Liderança como regência: a arte de orientar

 Camilo Cogiro

Cinthia Andrade

Revisão: Laís Fritzen


Muitas vezes, a palavra "liderança" é confundida com hierarquia rígida. No entanto, a verdadeira essência de um líder não reside na capacidade de dar ordens, mas na habilidade de organizar, orientar e estar presente. Liderar é, acima de tudo, um ato de serviço.

Ninguém deve se posicionar em um pedestal de onipotência. Pelo contrário, a eficácia de uma gestão está na postura de se colocar em posição de igualdade com a equipe; ou melhor, ao invés de privilegiar uma hierarquia vertical, privilegiar relações horizontais. Quando eliminamos a barreira da superioridade, criamos um ambiente de segurança psicológica em que os problemas podem ser resolvidos de forma ágil e transparente. O líder é aquele que está disponível para remover obstáculos, para guiar e sugerir meios de solucionar os problemas.

O aprendizado dos palcos: o coletivo como responsabilidade.

Minha visão sobre liderança começou a ser moldada aos 19 anos. Na época, como estudante de música, assumi o papel de compositor, instrumentista e arranjador de uma banda. Ali, percebi que, embora eu pudesse escrever as partituras, a música só ganhava vida por meio do coletivo.

Dessa vivência, extraí um pilar fundamental: a construção de qualquer projeto é responsabilidade de todos. Isso exige um compromisso mútuo que envolve:

  • Pontualidade e presença: respeitar o tempo do outro;

  • Contribuição ativa: colaborar tanto com recursos materiais quanto com ideias;

  • Superação: estar à altura dos desafios propostos pelo projeto.

O ponto crucial é a forma como enxergamos o outro. Um colega nunca deve ser visto como um "serviçal" ou apenas um meio para atingir um fim. Da mesma forma, um talento na equipe jamais deve ser encarado como uma ameaça.

Cada membro de um grupo traz consigo: 1) subjetividades e vivências: histórias únicas que moldam sua visão de mundo; 2) técnicas: talentos específicos que somam ao conjunto; 3) particularidades: necessidades e ritmos diferentes que precisam ser respeitados. Afinal, cada pessoa tem particularidades que devem ser sempre ouvidas e valorizadas.

Acredito que liderar é, antes de tudo, criar condições para que o outro se destaque. Quando o foco recai sobre o humano e o sucesso é entendido como uma obra coletiva, a liderança deixa de ser um peso hierárquico para se tornar a regência de uma sinfonia.

Traduzo essa visão na prática cotidiana como coordenador de um núcleo regional da Unidade Popular pelo Socialismo (UP), em Belo Horizonte. Ali, exerço uma gestão que rompe com os manuais tradicionais: faço uma gestão socialista. Diferente da lógica de mercado, nossa prioridade é a humanização dos processos. O objetivo — além do cumprimento de metas — é a qualidade da experiência política de cada militante.

Meu papel é garantir que a participação seja transformadora. Atuo para que o crescimento pessoal seja uma oportunidade. Isso significa cultivar espaços de fala em que o acolhimento prevaleça, incentivar a disciplina com horários e tarefas e, fundamentalmente, desenvolver as competências técnicas e políticas dos companheiros.

Entendo que a liderança não é um título de posse, mas uma função delegada. No contexto socialista, ela repele o autoritarismo e a decisão unilateral. Por ocupar esse lugar de confiança, mantenho um compromisso ético rigoroso com minhas ações e palavras, ciente de que cada escolha individual reverbera e define o destino do nosso projeto geral.

Modelo clássico de gestão.

A administração convencional é definida como a ciência de gerenciar e coordenar recursos (humanos, financeiros, materiais e tecnológicos) de uma organização para alcançar objetivos definidos. Esse processo envolve planejar, organizar, dirigir e controlar atividades e pessoas, sendo vista como fundamental para o sucesso de empresas e governos. 

A administração convencional, também chamada de clássica ou tradicional, pode ser compreendida, de modo geral, a partir da forma como a história impôs seus métodos, fortemente vinculada aos princípios do capitalismo, já que, ao longo do tempo, a riqueza constituiu-se como um ator de ascensão e ambição para os indivíduos que a detinham.

No ambiente corporativo — que se desenvolveu com foco no lucro —, Frederick Winslow Taylor se destaca como o autor que exemplifica um modelo de gestão que influenciou diretamente as formas de atuação no setor trabalhista. Com uma visão voltada ao controle rigoroso do tempo e dos movimentos, esse modelo disseminou a perspectiva do trabalhador como meio de produção, não como sujeito. Em outras palavras, o trabalho passou a ser organizado de modo a atingir metas que levavam ao sacrifício das pessoas, em um contexto no qual muitos direitos ainda não existiam.

O maior exemplo da popularidade desse modelo é a própria história das relações trabalhistas que, conforme foram evoluindo, passaram a demandar modelos diferentes de organização. É a partir dessa compreensão que se pode refletir sobre como a liderança deve ser tomada nos dias atuais.

O período da 1ª Revolução Industrial caracteriza-se como aquele em que os trabalhadores assalariados enfrentaram condições de trabalho precárias. Um fato histórico marcante do período subsequente a esse de tal precariedade foi a Greve de Haymarket (Chicago, 1886), quando trabalhadores nos Estados Unidos organizaram protestos exigindo melhores condições laborais e, como consequência, enfrentaram retaliações e repressão violenta. Mesmo com a forte repressão — que incluiu a execução de manifestantes —, o episódio tornou-se um marco simbólico da luta trabalhista, vindo a ser lembrado por meio da criação do Dia Internacional do Trabalhador, em 1.º de maio, que honra a luta daqueles que pereceram.

A liderança enquanto legado 

A forma de liderar pode ser analisada a partir do ambiente profissional histórico da 1ª Revolução Industrial, mas deve ser pensada principalmente a partir do sistema colonial britânico, que é fator enraizado por trás de muitas características administrativas tradicionais. 

De todo modo, a abordagem de condução vem mudando à medida que a qualidade das metas atingidas passa a ser analisada em relação a uma liderança saudável. Em pauta estão as necessidades de todos serem respeitados e vistos com dignidade em um mundo capitalista em que tais aspectos não são encarados como fundamentais. 

As dinâmicas introduzidas pelas organizações diante dos desafios impostos à gestão de pessoas devem estar em conformidade com princípios básicos, como a percepção da pessoa em relação à atividade, que deve ser social e transformadora. Os aspectos da esfera social, por sua vez, devem buscar soluções sustentáveis a partir de um eixo central: o bem-estar.

O modelo realmente socialista insere-se nesse contexto como uma perspectiva a ser analisada e debatida. Trata-se de uma proposta mais humanizada, que demonstra como é possível alcançar conquistas de forma empática. Diferente da administração convencional, voltada à gestão de recursos com foco na eficiência e na acumulação de capital, a gestão socialista parte de outro pressuposto: os bens e os processos são comuns. Nela, pressupõe-se o direito de todos na gestão dos bens, compreendidos como bens comuns. Não concebo a propriedade — nem o poder — como exclusivos de um indivíduo.

A autogestão, composta por projetos geridos pelos próprios participantes, torna-se, assim, uma alternativa a hierarquias fortemente verticalizadas. Na autogestão, o objetivo central é a transformação das relações sociais, em que o trabalho deixa de ser uma imposição para tornar-se uma atividade consciente.

Enquanto o capitalismo foca em como produzir para gerar o máximo de valor monetário, o socialismo concentra-se no quê produzir para garantir o bem-estar coletivo. O contraste entre a eficiência do lucro e a eficiência das necessidades é, no fundo, uma disputa sobre o que a sociedade considera "sucesso". 

No sistema capitalista, uma empresa é considerada eficiente se ela consegue oferecer mercadorias e vendê-las por um valor maior do que o custo de produção. Geralmente, para lucrar, uma empresa pode poluir um rio ou reduzir salários. Outra contradição é que, do ponto de vista do lucro, é eficiente criar produtos que percam sua utilidade rápido (para forçar uma nova compra), aumentando assim a exploração da matéria-prima, pois mais é extraído e transformado.  

Para a administração socialista, a eficiência é medida pela capacidade de satisfazer necessidades humanas com o aprimoramento do esforço e menor desperdício de recursos possíveis. Não adoto modelos organizacionais centrados no lucro. Minha finalidade é o aperfeiçoamento da instituição e das pessoas que a constroem. O sucesso, nesse sentido, é medido pela capacidade coletiva de amadurecer, organizar-se e transformar a realidade.

Fundamentação teórica

Conexão e empatia representam questionar por que “os modelos convencionais de gestão estão fadados ao fracasso”, como apresentado no livro Líder humano gera resultados, de Lígia Costa. A partir dessa perspectiva — que compreende cada pessoa da equipe como única —, quando fomentadas união e cooperação, inúmeros desafios serão resolvidos por meio da abordagem harmoniosa de gestão.

O comando transparente deixa as responsabilidades bem definidas. À medida que é gradualmente inserido nas organizações sociais, o tempo mostra sua capacidade em cumprir com o objeto de equipe. Na colaboração, a adaptabilidade é vista como qualidade na interação positiva no ambiente. 

Na gestão tradicional, a tomada de decisão pode seguir somente a hierarquia; e outro ponto igualmente importante é que a dinâmica do líder não apresenta a escuta ativa como no modelo socialista. Portanto, caso alguém da equipe esteja passando por dificuldades, todos devem ser encarados como líderes de um mesmo objetivo. As necessidades, desejos e desafios da equipe devem ser fortalecidos por meio da confiança e da busca por respostas realmente aplicáveis. A razão para tal é que os envolvidos em tribulações desse cenário necessitam de comunicação simples, demandando a construção de uma rede de apoio e uma relação de entendimento. 

Em geral, o sistema de gestão social é o alicerce e o pilar contra a infelicidade das pessoas. Considerando que grande parte de nossa energia é dedicada à sobrevivência, é preciso olhar atentamente para os problemas. É necessário se perguntar: como a autonomia afeta o desempenho da equipe? Com esse olhar atento, cada pessoa pode compartilhar sua singularidade.

Por mais estranho que possa parecer, observar tudo o que se espera de um ambiente confortável e o que ele pode proporcionar em relação às vivências traz consigo uma visão de decência do ser humano.

No Brasil, a empresa Vagas destaca-se pelas boas condições de trabalho, citada pelo verbete do Projeto Draft e reconhecida pela Management Innovation eXchange (MIX) como referência mundial em gestão horizontal. Apesar de ser uma empresa cunhada no sistema capitalista, apresenta algum avanço e pode ser uma ponte entre os diferentes mundos de que este texto trata. Isso garante que, em nosso contexto, existam mais experiências voltadas para a construção de ambientes saudáveis.

Reflexões finais

À luz dessas reflexões, é possível pensar sobre o sentido do altruísmo. Importar-se e demonstrar interesse pelo que a pessoa está falando revela que o líder compreende as necessidades da equipe ao resgatar valores como união e participação. Afinal, tudo se resume a pessoas, cada uma com suas singularidades.

Igualmente importante é entender que a edificação é sempre coletiva. Quando diferentes grupos tendem a idealizar as conquistas em relação ao sucesso, acaba sendo deixada de lado qualquer união de indivíduos que poderia ser mais saudável em um modelo mais humanizado.

Como exemplo, pode-se citar a saúde mental, que atualmente é discutida e envolve fatores como estresse, ansiedade, depressão e burnout (também conhecido como síndrome do esgotamento), todos relacionados à cultura organizacional. Estima-se que 32% dos profissionais brasileiros sofram com a síndrome de burnout, com base em dados coletados pela International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), estimativa que escancara as contradições presentes na gestão clássica.

É de arrepiar pensar que a maneira de conduzir uma equipe faz tanta diferença, envolvendo diversas camadas da vida das pessoas. Para muitos, isso não é perceptível quando não se compreendem as causas de atitudes questionáveis no mundo das interações sociais.

Em outras palavras, ao indicar a existência da gestão alternativa, evidencia-se um modelo de bom senso que pode ser moldado. Como esperado, esse modelo oferece maior flexibilidade e modifica o padrão tradicional.





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