Deambular por conhecimentos: A estética do pensamento livre e da minha escrita

 Camilo Cogiro

Revisão: Bruna Paquier Cestari




O exercício de escrever é uma prática eterna; meus textos nunca estarão concluídos. Para explicar, utilizo o conceito da filosofia que diz que qualquer conhecimento nunca é absoluto; até mesmo a ciência não consegue respostas definitivas e atemporais. Eu trabalho por etapas, já fiz e refiz meus textos várias vezes e, de tempos em tempos, constato que não estão tão bons quanto gostaria. Continuo perseguindo o inalcançável, fazendo jus à minha condição de utopista.

A escrita, para mim, nunca foi um exercício de obediência a manuais; foi, antes de tudo, um desabafo do ritmo. Minha jornada com as palavras começou na melodia das canções e no fôlego da poesia, onde a urgência de dizer superava a preocupação com a norma. Ao longo de mais de uma década e meia, essa produção deixou de ser apenas um impulso juvenil para se tornar um ofício, uma ocupação, moldado por leituras sobre vários assuntos que vagam entre a estética e a crítica social, mas que mantêm o espírito de quem vê na comunicação um território de descoberta.

Nesse percurso, compreendi que a linguagem é viva, uma extensão da nossa própria subjetividade que se transforma conforme a exigência do tempo. Minha formação não se deu entre as paredes da academia, mas no contato direto com a cultura lusófona, que me ensinou a beleza da diversidade. O que apresento a seguir é o retrato desse amadurecimento: o relato de um autor que se reconhece inacabado, valoriza a densidade do conteúdo sem abrir mão da leveza da forma, e encontra na tecnologia uma aliada contemporânea para a mensagem cumprir o destino de alcançar o outro.

Escrevo com finalidades profissionais há pelo menos 15 anos; no início, poesias e letras de música, certamente com bastante imaturidade linguística ao começar. Desde então, leio com alguma regularidade, desde livros sobre arte, espiritualidade e cultura decolonial até obras de Ciências Sociais. Essas leituras elevam meu vocabulário e me ajudam no repertório teórico. Romances e novelas geralmente não fazem parte do meu acervo, apesar de eu já ter lido alguns títulos de Jorge Amado, como Gabriela, Capitães de Areia e Tieta.

Não domino profundamente o português; considero-me um apreciador de textos, sem um entendimento mais profundo das normas cultas e gramaticais. A escrita é uma importante via da minha comunicação com o mundo. Leio e escrevo por gosto, porém sem o compromisso com as regras mais rígidas estabelecidas.

Certo é que a linguagem está sempre em movimento; o português, meu idioma nativo, passa por ajustes mediante o tempo e se transforma para se adaptar às necessidades de cada época. Já tive a oportunidade de estudar em Portugal, no ensino secundário, onde aprendi um pouco de Fernando Pessoa e conceitos da filosofia que dialogam com a comunicação. Essa experiência me mostrou que, mesmo com os acordos ortográficos, o mundo lusófono apresenta diferenças linguísticas entre si. 

1 - Países lusófonos são nações onde o português é língua oficial, formando a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que inclui Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Timor-Leste.

Não estou vinculado a nenhuma universidade nem a meios de produção de conhecimento formal, o que me oferta certa liberdade para formular minhas ideias de acordo com o meu entendimento cotidiano. Contudo, tento sempre criar com o intermédio de ideias fundamentadas e comprovadas. Sendo eu um utopista, aventuro-me pelo estilo e projeção de lampejos que possam transgredir a erudição para dialogar com pessoas comuns que, assim como eu, não têm familiaridade com a linguagem acadêmica. Aproprio-me da língua portuguesa como alguém que entra numa cachoeira: deixo as palavras caírem sobre minhas ideias como a água de uma cascata em um dia de verão, espontaneamente…

Por não ter estudado tão profundamente o português, meus textos, em sua grande maioria, têm a necessidade de revisão. Parte de minha obra passou por correções feitas por pessoas letradas. Minha produção pessoal é de alta intensidade, sempre foi. Houve época em que eu compunha várias músicas numa única noite; grande parte dessa obra musical se perdeu ou está praticamente esquecida em cadernos em alguma das minhas gavetas. É característica minha produzir em grande quantidade, pode ser que, por isso, algumas produções minhas até fiquem boas, enquanto outras mereçam um cuidado maior.

A música foi meu passaporte para a intelectualidade; ouvir e estudar Tom Jobim elevou minha percepção sobre a arte. Outros compositores brasileiros também me influenciam fortemente, por exemplo: Chico Buarque, Ivan Lins, Caetano Veloso, Djavan, Milton Nascimento, Luiz Melodia. Todos são poetas de alta classe que criaram acervos memoráveis e relevantes. Meu pai, Marcos Buzzana, é, igualmente, uma forte influência em minhas criações, pois tem um estilo humanista ligado à espiritualidade da concepção de ideias.

Acredito numa utilização das palavras mais livre, sem me desprender da lucidez. Penso meus versos com uma estilística desapegada da formalidade. Não tenho a pretensão de fazer uma ciência rígida, mas sim de deambular por conhecimentos, tatear acontecimentos e produzir com alguma densidade; forma e conteúdo devem estar em harmonia. Um filósofo nem sempre quer dizer a verdade, mas produzir beleza.

Dessa forma, faço uso de versos da música “Choro Bandido”, de Chico Buarque e Edu Lobo — música que considero uma das mais bonitas e expressivas do conjunto da produção poética brasileira. Segue:

“Mesmo que os cantores sejam falsos como eu

Serão bonitas, não importa

São bonitas as canções.

Mesmo miseráveis, os poetas

Os seus versos serão bons.”

Sabendo que a escrita é um terreno livre, em que ninguém é dono de um idioma, muitos tentam se colocar como autoridade — seja acadêmica ou intelectual, diminuindo e caricaturizando a produção de autores que não têm uma formação mais avançada em instituições estabelecidas —, sigo acreditando que, por meio de estudos diversos e do empirismo, acesso conhecimentos importantes para a constituição das minhas sugestões.

Atualmente, já é possível utilizar a IA, em muitos casos com qualidade. Sendo assim, em alguns textos busco ideias ou complementos com a ajuda de conteúdos produzidos por ferramentas da internet; em outros, revisões, partes de textos ou imagens.

Entendo a tecnologia não como um substituto da criatividade, mas como uma extensão — um pincel moderno que auxilia na composição de quadros cujas cores eu já havia imaginado. Se antes as gavetas escondiam cadernos com letras esquecidas, hoje as ferramentas digitais funcionam também como um arquivo, permitindo que a urgência da minha produção encontre um lugar onde a forma possa ser lapidada sem perder o vigor do lampejo inicial. A Inteligência Artificial entra nesse cenário como um interlocutor: ela oferece o espelho necessário para que eu enxergue as arestas que a paixão da escrita espontânea, por vezes, deixa passar.

Essa dualidade entre o orgânico e o sintético reflete a própria natureza da linguagem que defendo: uma entidade viva, em constante reforma, que se recusa a ficar presa aos grilhões do purismo gramatical. Ao utilizar esses novos recursos para revisar ou complementar minhas ideias, não abandono minha identidade e alcanço o engajamento com clareza. Afinal, se o objetivo é dialogar com a "pessoa comum" e ultrapassar os muros da erudição, qualquer ferramenta que torne a ponte mais sólida é bem-vinda.

Sigo como um eterno aprendiz da estética e da vida. Entre as influências de meu pai e a sofisticação harmônica de Tom Jobim, encontro o equilíbrio necessário para transitar pelo tempo da atualidade. Continuarei deixando que as palavras caiam sobre mim como a água da cascata, agora sabendo que posso canalizar o fluxo para não molhar apenas a superfície, mas atingir caminhos mais profundos. No fim das contas, pouco importa se a correção veio de um acadêmico ou de um algoritmo, desde que o verso permaneça bom, e a canção, como diriam Buarque e Edu Lobo, continue sendo bonita.






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