Camilo Cogiro
Revisão: Laís Fritzen
A existência humana é marcada por uma tensão constante entre o meio e o indivíduo. Vivemos imersos em sistemas que moldam nossos hábitos e pautam nossas interações, mas até que ponto essas estruturas podem ser responsabilizadas por nossas escolhas pessoais?
O capitalismo não é apenas um modelo econômico, mas uma gramática social que dita o ritmo da vida contemporânea. Ao gerar desigualdades e alienações, ele impõe desafios éticos complexos a todos os que nele estão inseridos. Contudo, surgem dilemas fundamentais: até onde a crítica ao sistema serve como consciência social? E ainda: onde o sistema começa a ser utilizado como um álibi para as falhas individuais? Este texto explora a necessidade de reconhecer as opressões estruturais sem abrir mão da responsabilidade pessoal pelos próprios atos.
O capitalismo, enquanto elemento econômico, social e cultural, está intrinsecamente relacionado à forma como as pessoas interagem. Sendo um sistema focado na propriedade privada, no lucro e na acumulação, ele gera tendências que desencadeiam uma série de problemas: alienação laboral, exploração da mão de obra, concentração de renda, desigualdade, pobreza, guerras, imediatismo e competitividade. Embora a lista de mazelas seja extensa, essas são as evidências mais gritantes do esquema vigente.
Certamente o capitalismo pauta o comportamento; contudo, considero fundamental não atribuir ao sistema a autoria dos meus erros. Ao separar a conjuntura de minhas falhas pessoais, consigo corrigi-las com maior eficácia. A realidade está como está, e mesmo que eu conteste os métodos instaurados e deseje mudá-los, não devo instrumentalizar as estruturas externas para justificar tropeços internos. Parto do princípio de que sou dono do meu comportamento, das minhas ações e da minha consciência; portanto, respondo pelos meus atos. Eu não sou o capitalismo; sou um sujeito inserido em uma conjuntura.
Entendo que o meio social exerce influência sobre todos, mas atribuir o comportamento humano ao esquema social limita a capacidade de evolução. Não responsabilizo uma estrutura que supostamente me induziria ao erro por meus deslizes, tampouco justifico meus atos por influências espirituais, pois isso esvaziaria minha existência do poder de decisão soberana.
Discordo dos parâmetros do capitalismo — e almejo uma sociedade organizada de outra maneira —, mas ele não pode ser a causa fundamental de minhas falhas. Eu sou o que sou, e a sociedade opera sob seus mecanismos instituídos. Logo, devo agir perante o que se apresenta: meus comportamentos devem ser avaliados de acordo com a realidade concreta, e não como subprodutos manipulados e justificados por um sistema econômico.
A cultura exerce força sobre os membros de qualquer sociedade; sou influenciado por hábitos, tendências, contratos sociais e expectativas do meio. Contudo, é dentro dessa conjuntura que tomo minhas decisões, que podem ser boas ou ruins. Enquanto ser de ação e consciência, tenho a capacidade de avaliar se, dentro de dada estrutura, meu comportamento é adequado e se minha ação se alinha ao que julgo correto.
O capitalismo e a cultura são elementos de análise, mas não podem servir de escudo para erros de esfera pessoal. Utilizar justificativas externas para comportamentos individuais desresponsabiliza o sujeito e transfere a culpa para outros fatores. O indivíduo está implicado nos atos que comete; do contrário, tudo seria subproduto da conjuntura. Portanto, cada um é dono de seus atos, embora submetido às circunstâncias. Faço essa avaliação compreendendo que a sociedade não “é”, mas “está” em determinado recorte de tempo. Assim, o comportamento insere-se em um contexto, mas não pode ser sumariamente justificado por tal contexto, visto que os próprios critérios de avaliação desse comportamento também estão em constante transformação cultural.
Posso mediar o que acontece relativizando o contexto, levando em conta o racismo, o machismo, o patriarcado e as condições familiares, por exemplo; tudo isso deve ser pesado. Mas o ato fala por si. A “jurisprudência social” deve ser aplicada como lente de análise, porém, subjugar o ato inteiramente à conjuntura parece reduzir méritos e responsabilidades a fatores alheios ao ser que age.
Reconhecer a força das estruturas sociais é um exercício de sociologia, mas assumir a autoria dos próprios atos é um exercício de ética. A verdadeira emancipação reside em reconhecer que, mesmo numa conjuntura, o movimento de cada ação ainda pertence ao indivíduo. Ser sujeito é habitar o espaço tenso entre a influência do mundo e a soberania da escolha.
A maturidade reside em compreender que nenhuma condição social, por mais opressora que seja, é plenamente estável ou capaz de anular a autoridade da consciência. Influenciado pela premissa existencialista de que somos responsáveis pelo que escolhemos ser, entendo que a sociedade não é um bloco monolítico de destino, mas um recorte temporal permeado por tensões e transitoriedade. Embora as condições sociais influenciem o cenário da ação, o comportamento deve ser medido pelo que ele representa no momento em que ocorre.
Reconhecer o peso do sistema é um ato de lucidez intelectual. Já assumir a autoria do ato, apesar do sistema, é o único caminho para uma ética verdadeiramente humana. Afinal, a liberdade é a capacidade de agir com autonomia dentro dos condicionamentos, respondendo soberanamente pelo que se pratica.
Meu pensamento encontra eco no pensamento de Jean-Paul Sartre, para quem o ser humano está, invariavelmente, “condenado a ser livre”. Essa liberdade não significa a ausência de condicionamentos externos — como as pressões da cultura —, mas sim a impossibilidade de se eximir da responsabilidade sobre o que fazemos com aquilo que o mundo fez de nós.
Reconhecer que a sociedade “está” em um determinado recorte de tempo, permeada por tensões e transitoriedade, é um exercício dialético. Todavia, o comportamento factual, o ato em si, deve ser mantido sob a avaliação da consciência. Se a conjuntura fosse o único motor da ação, o sujeito desapareceria na estrutura.
Ao reivindicar a autoria dos meus atos, mesmo inserido em uma lógica sistêmica com a qual discordo, exercito a maturidade de quem compreende que a “jurisprudência social” pode explicar o contexto, mas jamais substituir a autoridade da minha decisão. Ser livre, nesse sentido, é aceitar que, embora o cenário seja dado, o movimento da ação é, e sempre será, um compromisso do próprio indivíduo.
