O lápis da ação e o contrato da interação

 Camilo Cogiro

Cinthia Andrade

Revisão: Laís Fritzen


Nossas escolhas não são neutras; elas são assinaturas em contratos sociais que nem sempre avaliamos com atenção. Porém, em todos os momentos, agir é uma atitude autobiográfica. Entre a urgência da sobrevivência material e o desejo de ruptura com o status quo, o sujeito contemporâneo equilibra-se em um campo de forças onde a liberdade real reside na consciência dos próprios limites. Este texto explora a interdependência entre o “eu” e o “nós”, defendendo que a verdadeira transformação social não nasce da imposição autoritária, mas da capacidade de sustentar argumentos íntegros em meio ao inevitável conflito das ideias.

As opções relativas às variantes da vida não são infinitas, porém, são sempre algumas. Nesse sentido, sempre tenho algo a fazer em relação ao que sou, ao passo que a vida me apresenta encruzilhadas determinantes: se posso prestar um concurso ou tentar ingressar em um curso superior em alguma área do meu interesse, essa tomada de partido vai ser decisiva em meu trajeto pessoal e, logo, nos desencadeamentos sociais de que faço parte. Nenhuma encruzilhada se apresenta como escolha desresponsabilizada e o sujeito, por sua vez, decide dentro de um campo já delimitado por condições materiais, históricas e simbólicas. A ação e o contexto, então, delineiam as possibilidades, bem como as chances de ser bem-sucedido em qualquer agir.   

Muitos autores escrevem sobre o que “possivelmente é”, cada um inspirado em sua bagagem de vida. Assim também eu o faço, quando questiono o cenário como um quadro de ações e decisões. Essas ações são físicas e concretas, mas também imaginárias. Agir é um ato que implica responsabilidade, pois se construímos o mundo com o lápis da ação, assinamos contratos nas interações que fazemos.

O complexo arranjo social concretiza-se na interdependência e na mutualidade de cada um em si. Querer um mundo melhor denota ser alguém para tornar esse mundo melhor. A otimização não é somente macro, mas também está no tato ao tratar a nós mesmos, o outro e a natureza. Por exemplo, quando concebemos que é preciso ter atenção à questão climática, a responsabilidade é não poluir e agir em consonância, participando de projetos que priorizam a prática ambiental.

A construção de nossa identidade no ambiente social, ao longo do tempo, parece fazer parte da natureza humana, já que a percepção de indivíduo é moldada ainda na infância, quando nos é atribuído um papel social imposto pelo outro. Na convivência entre pais e filhos, por exemplo, a construção do “eu” ocorre por meio do espelhamento e da imitação, a partir da observação das pessoas ao nosso redor e da necessidade de pertencimento.


Ao se desenvolver, o indivíduo precisa lidar com situações determinantes para a melhoria contínua de seu caráter. O olhar para si mesmo, a partir de tais situações, vai além de impressões sociais e convicções próprias, pois direciona-se à busca por melhores atitudes no dia a dia. E para construir uma visão de si que dê propósito ao seu estilo de vida, e sentido ao seu poder de realização, é necessário sair da zona de conforto.


A tentativa de captura das noções pelo sistema, em contrapartida, se dá pela apresentação de moldes de relações, de economia e de mercado, criando um ideal aceito e desejável para cada âmbito. Nesse caso, é imprescindível maturidade para entender que cada um tem seu ponto de vista, seus formadores de opinião e, em último caso, uma especulável essência (se há uma essência, ela não se apresenta como dado fixo, mas como algo continuamente atravessado pelas relações, pelos discursos e pelas experiências vividas). 

Defender o nosso ponto de vista é vital para estarmos de acordo com o que julgamos ético, desejável ou ideal, mas isso não significa que todos devem seguir as nossas opiniões. É certo que vivemos em conflitos e tensões sociais, em que alguns apresentam discernimentos antagônicos e, algumas vezes, irreconciliáveis, o que gera uma série de atritos. A solução pode ser pensar com resiliência e altruísmo: se todos partirem do entendimento de que o outro não é um “inimigo”, poderemos, em grande parte dos casos, conseguir um alinhamento mínimo para seguir em frente sem prejuízos. Assim, é premente favorecer a disputa de narrativas, e não a tendência de imposições autoritárias.

Por mais radicalizados que meus conceitos sociais sejam, e por minha postura perante o status quo ser de mudança e ruptura, minha atitude é a de disputar a mentalidade, não a de impor, ou obrigar, o outro a concordar comigo. Esse exercício é, de fato, engrandecedor, pois, ao me inserir na disputa de ideias, tenho que treinar minha retórica e construir argumentos de poder. É só enquanto consigo defender meus pensamentos com lucidez, sensatez e de uma forma inteligível que posso convencer qualquer outro a se alinhar às minhas teses.

Afinal, nossas escolhas não são neutras, nem totalmente livres, mas condicionadas por circunstâncias. Um trabalhador, muitas vezes, não pode deixar o seu posto de trabalho voluntariamente, pois depende do salário para cumprir com as obrigações que a sociedade exige. Em cada contexto, vemos que as possibilidades se modificam consideravelmente, sejam por questões geográficas, econômicas, culturais ou ideológicas. Assim, o viver deve ser percebido como o resultado das escolhas que fazemos, também precisa partir da compreensão das ramificações que tornam as escolhas possíveis. É nesse reconhecimento, talvez, que reside a única forma possível de liberdade: a consciência dos condicionamentos.

E se aprendemos por meio da observação e da imitação, por que não podemos aprender com o sistema ao nosso redor? A vontade de mudar é validada pelo movimento, e não pela intenção. Isso se aplica, por exemplo, à técnica SWOT, que pode auxiliar tanto no desejo de mudar, como na organização cotidiana. A técnica, comum no meio administrativo, consiste na investigação de um contexto por meio de quatro pilares — forças e fraquezas (internas), e oportunidades e ameaças (externas) — possibilitam a escolha de estratégias mais direcionadas e tomadas de decisões mais esclarecidas. 

Levada para o âmbito pessoal, individual, a técnica pode ser uma aliada para identificar padrões e dar início à tomada de consciência de seus limites dentro do contexto social. A metodologia funciona como um mapa mental adaptável, que pode ser moldado à tentativa de buscar um alinhamento mínimo com a convivência empática.

Tal consciência não deve, de modo algum, ser confundida com conformismo ou paralisia do ente, pois é no reconhecimento das paredes que cercam o nosso campo de visão que encontramos as brechas para a verdadeira subversão. Se o sistema tenta capturar nossas noções de sucesso, felicidade e produtividade, a nossa defesa reside na repolitização do cotidiano. Não basta apenas “ser” no mundo; é preciso questionar a quem a arquitetura do mundo em que somos convocados a estar mais serve.

Por outro lado, quando falo em disputa de narrativas, falo de um exercício de poder que não se impõe apenas pela força bruta, mas principalmente pela capacidade de gerar sentido. O argumento lúcido e a retórica bem construída são ferramentas de emancipação, pois permitem que o outro enxergue, na nossa tese, uma possibilidade de existência que ele ainda não havia vislumbrado. Convencer é ampliar o horizonte do aliado em potencial. É entender que a nossa ética pessoal — o nosso “lápis da ação” — precisa estar em constante diálogo com a necessidade coletiva.

A questão geográfica e material mencionada anteriormente revela que a liberdade é, muitas vezes, uma questão de classe social. As encruzilhadas de um jovem em uma metrópole global não conduzem aos mesmos caminhos das escolhas de quem habita as periferias do capitalismo. As expectativas mudam consideravelmente em cada estrato social; por vezes, aqueles que compõem determinado estrato não têm permissão para errar. 

No entanto, a interdependência é o fio que nos une. A “otimização do trato”, que mencionei, não é um luxo, mas uma necessidade. Tratar a natureza e o outro com altruísmo é reconhecer que o esgotamento do mundo exterior precede, invariavelmente, o esgotamento de nosso mundo interior.

As bibliotecas, repletas de saber, são mapas de territórios já percorridos, e ainda assim, nenhuma teoria consegue abarcar definitivamente todos os modos de ser. Inúmeros livros tentam explicar a existência e, mesmo com tanto repertório, não damos conta de teorizar a prática da vida. Sigo como aprendiz, disposto ao porvir, adepto de conceitos transgressores, com coragem para enfrentar as situações frontalmente, sem desvios ou instrumentalizações para justificar meus erros.

A prática da vida é o território em si, sempre em mutação e repleto de áreas não cartografadas. Ser um aprendiz disposto ao porvir exige o desapego das certezas absolutas e a coragem de habitar o conflito. Se a essência não é um dado totalmente fixo, somos esculpidos a cada “não” com que refutamos os moldes pré-fabricados e a cada “sim” com que abraçamos as coletividades e as novas construções.

É na resiliência produzida por discórdias profundas que nos colocamos na postura de eterno aprendiz. Até onde a liberdade individual pode ser trabalhada enquanto ação versus reflexão? Se podemos ser mudados pelas circunstâncias conflitantes, e reconhecer nelas nossas próprias habilidades, a escolha torna-se um ato de expressão da livre vontade de um indivíduo.

Viver, portanto, torna-se um ato de resistência consciente. Reconhecemos que o salário nos prende ao posto, que o discurso nos molda a opinião e que a história nos impõe limites, mas, ao assinarmos nossos contratos nas interações sociais, decidimos o que é inegociável. A liberdade real não é um vazio, mas a capacidade de estar com firmeza, sabendo exatamente o que nos sustenta e o que nos oprime. Quando o desenvolvimento pessoal se torna um processo de autoconhecimento, nossa liberdade fica em harmonia com o senso social. Assumir a autoria de uma obra interminável — escrita de tensões, mas orientada pela sensatez e pela justiça humana — é um ato de coragem.

O momento é incapturável; a moeda que antes valia, hoje não tem a mesma serventia; os traços finos que desenhavam meu rosto, hoje formam rios. Seguir dialeticamente, sem respostas prontas, e renunciando certezas absolutas, sem um final idealizado, é importante para encontrar novas possibilidades a cada esquina. Na impossibilidade infinitésima de capturar o que há é onde o pensamento se mostra moldável. A intelectualidade empedernida, que cria barreiras intransponíveis e constrói muros intermináveis, não serve para gestar o mundo inclusivo que eu tanto almejo. Enquanto confio em minhas percepções — sem, contudo, as julgar únicas, tampouco universais — abro lugar para aprender com o colega que caminha ao meu lado. 

Já fui interpretado como idealista, talvez por sonhos e utopias diversas, mas não me coloco no pódio das respostas, nem sou de sugerir “soluções mágicas” para qualquer problema. O mundo se faz com ação, no ato, e qualquer fazer é disperso e diluído no cotidiano, assim como um livro não pode ser lido num segundo, e assim como modificar a sociedade não é tarefa de um dia. Meu rumo é seguir um trajeto de questionamento, não somente como rebelde ou transgressor, mas como um inquieto que utiliza as palavras para dar sentido ao que gostaria de sair gritando pelas ruas (só não faço porque seria rotulado de louco). 

Qualquer obra é resultado de sua feitura, então desloco constantemente meus entendimentos sobre coisas essenciais. A religião, a política e a filosofia são tão mutáveis em minha vida que o que concebi há um tempo serviu para que eu conseguisse elaborar o que penso hoje, e assim sucessivamente. Ler textos que escrevi sem já me reconhecer neles, me autocriticar por comportamentos de que estava convicto quando agi, talvez até num passado recente, denota que estou em transformação, possivelmente destinado a características melhores. 

Louvável é dizer que o “eu” e o “nós” são complementares, a via é entre individualidade e coletividade. Existo mediante o “outro”, só faço em parceria, e só vivo numa interdependência contínua e recorrente. Em última análise, manter-me como aprendiz é permancer disposto ao que o exterior tem a me dizer, seja em uma opinião ou colaboração com algum ente individual, ou em uma situação que imprima qualquer conclusão, mesmo que a conclusão seja inconclusiva atemporalmente, como tudo em minha vida.   

A mudança coletiva acontece quando o cidadão comum redesenha o entorno considerando limites coletivos e valores pessoais. Emmanuel Lévinas, na obra Totalidade e infinito (1961), nos convoca à responsabilidade ética antes de falarmos qualquer palavra, assim como argumenta que encarar o rosto do outro significa nos deparar com aquilo que foge à nossa compreensão, pois, nesse sentido, o outro não se trata do mesmo, mas de um novo mundo infinito. A falta de consenso social, precisamente, é observada quando tratamos o outro como uma extensão de nossa interioridade, ao invés praticar a empatia, que prevê o movimento inverso: tratar o outro nos colocando em sua pele. 

Viver exige uma postura sem desculpas para erros pessoais. A postura de interromper hábitos repetitivos e reações inconscientes — quando você nem percebe o que fez ou por que fez —, para, então, desenvolver consciência crítica, parte da voluntariedade moral de romper o ciclo em prol da urgência de novas possibilidades. É preciso partir do pressuposto de que o amanhã nunca será uma repetição, porque, de fato, nunca é. 

O exposto fez sentido para você? Essa questão está ligada à nossa maturidade em alinhar valores pessoais à transparência das nossas ações. Se sim, dê o primeiro passo. As amarras que atam social e individual movem as engrenagens do mundo, e em momentos de transição são firmados os acordos silenciosos que definem as movimentações dessa engrenagem.  




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