Camilo Cogiro
Super autoridades podem ser contestadas? Podem e devem ser contestadas! Não é porque algo (um governo, uma ideia, um livro ou um autor) está instituído ou é amplamente reconhecido que não deva ser alvo de contestação. Ter a vocação para contestar “verdades” é algo que faz parte da minha antinormatividade.
A autoridade não é um atributo eterno; ela é construída social e historicamente. Governos, instituições, intelectuais e tradições conquistam legitimidade por diferentes meios, seja pela opinião coletiva, pela produção de conhecimento ou pelo exercício do poder. No entanto, nenhuma dessas formas de legitimidade elimina a possibilidade de erro ou impede que seus pressupostos sejam revistos. A própria história demonstra que muitas autoridades consideradas incontestáveis em determinada época foram posteriormente superadas.
Outro dia, fiz uma crítica a uma parte da obra do autor antirracista Frantz Fanon. Quando o reconhecido literato sugere que a pessoa negra quer pertencer ao mundo do branco, ou que escolhe suas relações conjugais com base em critérios de negação à própria raça, ele faz uma afirmação inconsistente, factualmente frágil e pequeno-burguesa. Essa interpretação ignora a enorme diversidade das experiências negras e transforma uma tese observada em determinados contextos sociais em uma característica geral da população negra. Assim, eu contestei uma autoridade da produção de ideias e fui criticado. A tradição dialética parte justamente do pressuposto de que a realidade está em permanente transformação e que novos conceitos surgem da superação das contradições existentes. O planeta Terra já foi considerado o centro do universo e muita gente já foi pra fogueira por pensar ou propagar ideias diferentes das estabelecidas. Teses tidas como absolutas geralmente estão em benefício das classes dominantes. Muitas do que é constituído na política, nos mitos, nas moralidades, na educação, tem como função reproduzir relações de poder. Portanto, para não me submeter a um poder que não me representa, eu preciso pensar criticamente sobre aquele fato.
O reconhecimento da importância de um autor não implica concordância integral com sua obra. Grandes pensadores produziram análises brilhantes ao lado de interpretações que podem ser limitadas pelo contexto histórico em que viveram. Ler criticamente significa reconhecer suas contribuições sem transformar seus escritos em verdades imutáveis. O respeito intelectual não exige concordância absoluta, mas honestidade na análise e disposição para o debate. Em diferentes épocas, sociedades transformaram líderes políticos, filósofos, cientistas e religiosos em figuras praticamente intocáveis. Essa tendência à idolatria intelectual empobrece o debate público, pois substitui argumentos pela autoridade de quem os enuncia. Ideias devem ser avaliadas principalmente por sua coerência lógica, por sua correspondência com a realidade e por sua capacidade explicativa, e não apenas pelo prestígio de seus autores.
A dúvida não deve ser encarada como sinônimo de total descrença, mas sim como um meio de busca. Questionar uma ideia é submetê-la ao exame racional. O conhecimento avança porque hipóteses são confrontadas com argumentos, evidências e experiências. Quando uma autoridade deixa de admitir esse processo, ela corre o risco de transformar conhecimento em dogma.
Óbvio que muitas ideias tidas como verdades coadunam com a minha visão de mundo; nem tudo que é dito eu considero equivocado. Mas, se eu discordo de algo, preciso ter a honestidade intelectual de contestar. Os socialistas e comunistas discordam dos capitalistas, mas muitas vezes acabam delegando especial atenção à mídia burguesa. Existem também pessoas que, baseadas em manipulações de referências próximas, corroboram ideias hegemônicas. É natural sermos influenciados pelo contexto cultural, mas isso não pode suprimir a nossa crítica perante as coisas do mundo.
Se podemos criticar o sistema, podemos igualmente contestar as suas principais instâncias. A universidade frequentemente consolida certos referenciais teóricos, produzindo ciência que possui status de autoridade na sociedade atual. A religião continua sendo também fonte de autoridade. A própria Bíblia, até hoje, é incontestável para parte dos cristãos, mesmo com versos muito improváveis em sua factualidade.
De toda forma, não se trata de negacionismo, mas sim de não considerar absoluta qualquer afirmação. Mesmo em áreas amplamente consolidadas pela ciência, novas pesquisas podem aperfeiçoar tratamentos ou identificar terapias complementares eficazes em determinadas condições, desde que submetidas aos mesmos critérios rigorosos de validação.
Autoridade não pode ser sinônimo de universalidade. Voltando à religião: muçulmanos e espíritas creem em autoridades diferentes, têm hábitos religiosos diferentes. Concluo que a autoridade não é um carimbo contra qualquer contestação ou qualquer comportamento diferente. Até mesmo padronizar tudo, aceitar tudo sem críticas, reconhecer tudo como verdadeiro é uma postura de submissão contraproducente. Determinadas formas de autoridade podem assumir características autoritárias quando deixam de admitir contestação, impõem obediência acrítica ou recorrem predominantemente à coerção. O próprio Estado, como forma de autoridade, é assiduamente autoritário, como no caso das desapropriações, das dispersões de pessoas e até nas políticas econômicas e em algumas leis. Além do mais, o sistema penal, como descreveu Michel Foucault em sua obra Vigiar e Punir, é uma autoridade autoritária e, em alguns casos, desumano.
Então, é crucial questionar autoridades que não nos representam, argumentos com os quais não concordamos, governos que não reconhecemos como legítimos. Por outro lado, existem noções de civilidade e cidadania, que servem como mediadoras das nossas ações; o pensamento é quase livre, a ação não. Pensar autonomamente não nos permite desrespeitar o espaço ou a opinião do outro. Existem normas mediadoras da liberdade, inclusive da liberdade de como discordar. Questionar autoridades é uma condição indispensável para a autonomia intelectual. No entanto, a crítica só cumpre bom papel quando é exercida com responsabilidade, respeito às pessoas e compromisso com argumentos consistentes, distinguindo o livre pensamento da simples negação de qualquer autoridade. Em última análise, a liberdade de pensar começa exatamente onde termina o medo de questionar.
