Camilo Cogiro
Escrevo este texto como alguém socialmente implicado nas questões de diagnóstico médico e prescrição farmacológica psiquiátrica. Não me posiciono como crítico dos avanços científicos — os quais considero benéficos para o bem-estar e para a sociedade, desde que pautados por regulamentos éticos e sensatos —, mas sim como crítico da hipermedicalização da vida cotidiana, uma tendência crescente na prática médico-psiquiátrica. Escrevo na condição de paciente em potencial, tendo atravessado questionamentos pessoais sobre a realidade e manifestado uma visão de mundo que o médico psiquiatra avaliou como "particular", enquadrando-a em um transtorno mental relacionado a "ideias autorreferentes" e outros desprendimentos da realidade.
Elaboro esta crítica por meio de um diálogo não acadêmico, baseado em minha própria empiricidade e em vivências em ambientes clínicos e ambulatoriais. Denuncio, assim, a prática de avaliações superficiais e simplistas de questões que, embora surjam como dificuldades pessoais, recebem a interpretação de disfunções psíquicas.
Reitero que não possuo habilitação técnica para academizar os termos aqui presentes; utilizo meu entendimento cotidiano e disputo os termos da linguagem convencional para elaborar minha opinião. Mesmo tendo pesquisado sobre o diagnóstico que me foi imposto, sigo sendo apenas um paciente interessado em compreender o que foi dito sobre mim. O médico, decerto, detém o credenciamento formal para opinar, mas isso não o isenta de erros ou de argumentar com base em impressões superficiais sobre fatos objetivos.
Acrescento que, por eu possuir uma visão própria sobre a vida em geral, esse fato não deveria, por si só, ser considerado um "transtorno". Existem inúmeras formas de interpretar a realidade; cada indivíduo deve ter o direito de construir sua cosmovisão a partir de elementos psíquicos e simbólicos, atribuindo valores distintos do que é usualmente estabelecido. Embora o contrato social preveja comportamentos desejáveis, não me percebo fora das normas sociais médias. Ainda assim, a insistência médica em manter o meu diagnóstico de transtorno mental permanece.
Quanto à prescrição medicamentosa, inicialmente aceitei tomá-la, mas os efeitos colaterais foram muito fortes. Desde então, reduzi as doses ao mínimo e sinto-me bem, ajustado ao meu contexto. Esse fato, por si só, sugere um excesso na prescrição original, uma vez que o abandono de certas medicações não me fez falta e a redução de outras resultou em um equilíbrio maior.
Com base em minha experiência e em relatos de outros pacientes, percebo que diagnósticos e prescrições são, frequentemente, precipitados. Manuais acadêmicos e médicos, isoladamente, não dão conta da complexidade do comportamento humano, resultando em avaliações generalistas. Pela minha autocrítica e experiência subjetiva e partindo do princípio de que me conheço melhor do que ninguém, resta-me a impressão de ter sido avaliado erroneamente, com consequências determinantes para minha trajetória de vida.
Este cenário afeta minha autoestima. Em certos momentos, questiono se ajo conforme o esperado ou se minhas atitudes são influenciadas por uma condição clínica. No entanto, na maior parte do tempo, a opinião médica não ressoa em minha vivência, pois não se atestam os elementos que comprovariam um transtorno relacionado a "ideias autorreferentes". Mesmo pesquisando o diagnóstico, não encontro em mim traços subjetivos condizentes, como “visão autocentrada”. Dentro de minha autocrítica, apenas questiono se, em situações específicas, me posiciono excessivamente no centro dos acontecimentos, o que poderia ser interpretado como um traço autorreferencial. É uma pergunta ainda sem resposta, mas considero natural viver a experiência do mundo a partir de mim mesmo.
Questiono a percepção do médico que me avaliou: teria ele colhido os elementos com o cuidado necessário? Defendo que houve uma abordagem generalista que transformou sintomas isolados em um transtorno mental de manual.
Assumo uma autopercepção neurodivergente. Não no sentido de estar limitado por uma condição, mas como uma postura de reconhecer que confiro significados próprios à minha existência. Já fui questionado, por um grande amigo que é psiquiatra, se eu não estaria me refugiando na "neurodivergência" para evitar questões comuns a todos, mas minha autoafirmação serve para me permitir pensar como penso, sem ser forçado a um ajuste de padrão impositivo. Para mim, ser neurodivergente é um estilo de vida, não uma condição psiquiátrica.
Continuo sem tentar justificar erros com condições prévias. Minhas dificuldades são minhas; preciso trabalhá-las dentro do que sou, e não condicionadas a um laudo. Essa postura me torna dono dos meus atos. Não quero ser refém de vícios ou rótulos, pois entendo a liberdade não como a permissão para fazer qualquer coisa, mas como a oportunidade de decidir o que fazer.
Não me permito ser definido pela opinião alheia, nem alimento a ilusão de ser o que não sou. Se em algum momento instrumentalizei ilusões metafísicas para justificar fatos, hoje faço um esforço genuíno para lidar com as coisas como elas se apresentam, sem o véu de mistérios inexplicáveis. Estou bem comigo mesmo, lúcido perante "o que é" e autocrítico sobre onde estou e onde preciso melhorar. O parecer médico, embora influencie minha conjuntura pela validação que possui, deveria ser revisado para que estivesse, finalmente, de acordo com a minha real condição.
Após essa explicação inicial, e agora que apresentei os elementos fundamentais, sinto-me mais à vontade para dar continuidade ao meu pensamento. O fato de eu ter sido diagnosticado com um "transtorno mental" ocorreu em um momento de inadaptação e uso de substâncias químicas — um período em que eu estava realmente desprendido da realidade devido ao consumo de drogas. Assumo que tive problemas graves com entorpecentes, tendo iniciado o uso precocemente, por volta dos 14 anos. Essa experiência moldou significativamente minha vivência na adolescência e juventude. Inicialmente, como em muitos casos, o uso era recreativo e casual. Contudo, como aponta a literatura de Narcóticos Anônimos, o uso de drogas é progressivo; a tendência é que o usuário aumente a frequência e a quantidade da ingestão por fatores biológicos e comportamentais. Tive experiências frustradas com maconha e cocaína e, em meus últimos momentos de uso ativo, passei a ingerir álcool de forma problemática, por ser o que estava disponível.
Não encaro esse histórico sob uma perspectiva moralizante, mas reconheço que meu comportamento durante a drogadição foi equivocado, sujeitando-me a situações degradantes e desnecessárias em função do vício. Hoje, em uma avaliação sóbria, não repetiria tais condutas. Certamente, após vivenciar o sofrimento decorrente do uso e o histórico de internações, se pudesse retroceder, não experimentaria drogas novamente ou teria tomado decisões diferentes em diversas escolhas da juventude.
Porém, a vida é um trajeto de aprendizado. Ter chegado ao "fundo do poço" ensinou-me por onde não ir — e por onde seguir. Hoje, com escolhas muito mais conscientes e lúcidas frente ao presente, consigo fazer uma leitura sensata do que vivi e decidir rumar por novos caminhos. Se durante o uso eu tive pensamentos e comportamentos delirantes, hoje sou capaz de avaliar onde me desliguei da realidade e manter uma postura autocrítica para evitar o autoengano. As experiências passadas servem de acúmulo para pautar minhas atitudes atuais, sempre sob a compreensão de que a realidade não é estática, nem condicionada por elementos fixos. Eu posso mudar (e mudo) porque desejo não permanecer estagnado na pessoa que fui no passado.
O vício, os devaneios e o comportamento desviado ficaram para trás. E mesmo que o diagnóstico persista formalmente, minha atitude perante a vida e minhas interações cotidianas não são psicóticas, como sugere a interpretação médica.
Em minha experiência, concluo que o diagnóstico inicial foi simplista e não foi revisado conforme a evolução do meu caso exigia. O suceder dos acontecimentos é dialético, dinâmico e, de certa forma, pragmático. Hoje vivo uma vida construída prioritariamente pelas minhas escolhas, mas também pelas circunstâncias do entorno. Dito isso, sou alguém com características próprias, que não se resume a um rótulo clínico, embora ele faça parte do meu histórico e tenha relevância na leitura factual, às vezes até com preconceitos capacitistas de pessoas que não me conhecem a fundo ou são desinformadas. Eu não sou um diagnóstico, nem estou submetido a opiniões alheias sobre mim. Sou o que sou: um estado em constante mudança e evolução, que apreende elementos do meio para construir a própria subjetividade.
Faço um apelo aos médicos ou terapeutas que lerem este texto: reflitam se não estão enquadrando pacientes em manuais generalistas. O saber médico possui validação social e vivemos em uma sociedade que valoriza a ciência, mas qualquer subjetividade é complexa demais para ser avaliada em trinta minutos. Sigo conhecendo-me profundamente, interpretando quem sou e o que represento sem ilusões ou fantasias. Se em algum momento distorci fatos, não foi por falta de caráter ou má-fé, mas porque meus sentidos assim me instruíram na época. Hoje, contudo, tenho plena condição de defender quem sou, sendo dono do meu pensamento, do meu comportamento e da minha consciência.
