Camilo Cogiro
Preparação: Laís Fritzen
Marxismo é um amplo conjunto de ideias filosóficas, políticas, econômicas e sociais (...), com sugestões que levantam críticas ao capitalismo e sobre como o capitalismo opera. Traz conceitos inaugurados através de ideias pioneiras de Karl Marx e seu amigo, e parceiro intelectual, Friedrich Engels, durante o séc. XIX, na passagem da Primeira para a Segunda Revolução Industrial — períodos de intensa transformação social e início de novas relações de trabalho através do emprego da maquinofatura, e da eletricidade e do petróleo, respectivamente. O marxismo pode ser entendido como uma doutrina, um conjunto de ideias a serem transmitidas que revolucionaram o pensamento da época e criaram um campo de pensamento vasto e com vivacidade única.
O marxismo critica o modelo de distribuição econômica estabelecido pelo capitalismo, que enriquece cada vez mais banqueiros, grandes empresários, multinacionais, países imperialistas e, hoje, se estende às big techs, às grandes empresas de telecomunicações, e assim por diante. Percebemos que o vão econômico cresce a cada dia: enquanto uns se tornam multibilionários, a grande maioria é espremida em polos de pobreza e precariedade.
A desigualdade social atinge de forma cruel os países periféricos que, precarizados por um histórico exploratório e escravocrata, são submetidos à subserviência, na estrutura global, pela conjuntura internacional. O Brasil e a América Latina se encontram nesse patamar neste momento; grandes empresas estrangeiras dominam o mercado e serviços, levando toda a mais-valia para o exterior e exercendo pressões trabalhistas, como a escala 6x1 e trabalhos sem nenhuma seguridade social.
Marx nasceu em 1818, no mês de maio, em Tréveris, então parte do Reino da Prússia e, hoje, da Alemanha, uma localidade que já figurava no mapa intelectual da Europa. Formou-se academicamente em Filosofia e estudou Direito e Advocacia, mas sua obstinação por produzir conhecimento falou mais alto; apesar de ter tido uma vida universitária louvável, não se adaptou ao magistério e preferia escrever artigos para revistas e jornais considerados subversivos e revolucionários para a época — afinal, ao longo de sua juventude, o Liberalismo já estava consolidado e contava com teóricos econômicos reconhecidos, como o autor Adam Smith, e Marx escrevia opondo-se à essa doutrina.
Muito embora não tenha conseguido se firmar num cargo profissional fixo e com boas remunerações — devido à sua postura de não se submeter a um trabalho que não considerasse suas vocações intelectuais — ao contrário do que se propaga, Marx não foi uma pessoa desocupada: sua produção era intensa, tão intensa que somente parava de pesquisar e escrever quando sua saúde assim o obrigava.
Durante sua vida, esteve em vários países, como França, Inglaterra e Bélgica, desafiando as limitações de locomoção da época. Foi casado, teve filhos, mas viveu em dificuldades financeiras a maior parte da vida. Por vezes, sua escassez de dinheiro o impossibilitava até de enviar cartas para outros pensadores da Europa, pois não podia comprar os selos postais. Friedrich Engels, filho de um empresário têxtil, socorria Marx com frequência, fornecendo ao menos o mínimo para viver.
A escrita de Marx, assim como a de Freud, tem uma subjetividade única: organiza as palavras de forma particular e dentro dos padrões de grandes gênios. Porém, na minha opinião, não permite uma leitura tão fluida; para ler Marx é preciso atenção e foco grandes, pois seus textos apresentam complexidades imensas. Livros como Manuscritos Econômicos e Filosóficos, de 1844, e O capital, de 1867, são leituras difíceis, pois vão ao submundo da política e da economia, trazendo fatos que às vezes não são perceptíveis à primeira vista. É preciso fazer um movimento de observação dos padrões econômicos do capitalismo para entender as críticas que Marx e Engels desenvolveram, sem contar a necessidade de conhecer um pouco sobre revoluções industriais, política, sociologia, mercado de trabalho, comportamento social e economia.
No meu ponto de vista, o marxismo vai muito além de seu autor intrincado. É um vasto repertório de ideias com estilísticas de escrita diversas que se desdobram em muitos assuntos. Portanto, vários textos de autores revolucionários, que criticam o status quo econômico, político, de mercado, e até antropológico, são considerados pertencentes ao marxismo.
Posteriormente, Vladimir Lenin veio completar de forma decisiva as ideias propostas por Marx, incluindo várias teses e escopos sobre a organização partidária, como os apresentados na obra Que fazer?, de 1902, que trata da necessidade de uma organização de vanguarda para guiar uma revolução e da importância dos militantes profissionais na luta política. Essa perspectiva ajuda a balizar vários partidos políticos até os dias atuais e serve de matéria-prima para atualizações teóricas, além de estatutos, resoluções, diretrizes e demais documentos que estruturam organizações políticas e sociais.
Talvez a organização internacional atual mais relevante a levar os conceitos de Marx e Lenin adiante seja a Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxistas-Leninistas (Unidade e Luta) — CIPOML —, grupo que agrega partidos políticos e organizações de vários países, inclusive do Brasil. Alguns partidos de vanguarda que se guiam sobre essas ideias revolucionárias normalmente prezam pela discrição, muitas vezes por serem organizações clandestinas e sujeitas a repressões dos Estados burgueses atualmente estabelecidos. O Partido Comunista Revolucionário (PCR) no Brasil, por exemplo, trata-se de um partido de caráter combativo que dirige várias outras organizações.
Como dito, muitos autores se consideram marxistas; não só economistas, sociólogos e políticos, mas também vários escritores e pensadores que falam sobre o cotidiano, sempre apresentando críticas ao sistema atualmente instaurado, o capitalismo. É importante levantar hipóteses e criar alternativas à conjuntura atual e para como ela é administrada. Então, esses autores falam sobre a coletivização dos meios de produção, do aproveitamento dos espaços para funções sociais, da socialização das decisões, e de uma maior participação popular nas diversas decisões. É interessante, e necessário, que sejam propostas novas formas de ser e estar.
Portanto, os textos originais de Marx foram o primeiro molde para um método consolidado de reflexão, uma forma de contestar a realidade e criar alternativas que possam ser aplicadas no cotidiano. Essa escola de pensamento é viva e dinâmica, não se resume apenas aos seus conteúdos iniciais. Até eu posso me considerar um pensador marxista em certa medida, já que participo de grupos socialistas e escrevo, e penso criticando o capitalismo.
Contudo, hoje verificamos uma gama enorme de pessoas — escritores e produtores de conteúdo para internet, principalmente — que se apropriam do termo “marxista”, mas não têm a seriedade sociológica, antropológica e nem política para se definirem como tal. É imperativo entender que a questão não é disputar quem é o mais revolucionário, o que contesta tudo e se rebela contra o sistema, mas, sim, desenvolver métodos que possam ser, ao mesmo tempo, inovadores e aplicáveis. No meu ponto de vista, são mais aplicáveis, e socialmente saudáveis, as ideias que contemplam a todos. É preciso ter cuidado para não cair em desvios ideológicos, como estabelecer um radicalismo retórico e não fazer valer nada através da ação.
Apesar de eu não ter lido todos os textos de Marx e Engels — ainda que já tenha lido alguns deles —, já consigo “deambular” de forma íntegra por seus conceitos principais.
Dessa forma, chegamos ao limiar do entendimento de que precisamos de uma revolução se quisermos tomar outro destino que favoreça a todos; temos que ter outra postura perante a vida. É forçoso estabelecer uma nova métrica de olhar para o outro, não como alguém que pode nos oferecer algum lucro, como pontua de forma desenfreada a publicidade e o mercado burguês, mas tratando o outro como uma potencialidade, uma pessoa digna de ter reconhecimento e acolhimento. Enquanto governos tratam pessoas vulneráveis como tuteláveis, que precisam ser geridos enquanto atores sociais desprivilegiados, é premente fazer o movimento contrário: coordenar uma ação que esteja de acordo com o ideal de liberdade e dignidade almejado por todos.
Embora muitos queiram mudar o mundo, é só através da prática dos conceitos socialistas — do colocar em prática — que conseguiremos fazer a diferença em um contexto geral. Método, disciplina e mente aberta são fundamentais para integrarmos nossos conceitos revolucionários na conjuntura; a realidade tem, de fato, muitas pessoas com ideias revolucionárias, mas, também, muitas outras conformadas com as coisas como elas estão. Nosso trabalho é elevar a consciência e traçar linhas de diálogo que possam contribuir no aprimoramento da percepção geral.
