Criar uma muda é fincar raízes na comunidade

 Laís Fritzen



O simples é sempre efetivo. Costumo argumentar comigo mesma que a solução para muitos de nossos problemas está em costumes que já praticamos, mas que muitas vezes não são percebidos como práticas revolucionárias, ou que ainda não são disseminados amplamente. A natureza de reprodução das plantas — e a forma com que a realizamos entre amigos e conhecidos — me parece depender de um senso comunitário que deliberadamente ignoramos quando ansiamos produzir mais para obter mais lucro. 

Quando se trata de espalhar o verde pensado para nutrir e curar, embelezar, proteger e dar sombra — na forma de chás e temperos, plantas ornamentais e árvores —, inicialmente partimos da vontade de aprender a cultivar aquilo de que desejamos obter os frutos, e precisamos contar com a disponibilidade da espécie específica que visualizamos para obter seu primeiro exemplar. O pertencimento à comunidade desempenha um papel central na aquisição da primeira muda, porque, quando vivemos em comunidade, uma prática tão antiga quanto respeitar a existência do outro é trocar aprendizados sobre atividades diárias necessárias à subsistência e partilhar (ou trocar) os excedentes dos produtos de consumo cultivados.

O integrar-se à comunidade, então, está naquela senhora que passa pelo meu portão e pede por alguns galhos do pé de alecrim que cresce junto à cerca. Inversamente à lógica da exploração, que diz a ela para eliminar qualquer verde ou, ainda, levar os galhos sem se importar com a sobrevivência do pé, carinhosamente ela me explica que gostaria de fazer muda. Eu, inversamente à lógica de confinar qualquer planta à minha posse exclusiva, prontamente disponibilizo os galhos. 

A conversa que estabelecemos, a senhora e eu, revela-se uma troca de conhecimentos sobre as formas de plantio, os cuidados da muda, as formas de uso do alecrim e seus benefícios medicinais. Uma troca de vivências e, de certo modo, um compartilhamento de ideais, pois a forma pela qual uma de nós percebe o mundo conecta-se com a forma como a outra o vê. Tudo porque integrar-se à comunidade é beneficiar-se daquilo que o estar em comunidade proporciona; benefícios totalmente opostos ao pensamento corrente das práticas predatórias e exclusivistas. 

Antes de tratar do senso comunitário como forma de integração e compartilhamento de ideais — uma faísca de revolução —, peço licença para mudar o rumo do percurso e principiar a conversa com as características da multiplicação das plantas. 

A partir do vasto conhecimento que reunimos e partilhamos entre nossos pares, conhecimento baseado em costumes ancestrais e estudos dos mais tecnológicos, que intervêm de formas surpreendentes — e nem sempre éticas — no funcionamento biológico, desenvolvemos técnicas para produzir novas mudas. Tradicionalmente, a forma mais lembrada para a origem de uma nova muda a partir de uma planta-mãe é o plantio de sementes (até mesmo porque essa forma de reprodução acontece a todo momento na natureza quando uma semente é transportada e encontra condições propícias para germinar). Porém, esse não é o único modo de criar novas mudas, tampouco o mais efetivo; as técnicas que desenvolvemos ao longo do tempo, adequadas às características de cada espécie, incluem: divisão de touceiras, divisão e replantio de tubérculos, estaquia e alporquia.

Agora, perceba que nos valemos de técnicas porque dependemos delas. A propagação da flora acontece naturalmente por meio do ciclo da vida de germinar, crescer, produzir, reproduzir e morrer, mas nós, seres humanos, que dependemos da produção e reprodução de cultiváveis para manter nossos padrões de vida, carecemos, há cerca de 12 mil anos, de eliminar o acaso da equação natural e, por isso, introduzimos as novas formas de multiplicação que começamos a dominar. 

Irônico é o desenvolvimento das técnicas de cultivo que originalmente possibilitaram o surgimento das primeiras aldeias ainda ser motivo de funcionarmos em comunidade e buscarmos nossa integração a uma comunidade, ao mesmo tempo que é um — entre muitos — dos motivos pelos quais buscamos novas lógicas para uma produção e manutenção da vida sustentável. 

A lógica atual e a COP30. 

Desde os primeiros assentamentos comunitários propiciados pelo domínio das primeiras técnicas de cultivo, tratamos de nos aglomerar cada vez mais. Aproximamo-nos primeiramente de fluxos de água e, posteriormente, buscamos lugares com acesso facilitado para atender necessidades básicas para nossa sobrevivência: supermercados, farmácias, hospitais e assim por diante. Acrescento que, em certa medida, aproximamo-nos uns dos outros também, afinal morar em um lugar isolado no meio do mato pode o ser o sonho de vida de muitos, mas nem de longe é o sonho de todos.

Entretanto, duas das grandes consequências desse movimento de aglomeração — as que interessam para esta discussão — são o esgotamento de vida verde e de recursos naturais e o esgotamento das relações interpessoais.

Quando nos aproximamos uns dos outros, vivendo em grandes blocos de concreto servidos por ruas asfaltadas, pouco a pouco esgotamos a existência do verde — e da vida natural — porque nos acostumamos com a comodidade que esse estilo de vida proporciona. É mais do que natural esperar que cada vez menos sujeira seja encontrada e cada vez mais conforto seja sentido. É ao negar a verdade de que a sujeira nada mais é do que terra — com micro-organismos e agentes importantes para toda a cadeia de vida — que tratamos tudo o que obtemos em escala industrial como mais limpo, mais ético e mais correto, e descartamos tudo o que resta dessa produção sem peso na consciência sobre a poluição das águas e do solo, o esgotamento dos recursos e a manutenção sustentável da cadeia produtiva.    

De forma bastante similar, quando convivemos diariamente com um sem-fim de pessoas desconhecidas — no ônibus, no comércio, na escola, no trabalho, nos raros momentos de lazer —, ao invés de criarmos laços e aprimorarmos a noção de respeito ao próximo, nos tornamos insensíveis. A rotina, por vezes extenuante, e a sensação de navegar em um vasto mar de rostos, por vezes similares, mas ainda assim, tão desconhecidos, não aproxima ninguém, apenas isola.

O cultivo, que um dia foi elo de ligação entre as pessoas inicialmente desconhecidas, foi também um passo inicial para outros grandes saltos de desenvolvimento que nos deixaram à beira do colapso — e ainda estamos lá. A produção desenfreada, sem equilíbrio, atinge níveis sem volta; o aquecimento global é uma realidade presenciada a cada dia, seja por temperaturas extremas, seja por eventos climáticos com resultados catastróficos. A vasta interferência no melhoramento de espécies tornou-se benéfica no aumento da produção de insumos não-alimentícios (como podemos falar da soja enquanto insumo industrial e de consumo animal) e alguns alimentícios, mas também alterou e colocou em risco o ciclo biológico de várias espécies de plantas e animais. Investe-se muito na produção dos insumos que mantém a indústria ativa, e investe-se pouco na produção daquilo que é alimento de todo dia: grãos, como feijão e arroz, legumes e verduras.

Paralelamente, surgem iniciativas e discussões que buscam formas de frear a crise em desdobramento por meio de novos rumos. Bancos de sementes comunitários mostram-se uma alternativa importante em países pobres e dependentes de grandes áreas de cultivo. Essa iniciativa fortalece laços comunitários locais porque, ao mesmo tempo que oferece uma via de interação pela troca de cultiváveis e seus conhecimentos, oferece uma possibilidade para além da dependência de sementes de grandes grupos agrícolas: sementes crioulas, guardadas por gerações, de plantas anteriores às modificações genéticas. Como benefício, as sementes crioulas não costumam ficar à mercê de mudanças bruscas de clima, não ficam dependentes de agrotóxicos e podem ser estudadas a fim de entender diferentes funcionamentos biológicos e benefícios à saúde.

Já em grandes aglomerações, multiplicam-se coletivos que incentivam a criação de hortas comunitárias, ou mesmo pequenos espaços verdes para horta e chás que, além de também estreitar laços na comunidade, resgatam conhecimentos ancestrais, antes estigmatizados, acerca de usos fitoterápicos de plantas convencionais e não convencionais. É preciso afirmar o importante papel de projetos desse tipo na recuperação histórica de conhecimentos marginalizados e o papel das mulheres na liderança desses projetos. 

A COP30, realizada em novembro de 2025, em Belém, no Pará, enquanto discussão de propostas de lideranças mundiais para lidar com a crise climática, parte menos de soluções práticas comunitárias nas quais podemos nos espelhar e mais de soluções que precisam ser implementadas pelas superestruturas e abranger grandes conglomerados industriais. Porém, a Cúpula dos Povos, realizada nos dias 12 a 16 de novembro por congregação de entidades e grupos representantes de movimentos locais, nacionais e internacionais paralela à COP30, produziu importante documento que, ao partir de reivindicações sociais, serve como norte para diferentes iniciativas comunitárias. A Declaração da Cúpula dos Povos — assinada por mais de 70 mil pessoas —, então, é categórica ao propor o fomento à agroecologia “para garantia da soberania alimentar e combate à concentração fundiária” como forma de enfrentamento aos desafios que a produção de alimentos encontra em meio à crise climática. A forma de produção capitalista torna-se oposta ao formato viável de produção para o futuro, que precisa ser alterado estruturalmente.

Uma nova (velha) lógica e os povos originários 

Uma nova lógica possível parece poder ser pensada a partir de uma velha lógica que, longe de estar ultrapassada, carrega saberes ancestrais de cuidado da natureza, pois provém de costumes dos povos originários. A Declaração da Cúpula dos Povos, que contou com a participação de diversos movimentos dos povos originários, serve para nortear essa visão. 

Nossa forma de organização em sociedade e exploração de recursos naturais — como podemos falar sobre a imensa maioria das junções humanas modernas — esgota a biodiversidade e compromete a manutenção da cadeia de produção de recursos; ao gerar um grande volume de bens visando o lucro, produz um imenso acúmulo de capital para aqueles que percebem o amanhã como berço do poder e mina a existência atual e futura daqueles que repetidamente são explorados.  

Os povos originários estão longe de representarem um núcleo coeso de identidades e costumes, mas compartilham uma perspectiva que está na contramão da do capitalismo: viver o hoje dependendo do que a natureza oferece para o hoje; se há chuva, há descanso; se há sol, há caça e produção. Contudo, o ponto principal é que, ao fixar-se no hoje, essa perspectiva não abre espaço para o acúmulo de capital, já que este só pode ser obtido através do tempo (e através de vias raramente justas e éticas). Aquilo que a terra dá em um certo período de tempo tem sua função e destino confeccionado de acordo com esse tempo, ao passo que, ao findar de um ciclo, o planejamento para outro tem início.

A agroecologia segue também esse princípio. Seu objetivo é criar e fomentar sistemas de produção sustentáveis que resultam em frutos sem esgotamento de recursos e de fontes naturais, e sem destruir a biodiversidade, valorizando a harmonia entre comunidade e meio ambiente. Esse formato é pensado para ser mantido por um longo período de tempo, já que respeita um ritmo próximo ao ciclo natural de produção. 

Quanto ao cultivo de alimentos especificamente, algo que os povos originários dominam muito bem é a cooperação e compartilhamento de técnicas, tradição que advém de sua forma de vida em comunidade. A produção deixa de ser individual para ser coletiva, e se é coletiva, é responsabilidade de todos. Além disso, se todos precisam se responsabilizar, o conhecimento também não pode ser individual, mas precisa ser compartilhado. 

Podemos — e devemos — nos inspirar nesse formato concreto de vida em comunidade para continuar dando vida a projetos na contramão de práticas predatórias. Bancos de sementes e hortas comunitárias existem e funcionam, compartilhando ideais de preservar e fazer uso consciente dos recursos à nossa disposição.  

A poética da lógica possível

Para além da criação de hortas em grandes aglomerações, quero concluir dando ênfase à poética por trás da lógica de pedir um galho do pé de alecrim para fazer muda. Existe beleza em espalhar o verde, em disseminar uma semente ou um galho para ver aquela flor ou chá crescer em outro lugar por vontade de outra pessoa — ou da própria natureza. Existe beleza em partilhar a produção de laranjas de uma laranjeira, que produz muito mais do que uma pequena família é capaz de consumir. Existe beleza em perceber o verde invadir o concreto, pois é sinal de que a vida resiste e persiste: as espécies se mantêm porque, enquanto ali o ciclo finda, acolá ele inicia, dando continuidade à vida aonde ela foi levada — e, um dia, pode retornar aonde havia começado.

Existe beleza em fazer parte da corrente que espalha não apenas o verde, mas os conhecimentos sobre ele, afinal, viver em comunidade é ser apenas um elo da cadeia de movimentos pelo meio que nos cerca. Criar uma muda, assim, é fincar raízes na comunidade; e estar em comunidade é privilegiar o respeito e usufruir da cooperação do outro por meio do compartilhamento de saberes sobre a vida e sobre quem somos, afinal, eu sou quem tu és. 

O simples não é apenas efetivo, mas afetivo. O futuro que almejo começa por aquilo que percebo que as pessoas são capazes de fazer, e somos capazes de muito, começando pelo senso de comunidade que desenvolvemos na forma como interagimos uns com os outros. Como o alecrim que vai, um dia volta, o que é feito aqui reverbera em outro lugar.





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