Camilo Cogiro
Aprendi com o fazer político, já tendo percorrido algum caminho de militância e me deparado com situações diversas, que a política não é feita somente com o voto ou com as representações parlamentares. Muitas vezes, a atuação na malha social dá-se de inúmeras formas.
Agora, no período eleitoral, observam-se vários ideários e, sobretudo, muito conteúdo apelativo emocional. Existe uma estética por trás de cada campanha; essa estética ajuda na identificação de projetos. O brasileiro ainda escolhe os seus políticos baseado em afeto, não somente de acordo com as propostas. Por outro lado, é muito comum em nosso país que as propostas de campanha nunca sejam colocadas em prática. Algo que aumenta a desconfiança do eleitorado. Fazendo campanha para o meu partido, muitas vezes sou interrogado com a seguinte questão: “Os políticos convencionais prometem contemplar o nosso território e, depois de eleitos, nada fazem por nós”. E, de fato, eu já vivenciei esse tipo de situação no passado.
Percebo, entretanto, que as narrativas eleitorais são simplistas, apresentam sugestões imediatas. Claro, quero uma vida melhor agora, não daqui a vários anos. Porém, determinados projetos precisam de tempo de maturação, e, quando nos concentramos somente no imediato, perdemos o fio do tempo de planejamento necessário para alcançar programas mais elaborados. Algumas políticas dependem de amadurecimento. Mesmo eu quero um país melhor amanhã, mas não é assim que a história acontece.
Estamos em uma situação de dicotomia; a polarização nacional nos apresenta duas propostas viáveis. Contudo, vou votar para evitar o pior, não porque algum candidato contemple minhas pretensões. Infelizmente, a extrema-direita vem com muita força, com possibilidade de eleger os seus candidatos para postos importantes país afora; ilusão é pensar que, apenas elegendo um presidente “progressista”, estaremos livres da extrema-direita. Em Minas Gerais, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Roraima, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, candidatos da extrema-direita estão liderando as pesquisas, com grandes chances de se tornarem governadores de seus respectivos estados.
Eleger Lula, neste momento, é muito importante, mas é quase simbólico, um tipo de suspiro de esperança, uma maneira de afirmação ideológica que encontra, necessariamente, correspondência na materialidade. Sem contar que essas eleições presidenciais são marcadas mais pela rejeição do que pela aprovação; no máximo, existe algum deferimento coletivo com as campanhas.
Vi, nos últimos dias, alguns coletivos puxando o voto nulo. Mas votar nulo não priva a realidade da eleição de um dos candidatos, por isso não sei se é a melhor estratégia; essa não é uma postura útil, mesmo que seja triste votar no menos ruim.
Minha postura tem alguma influência hegeliana, ou seja, avaliar “o que é” e não me prender em ilusões distantes, quimeras, objetivos inatingíveis. É fato que quem apoia a extrema-direita é quem vota na extrema-direita, já que, no primeiro turno, para a presidência e para o governo estadual, qualquer candidato só se elege com 50% dos votos válidos mais 1. Encorajo o voto em candidatos socialistas, revolucionários; são exatamente essas campanhas que disputam o voto com a extrema-direita.
Temos bastante tempo para disputar a malha social. Agora, de acordo com a realidade, é preciso pensar em candidatos viáveis. Depois vamos ter espaço para pensar a política sob outra perspectiva. Sem dúvidas, a política eleitoral, institucional, como a conhecemos, tem os seus limites. E, assim como muita coisa na sociedade, tem tendências a reproduzir o status quo. Vemos candidatos midiáticos nadarem de braçada na contagem dos votos, sem que isso, necessariamente, tenha alguma correspondência com a capacidade ou projetos políticos apresentados.
Determinado pelo avanço das possibilidades de comunicação, com o resumo da distância ideológica entre diferentes culturas. Esse pleito eleitoral diz muito também sobre a soberania do Brasil. A pergunta é se queremos ser uma nação forte e independente, ou um país entreguista, submisso e submetido a decisões externas. O imperialismo mostra-se como um monstro que a tudo quer devorar, que tudo quer dominar e em todos quer mandar. Esse fenômeno, o imperialismo, é uma postura visível na política das potências financistas mundo afora. Não se trata apenas de governar, mas também dos intentos empresariais dos players capitalistas.
Sem dúvidas, a vitória da extrema-direita, em qualquer esfera, atrasa todo tipo de revolução socialista. O progressismo permite uma margem maior para o manuseio político socialista. O conservadorismo é inimigo de qualquer revolução. Então, na atual conjuntura, temos que jogar com o possível, com o factual. Isso com o entendimento de que temos que combater com todas as forças a extrema-direita.
A minha revolução pretendida não é uma revolução meramente burocrática, por isso não a espero assim tão brevemente. Ela começa na educação, na renovação dos conteúdos dos livros didáticos, numa outra postura acadêmica que não se adeque somente às coisas vigentes, mas que estimule e proporcione novos olhares sobre a realidade.
A extrema-direita é a atual erva-daninha da sociedade. É a mais dissimulada política neofascista, sem reivindicar vocabularmente o fascismo, mas buscando nele suas maiores inspirações. É muito necessário vencer a extrema-direita em todas as frentes, em todos os espaços, derrotá-la sempre que ela se apresentar ou mostrar os seus tentáculos.
Não acredito na conciliação, inclusive me afastei de pessoas, no meu círculo pessoal, que cultivam afeição por Bolsonaros ou Nicolas Ferreira, esses como personagens de uma maneira de pensar que eu tenho repulsa. Existem pessoas alinhadas ao neofascismo, e essas pessoas precisam ser derrotadas na esfera social. Não somente o neoliberalismo precisa ser vencido, não apenas pautas econômicas precisam ser revistas, como também questões de identidade precisam ser revistas. É premente valorizar a nossa cultura, fortalecer os nossos territórios em benefício de quem neles vive.
Essas eleições são decisivas, não para concretizar uma revolução, mas para vencer a erva-daninha da direita e do centrão, para pôr abaixo qualquer esperança de segregação das classes populares. Mesmo que não exista, num horizonte breve, uma resposta que contemple e que seja minimamente definitiva, temos o antagonismo de propostas divergentes, que demonstram politicamente, materialmente, esteticamente, ideologicamente e no próprio sentido do uso da razão, quem são os inimigos das classes populares e trabalhadoras.
Estou ameaçado na minha condição de vida, mas que essa ameaça seja apenas uma ameaça, e não uma factualidade. Para finalizar, reitero que não devemos ser simplistas e achar que o inimigo está sendo vencido; muito pelo contrário, a força dele está na falácia, e a falácia, muitas vezes, tem poder de convencimento. Então, é hora de enfrentar o inimigo como inimigo, sem conciliação, sem conversinha, com rigidez material e ideológica. Mesmo que os trabalhadores estejam em situação de desvantagem social, somos a força que move a história, e estarmos certos já nos habilita a combater o inimigo que é a extrema-direita.
