Camilo Cogiro
Ler Hegel e Karl Marx é compreender que sujeito e objeto são partes de um fio condutor da realidade. Ambos os autores são muito complementares e ambos aceitam que o material é o real. Contudo, enquanto Hegel dá primazia ao conceito, Marx dá prioridade à matéria. Os dois são filhos e pais de uma filosofia rica e rebuscada, que merece ser conhecida. O idealismo de Hegel não está em contradição com o materialismo de Marx; ambos buscaram na dialética, cada um com o seu olhar, um enfoque da vida real. Enquanto Hegel se deteve mais na arte, no belo e nas abstrações, Karl Marx procurou, nos meandros sociais do capitalismo à sua época nascente, formas de explicar as estruturas que nos cercam.
Lendo Hegel e Marx, ora considero-me idealista, ora materialista. É preciso entender que nenhum sistema fechado é capaz de contemplar a existência. Daí a necessidade de que diferentes teses coexistam para dar conta, mesmo que minimamente, do que é a vida. Qualquer teoria que se desprenda da realidade vivida é apenas um vácuo. Ademais, toda formulação relevante se empreende no esforço de compreender o existir de fato.
Hoje, mesmo reconhecendo-me marxista, não sou marxista fechado nos textos de Marx, Gramsci, Lênin e por aí adiante. O meu marxismo é permissivo e aceita complementaridades, permite revisões; ele deixa-me olhar o mundo com os meus próprios olhos, sempre condicionados às condições materiais de época situadas. Ser marxista hoje não é pregar o “trabalho obrigatório igual para todos”, como postula Karl Marx no Manifesto do Partido Comunista, escrito ainda em 1848. Tampouco defender a “ditadura do proletariado” no seu sentido estrito. Com isso, eu contrariaria até Lênin, que dizia que o marxista deve acreditar na “ditadura do proletariado” e defendê-la em todos os momentos. Eu mesmo prefiro o termo anarquista “poder autogestionário”, que, na minha interpretação, sempre ampla e aberta, corresponderia a termos poder de decisão perante as situações que nos envolvem — e isso nem sempre tem sido possível.
Vamos às urnas de tempos em tempos escolher pessoas que vão escolher por nós e sentimo-nos contemplados em apenas escolher quem vai falar em nosso nome. Deveríamos, sem dúvida, lutar para falarmos por nós mesmos. Às vezes, pode parecer mais fácil nomear alguém para resolver os problemas, em vez de resolvê-los autonomamente. Delegar a um pastor esse intermédio com os santos tem sido mais comum do que tentar uma conexão autônoma com o que se acredita (risos).
O brasileiro, em média, lê pouco e consome muita indústria cultural de massa… Esses conteúdos estão impregnados de mensagens de conformismo, de entretenimento vazio e pouco edificante. É preciso, antes, favorecer a leitura como forma de conhecer outras maneiras de pensar, que certamente serão complementares para formarmos a nossa própria cosmovisão.
Não pretendo desenvolver qualquer obra pastoreira, mas chamar à responsabilidade de sermos não só cumpridores de tarefas, mas pessoas questionadoras. Por que eu devo cumprir aquela tarefa? Em qual benefício?
Ler Hegel e Karl Marx coaduna com a minha própria necessidade de expandir meus horizontes. Não quero ser o mesmo do passado e espero encontrar novos autores, além dos tão citados em meus textos: Karl Marx, Rousseau, Sartre, Platão, Jorge Amado, Paulo Freire, Soyinka e Lênin. Espero avançar, pois o meu marxismo permite que eu não seja apenas marxista, mas autoriza-me a continuar sendo marxista e também idealista, existencialista, humanista, cartunista, músico, letrista, poeta, inquieto e o que mais eu quiser e puder ser.
Por isso, faço um apelo às pessoas: que leiam o quanto possível ou se informem sempre que puderem, troquem com os seus pares e estudem o máximo possível. E lembrem-se do lazer, dos momentos entre amigos, do trabalho e das ocupações diversas. Diversifiquem a sua vida o máximo que puderem, façam o quanto quiserem e acharem necessário.
Eu sou muito inquieto; havia noites em que eu compunha três ou quatro músicas. Essas músicas escritas ou gravadas ainda existem, mas estão guardadas em gavetas ou nos “porões da loucura”. Qualquer ideia é um grito subjetivo dirigido ao mundo objetivo e real. Muito do mundo é concreto, mas, assim como me ensina Hegel, existe também o “etéreo”, o conceito, a ideia na sua forma impalpável. O impalpável transforma-se em matéria útil quando é exteriorizado de um jeito minimamente lúcido, ou até mesmo por meio de devaneios com implicações lúcidas.
Os livros têm sido meus grandes conselheiros; são eles que têm me feito mudar de opinião. Inclusive, abandonei toda e qualquer religião por meio da leitura. Desapeguei-me das amarras das ilusões facilitistas e das incertezas das infinitudes… Somente os livros foram capazes de desarraigar prisões mentais de dentro de mim.
Se existe algo por trás do véu da realidade vivida, isso independe da minha crença e das minhas especulações. Por isso, vivo com as certezas que posso verificar e buscando responder às dúvidas que tenho. Reconhecendo-me, hoje, agnóstico, nada posso saber sobre espíritos, deuses, santos, orixás, exus, fadas… pois minha razão não é capaz de compreendê-los. Se essas formas existirem, bem, estimo que os bons continuem bons e sejam felizes. Contudo, nada posso afirmar com as informações certas que tenho.
Sigo como aprendiz, a cada dia esmerando minhas qualidades, podando os meus defeitos e lendo até onde consigo. A leitura, para mim, deve ser consumida pacientemente, mornamente e prazerosamente!
