Camilo Cogiro
Revisão: Thaís Mesquita
A música é o meu maior amor e minha grande frustração. Essa é uma frase que eu já disse repetidas vezes, em vários contextos e com diferentes pessoas. De fato, a música atual já não é mais a mesma. Até que eu não tenha sido contemporâneo da maioria dos artistas que tenho como referência, sigo saudosista, inclinado a músicas que requerem uma apreciação cuidadosa, talvez uma maior sensibilidade e um critério musical apurado.
Pratico música há quase 20 anos. No início, de forma obstinada e intensa, com várias horas de estudo semanais, concentrando meus esforços em técnica, leitura, teoria e percepção musical. Era o meu feeling do momento e minha motivação, convertendo-se no meu primeiro ofício, ferramenta de inserção social e meio de subsistência. Consegui resultados satisfatórios de imediato, apesar da inexperiência em lidar com questões pessoais e de escolhas equivocadas pelo caminho. Eu estava seduzido por esse fazer e tinha a total intenção de me tornar um bom músico e atingir o reconhecimento.
Essas primeiras referências musicais — que incluíam Tom Jobim, Milton Nascimento, Ivan Lins, além de lendários musicistas internacionais como Miles Davis e Pat Metheny, todos dentro da mesma linha estética criacional que abrange jazz, músicas do mundo, bossa nova, fusion e rock progressivo — contribuíram para a construção de um vasto e rico repertório. Nunca fui consumidor de música pop, apesar de reconhecer alguns títulos do segmento e até saber dos principais artistas do mercado. No começo, eu não tinha tanta sensibilidade para as dinâmicas do mercado musical. Eu queria fazer boa música, e isso me bastava. Não me atentava a questões como a veiculação do meu som ou a necessidade de conceder entrevistas para rádios e meios impressos. Essa frente me passava despercebida. Talvez a internet não estivesse tão evoluída na época, mas foi uma lacuna profissional que reconheço; eu deveria ter dado atenção a isso. Ainda assim, atravessei diversas fases e, em muitas delas, consegui exercer a arte em sua plenitude. Toquei nas principais salas, conservatórios e festivais. Aprendi com grandes músicos, tive bons professores e hoje considero que cumpri parte da minha missão na área.
Mas minhas inquietações atuais me levam a novas reflexões. Atrevo-me a dizer que a música em que acredito já não encontra espaço na atualidade. O público já não a ouve, e até mesmo outros músicos não acreditam ou não conseguem se rentabilizar por meio dessas linguagens. Afirmo que o capitalismo destrói a arte, a qualidade de vida, os sonhos e qualquer intenção de afirmação subjetiva. É o sistema da padronização — seja dos timbres, das formas, das narrativas ou do debate político. O capital engessa o indivíduo em ideias generalistas e mecanicistas, com lógicas industriais.
Tive um amigo de juventude que é sobrinho do grande músico brasileiro Lô Borges. Ele me dizia que grande parte dos músicos que criaram o Clube da Esquina, um dos movimentos culturais mais influentes do mundo, não enriqueceram e continuam trabalhando, mesmo em idade de aposentadoria, para se manterem — com um ou outro artista como exceção. O sistema vigente quantifica o sucesso em ativos financeiros, não em reconhecimento e mérito criativo. O que joga de escanteio grandes gênios, como é o caso do meu pai, Marcos Buzzana, que também é ótimo violonista e um grande cantor e compositor.
A lógica mercadológica da arte atual se atém ao número de reproduções nas redes sociais. Talvez algumas composições contemporâneas sequer devessem ser chamadas de arte. São produtos, com milhões de visualizações e reproduções na internet, que inundam repetidamente as principais rádios e geram milhões para o bolso dos envolvidos no processo de gravação e comercialização desses takes. A cultura pop — ou, numa análise mais severa, a “música de mercado” — define os formatos que geram lucro, por meio de uma assimilação imediata, quase sempre atrelada à euforia ou ao lazer, distanciando-se da apreciação, introspecção e reflexão intelectual. Hoje, artistas como Chico Buarque ou Edu Lobo são considerados de “nicho” e restritos a uma parcela seleta de ouvintes.
O grande mercado capitalista padronizou a música. Já não ouvimos um álbum inteiro, apenas os hits, e existem profissionais muito distantes da arte e da cultura que operam nos bastidores, criando produtos que possam gerar dinheiro. O “músico de mercado” já não busca exprimir vocabulários e ideias que somem à cultura. Muitas das canções atuais limitam-se a falar de um cotidiano supérfluo e trivial, tratam de situações sem nenhum tipo de introspecção. São letras e ritmos que estimulam hábitos primários e que reforçam uma rotina comum, sem nenhum tipo de rebeldia ou contestação ao status quo.
A tecnologia, as materialidades, escondem uma realidade melancólica. O trabalhador da arte perdeu espaço. Embora a internet tenha pulverizado e democratizado o acesso, ditando novos rumos, minha crítica não se direciona à ferramenta digital em si, mas às imposições do mercado. Critico como o pensamento hegemônico dita as regras com base no enriquecimento de poucos, sufocando rotas alternativas de subsistência. A boa arte fica reduzida a uns raros circuitos e, sempre que possível, é também mercantilizada, em grandes eventos, nos quais a qualidade sonora é preterida em função do espetáculo imediato baseado na euforia, no consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas, e tão só na diversão.
O profissional da cultura, hoje, já não é um filósofo — é meramente um entertainer. Move-se em troca de curtidas nas redes sociais, de um reconhecimento passageiro e voltado para ocupar lacunas sociais capitalistas.
Então, por meio da música, levantamos questões sociais — já que é criada e consumida coletivamente. Ela é exemplo perfeito da homogeneização, ou seja, não tem características singulares. Ainda que sindicatos e outras instituições tratem de auxiliar os artistas, a realidade se impõe e priva muitas mentes brilhantes de se desenvolverem, pois, no cenário atual, não sobra tempo para se dedicar. Muitos artistas são submetidos a escalas de trabalho que inviabilizam a formação, o aperfeiçoamento técnico e até mesmo o consumo de conteúdos mais apurados, que requerem uma atenção maior, uma repetição nas execuções e ócio criativo.
As pessoas se mecanizaram; tornaram-se engrenagens de uma sociedade que se faz nos moldes da produção de dinheiro, não de qualidade de vida. Alguns poucos enriquecem por meio da exploração e da precarização do trabalho alheio. Nesse enredo, a arte é esquecida, deixada de lado ou exercida sem qualidade.
Dessa forma, deixamos para as eras passadas a música de excelência. Resta-nos a nostalgia e a esperança de que seja possível produzir, com o mínimo de categoria e condição, o esmero dos sons. Os meios urbanos estão tão saturados que é difícil se concentrar em tarefas específicas, que exigem calma e um acercamento à filosofia e à criatividade.
Concluo, portanto, onde comecei: a música é o meu maior amor e minha grande frustração.
