O sujeito diante das contradições sociais

 Camilo Cogiro



Escolher entre a solidariedade social e o individualismo não é difícil para mim, por isso eu me declaro como uma pessoa de esquerda. Sou alguém que acredita nos serviços sociais, na assistência social, no apoio e não no egoísmo, não no rentismo e não no capitalismo como ele se apresenta. Mas digo: não acredito que uma mudança revolucionária socialista se dê somente por uma mudança burocrática. É preciso repensar a economia e os hábitos do macro ao micro, as dinâmicas culturais, as relações intersubjetivas, sociais e de produção e consumo. Defendo a ideia de que as relações “privadas” devem estar sempre submetidas ao social. Isso sem desrespeitar individuações ou liberdades conquistadas, mas, sim, traçar o limiar das liberdades diversas. As relações “privadas” devem considerar suas consequências coletivas, sem que isso implique eliminar a privacidade ou a liberdade individual.


Essa sociedade vigente, vinda de um arco histórico de precariedade humana, culminou no capitalismo, que, muito embora tenha trazido um desenvolvimento tecnológico acentuado por meio de inovações para atender às demandas cada vez mais urgentes do “mercado”, conduziu o mundo a níveis extremos de desigualdade. 


Eu venho de famílias antagônicas. Meu pai foi menino em situação de rua, e minha mãe teve acesso ao ensino particular e cursou a faculdade. Sou filho de contradições: joguei bola na rua, soltei pipa e, ao mesmo tempo, frequentei condomínios de luxo. Minha formação pessoal traz a dualidade da comunidade e de uma vida de classe média. Tive a oportunidade de morar no exterior, mais precisamente na cidade do Porto, em Portugal, onde tive contato com a contracultura e com a insurgência à sociedade vigente. Ainda jovem, fui moldando minhas ideias antinormativas. Convivi com jovens artistas, rebeldes e contestadores em relação ao que está estabelecido. Dessa forma, fui formando minha opinião, com muitas inquietações e muita vontade de gritar para o mundo as minhas verdades. 


Minhas religiões, enquanto as tive, foram sempre religiões anti-hegemônicas, como a Umbanda e a Wicca. Dentro do universo religioso, tinha a ideia de comunidade e práticas coletivas muito arraigadas. Sempre primei pelo social; a individualidade na minha vida só se deu por parte da individuação e da subjetividade, nunca pelo egoísmo, nunca pela competição ou pelo unilateralismo. 


Cada vez mais, a partir da prática cotidiana da escrita, tenho conseguido escrever o que quero comunicar sem grandes esforços. Tanto que não tenho trabalhado muito meus textos posteriormente à escrita inicial. Nos meus primeiros tempos de escrita, eu ficava meses trabalhando no mesmo conteúdo. Isso mudou com a prática e com a urgência da minha escrita. Agora consigo me expressar com menos vícios de linguagem. Por meio da leitura, adquiri um vocabulário mais diversificado. 


A sociedade vigente, com suas nuances gerais e particulares, é estabelecida, comumente, por meio do individualismo. As classes médias de maior rendimento e os ricos podem resolver quase tudo com a força do dinheiro. Não precisam de laços comunitários genuínos e fortes, já que conseguem comprar as materialidades, os serviços, as opiniões, os bajuladores e até o sexo, se assim quiserem. O exercício da solidariedade, nesse contexto, se dá como uma falsa moralidade, e não como prática de edificação da humanidade. Geralmente, o dinheiro é a própria religião dessas pessoas. Mesmo quando se declaram religiosas no seu sentido estrito, essa religiosidade se dá, muitas vezes, vinculada à prosperidade e à unção material do deus em que acreditam. 


Hoje, estando implicado no ambiente político, sendo militante de um partido formal, o que confere muita profissionalidade ao que eu faço, consigo fazer críticas mais lúcidas em relação ao cenário. Observo dificuldade na adesão à linha política socialista do meu partido, mas temos crescido politicamente. Essa dificuldade citada é fruto dos mecanismos sociais de reprodução do status quo. Vivemos num mundo conservador, ainda preso a regras e padrões antigos. É do interesse das elites econômicas familiares manter uma relação de benefício próprio, em detrimento da grande população, que não possui nenhuma garantia. Eu mesmo nada tenho, apenas o suficiente mensalmente para passar o mês; ademais, nenhuma poupança, nenhum bem, nenhuma reserva e nenhuma margem extra. E a maioria da população no Brasil vive assim. 


Por isso, temos que radicalizar mesmo, tomar partido dos nossos direitos. Precisamos de uma consciência geral de que somos nós, a classe trabalhadora, que produzimos toda a riqueza, sem, no entanto, usufruirmos igualitariamente dela. A vida do trabalhador comum é viver para trabalhar, enquanto os gestores dos meios de produção e a classe política habitam à mercê da realidade, com uma vida de extrema ostentação.


Não vejo políticos que, em tese, deveriam ser os mais interessados no bem coletivo, exercerem qualquer trabalho voluntário ou investirem bens pessoais em projetos sociais ou de interesse coletivo. Muito pelo contrário, constantemente investem os altos rendimentos que recebem nos seus cargos políticos em atividades que exploram ainda mais os trabalhadores comuns, como na indústria, nos serviços ou até mesmo em investimentos bancários parasitários. Isso precisa ser escancarado! Não podemos aceitar estar em situação de vulnerabilidade material enquanto tudo produzimos. Nenhum patrão maneja o esmeril, a ferramenta ou qualquer máquina de produção. 


Ademais, assistimos a uma sociedade de “capatazes” (em analogia com práticas de coerção). As pessoas em situação de liderança frequentemente exercem apenas a função de dar ordens hierárquicas, sem nenhuma sensibilidade à subjetividade humana. São "capitães do mato modernos”, contentam-se com o prazer de mandar e humilhar os seus subordinados. Essa sociedade da subordinação, da ordem, da hierarquização da vida cotidiana não faz qualquer sentido com a noção de igualdade e verdadeira democracia que realmente deveríamos ter.


 Minha insubordinação é em relação a esse sistema minado, em relação ao capitalismo desmedido. O rentismo, por via do vale-tudo, não pode continuar atuante. A religião que instrui ao individualismo, à prosperidade apenas individual, ao egoísmo e à submissão não pode ser seguida por nenhuma pessoa. 


Temos que ser críticos; é preciso bom senso. Estamos em tempos difíceis de disputa da opinião pública. O brasileiro é um povo simples, mas não deve ser tachado de burro. Precisamos, antes, conversar com o povo, trocar com os nossos pares; é preciso estarmos abertos ao novo, ao porvir, ao diferente, à diversidade. 


Não devemos conciliar com pessoas que querem nos explorar mais e mais. Não devemos estar de bom ânimo com uma sociedade que entrega toda a riqueza para quem não a produz. Não acredito que o caminho seja o quebra-quebra, a desordem, o tumulto. Mas também não aceito calado estar submetido à sociedade vigente, em pleno 2026, que quer me excluir de todos os direitos sociais ou até mesmo tirar a minha vida. 


Reitero que não acredito que Jesus venha interceder por mim e, atualmente, não acredito em nenhuma reza, em nenhum trabalho mágico que possa intervir objetivamente na realidade vivida.




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