Camilo Cogiro
Revisão: Bruna Paquier Cestari
O Brasil não é apenas um território geográfico, é um projeto que sempre construiu sua própria identidade. Atravessamos o tempo histórico consolidando uma subjetividade particular — pela mística das nossas religiões, pela geometria da nossa arquitetura e a poética dos nossos versos. Não somos o "outro" da Europa; somos um centro criativo que não deve receita à imaginação alheia. A abertura ao mundo deve ser um encontro dialético de alteridades, e nunca a submissão de quem se anula diante do espelho estrangeiro.
A dominação contemporânea transcende o controle político e dos meios de produção. O capitalismo, em sua fase atual, opera, também, uma colonização do imaginário. Ele impõe a "régua do estrangeiro" como um imperativo, forçando-nos a medir nossa existência pelo padrão dos países dominantes. Quando a população consome a indústria cultural de massa do Norte Global, ocorre uma alienação do próprio ser: passamos a desejar o que não é nosso e a secundarizar a identidade local.
Vivemos a era da industrialização das emoções. O sistema não quer apenas seu corpo para o trabalho incansável; ele quer seu imaginário para a perpetuação de privilégios. A retórica dos magnatas cria um falso horizonte, em que a felicidade é projetada em uma riqueza inalcançável, mantendo o povo em condição de obediência.
A colonização do séc. XXI sequestra imaginários, pensamentos e vontades; reprime o que é nosso de verdade, massifica e industrializa as emoções. Em um mundo em que o dinheiro é o principal ator, em que o poder econômico supera as vocações, os sonhos, a natureza, o tempo e, em alguns casos, até laços familiares, alguns são convencidos de que devem viver em função do lucro, do benefício, e enxergam qualquer alternativa à obtenção de rendimento como ameaça ou desinteressante.
Tem-se tornado cada vez mais crucial uma construção subjetiva que não apenas combata o neocolonialismo, mas que crie novas noções desde o início, produza conhecimento inovador que transgrida a hegemonia, o patriarcado e as formas ditatoriais de perpassar informações. Ao acessar uma notícia, é importante saber que ela está carregada de pretensões e propósitos enviesados.
Mesmo que nossa economia seja controlada pelo capital internacional, o Brasil já se afirmou culturalmente perante o mundo. Artistas e pensadores diversos exportam a brasilidade. Tom Jobim falou em uma entrevista sobre o “esforço para fabricar o Brasil”. Temos que criar o Brasil com retóricas contra-coloniais, mesmo estando lúcidos perante a realidade. Devemos ter a consciência de sermos influenciados pelos europeus e estadunidenses e criar, enquanto nação, a partir de nossa própria identidade.
Essa unidade nacional vive em nossa vasta variedade. Dos rios da Amazônia aos meios urbanos, a diversidade de biomas e modos de vida é a nossa base fenomenológica. Devemos valorizar o que é nosso. A descolonização do imaginário é o ato ético de retomar a autoria da própria história, combatendo o patriarcado e a hegemonia que ditam as formas de existir. A verdadeira autonomia só será conquistada quando desarticulamos o aparato colonial que habita nossas mentes. Descolonizar é um ato de transgredir com o imaginário, é recusar as regras do opressor e afirmar a validade da nossa própria experiência no mundo.
Na psicanálise, entendemos que o desejo não é apenas uma vontade passageira ou a busca por um objeto material. Ele é o motor do aparelho psíquico e nos define como seres humanos. O desejo vem primeiro; se queremos desenvolver alguma antropotecnia, é porque o desejo assim instruiu e motivou; se queremos avançar em alguma área, o desejo foi o piloto. Concebemos que o desejo molda tudo antes da materialidade. É só por meio dele que damos movimento às ações, pois a fabricação de um objeto depende do desejo de criá-lo.
Por isso temos que direcionar o desejo, impedindo o seu roubo pelas motivações do capitalismo. Assim, nos impedimos de ser meros consumidores, contribuintes com o enriquecimento da elite, que continuará tentando controlar os meios de produção para regular e manter padrões exclusivos a uma minoria populacional.
Se a técnica é a materialização do desejo, quem controla o desejo controla a evolução. Quando aceitamos passivamente as tecnologias de subjetivação do Norte Global — seus algoritmos, suas métricas de produtividade e seus padrões estéticos —, permitimos a propagação de uma antropotecnia domesticadora. Tornamo-nos "produtos" de um projeto que jamais assinamos. A verdadeira transgressão reside, portanto, em reivindicar uma antropotecnia brasileira: um conjunto de práticas, saberes e tecnologias que não visem ao lucro ou à eficiência desumanizadora, mas à expansão das nossas potências vitais e à preservação da nossa biodiversidade.
Trata-se de entender que o avanço tecnológico não é um trilho único e linear rumo ao progresso europeu, mas uma árvore de possibilidades em que a nossa base fenomenológica — o rio, a selva, a favela, o terreiro — dita as regras da inovação. Desenvolver uma antropotecnia decolonial significa fabricar ferramentas que protejam o nosso tempo, que fortaleçam os nossos laços familiares e coloquem a técnica a serviço da natureza, não contra ela. É o desejo de ser Brasil que deve pilotar a nossa ciência. Quando equalizamos o desejo e o protegemos do sequestro capitalista, transformamos a antropotecnia em um ato de libertação: a técnica deixa de ser uma coleira imposta pelo mercado e passa a ser o lápis com o qual pintamos o nosso próprio destino.
A engrenagem de controle, que opera na camada entre o querer e o fazer, revela que a batalha não se trava somente em fronteiras geográficas, mas nos circuitos do pensamento. Se o desejo é o motor da antropotecnia e a bússola de qualquer avanço, sua captura pelo capital representa o estágio mais profundo da servidão; quando o sujeito passa a aceitar a própria opressão por considerá-la a única forma de progresso, a alienação atinge sua completude. Portanto, a resistência exige uma pedagogia da autonomia, um exercício constante de distinguir o anseio legítimo da alma brasileira do ruído implantado pela indústria de massa.
Reivindicar o desejo significa restituir a humanidade ao tempo. Enquanto o sistema impõe a aceleração produtiva e o lucro como únicas métricas de valor, a afirmação da nossa identidade deve passar pelo resgate da contemplação, da solidariedade e da criação desinteressada. O Brasil, em sua pluralidade radical, possui a tecnologia social necessária para subverter a lógica do Norte Global: temos a capacidade de transformar a carência em invenção e o isolamento em participação.
Em última análise, a construção desse novo horizonte não é uma volta nostálgica ao passado, mas uma marcha em direção a um futuro em que a técnica esteja a serviço da vida, e não o contrário. Ao descolonizar o olhar, percebemos que a "régua do estrangeiro" é ineficaz para medir a imensidão da nossa potência. A soberania que buscamos nasce do reconhecimento de que somos, simultaneamente, herdeiros de uma dor ancestral e arquitetos de uma esperança inédita; capazes de gestar um mundo em que o sucesso não seja o acúmulo de capital, mas a plenitude do ser em sua própria pátria.
Somente quando a diversidade for acolhida como a estrutura fundamental da nossa realidade, superaremos a condição de subalternidade. Portanto, não basta reformar o sistema, é preciso descolonizar o sonho.
