continua sendo muito importante. O próprio Marx, em seu tempo, dizia que não era preso a mestres antigos. Com isso, concluo que é preciso pensar as necessidades de nossa sociedade. Modelos externos podem ser referências, mas provavelmente também serão exceções.

Outro dia, durante uma atividade de militância, conversei com uma estudante de economia que pouco conhecia de Marx. Ela argumentou que é necessário adaptar-se ao contexto para buscar melhores condições de vida. Não discordo dessa afirmação; contudo, não devemos ser sujeitos passivos e com fetiches capitalistas. Decerto não vou mudar o mundo sozinho e, às vezes, a luta pelo socialismo parece uma quimera ou uma aventura. No entanto, trata-se de uma atividade de movimento. O marxismo é uma ideologia de ação: não espere ser marxista deitado no seu sofá ou numa biblioteca lendo um imenso repertório. O marxismo inserido na política, com seu materialismo manifesto, é uma tradição que prima pela intervenção. Além disso, qualquer intelectual pode — e deve — ir a um ato, a uma manifestação, e contribuir presencialmente em alguma atividade, pois o marxismo não é um conceito de acomodação, mas sim de inquietação e antinormatividade.

Desde sempre existiram condições hegemônicas e, em meio a elas, pessoas antinormativas, vanguardistas ou inadaptadas foram tachadas de inconvenientes ou hostilizadas em seus meios. Muitos autores e artistas, por exemplo, só começaram a ser apreciados após falecerem. Isso demonstra que as pessoas muitas vezes têm dificuldades com a superação do status quo, ao passo que novas ideias são tratadas como ameaças às certezas antigas.

Ser marxista, no meu entendimento, é apreciar “o que é”, sem véus misteriosos, misticismos ou a ilusão contemplativa que não considera as reais possibilidades de agir e atuar. É porque o mundo é feito de escolhas situadas e provisórias que rejeito a ideia de “destino socialista” ou “missão socialista”. Nenhum futuro está garantido, nem o capitalista. A realidade é o resultado de escolhas feitas por pessoas, e não de um dogma onipotente, inalterável e eterno.

Observo, como eu disse anteriormente, contudo, que existem tendências de se perpetuar o que está dado, com alguma dificuldade de implementar o novo. Mesmo no socialismo, muitos novos conceitos não são aceitos e são tratados como inadequados a uma teoria inaugural.

Ainda não li toda a obra de Marx. Decerto, percorri um bom caminho de leitura marxista. Recentemente, me desafiei a conhecer os textos dos principais autores envolvidos na edificação do marxismo. Confesso que estou ainda no começo do percurso. A aquisição de conhecimento é algo eterno; ninguém nunca vai dominar toda a literatura disponível, tampouco ser completamente único no que faz. 

A tecelagem da vida se dá na diversidade, na multiculturalidade e na capacidade de transformação. As mudanças são, sim, possíveis — e muito necessárias. Não sou o mesmo de alguns meses atrás e quero ser outro no futuro. Neste momento, me formo marxista, mas quero ser também existencialista, psicanalista, capoeirista… Tento não ser alguém fechado em dogmas, mas sim aberto ao porvir, uma pessoa em devir.

Pensar um humanismo marxista não significa retirar de Marx sua dimensão materialista, histórica e revolucionária. Significa reconhecer que, por trás das estruturas econômicas, das relações de produção e das disputas de classe, existem seres humanos concretos, com necessidades, desejos, contradições, limitações e possibilidades. A transformação social não acontece fora das pessoas, assim como a transformação individual não acontece completamente separada do coletivo.

É nesse espaço entre o indivíduo e o coletivo que continuo construindo meu próprio pensamento, como quem compreende que pensar também é se transformar. Ser marxista é, também, aceitar que nenhuma formulação está acima da realidade e que toda teoria precisa continuar dialogando com a vida, com suas contradições, com aquilo que existe e com o que ainda está por vir.





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