Camilo Cogiro
REVISÃO: Thaís Mesquita
Um movimento musical e cultural surgido na década de 1960, na cidade de Belo Horizonte, ultrapassou fronteiras e se consolidou como uma das vanguardas artísticas mais importantes do século XX. Aqueles garotos, à época, certamente não imaginavam que a criatividade espontânea de criar acordes e letras para novas composições impactaria de forma decisiva a música mundial.
Quem conhece um pouco de música já ouviu temas como os lendários “Clube da Esquina” (1 e 2), “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo” e o álbum magistral “Terra dos Pássaros”. Artistas como Milton Nascimento, Lô Borges, Flávio Venturini, Beto Guedes e Toninho Horta, entre outros, misturaram influências e estilos de tocar e compor. Ao realizarem uma fusão que dialoga com a música mundial, eles formaram uma “escola” da música mineira com suas harmonias cheias de informações sonoras.
O Clube da Esquina consolidou-se como um movimento de vivacidade, cujos precursores souberam cultivar o mérito composicional expresso e desenvolvido ao longo de muitos anos. É difícil mencionar qual músico do Clube foi o mais internacional, pois todos rodaram o mundo. Milton Nascimento, por exemplo, gravou com os principais músicos de jazz do mundo, assim como Toninho Horta que participou das mais influentes gigs em Nova York, na Califórnia, no Japão, na Europa e mundo afora. Esses gênios se encontraram e aproveitaram um momento de ebulição social, período em que os primeiros estúdios com boa qualidade fonográfica começaram a ser montados.
É estimável o nível de sofisticação que tais artistas alcançaram; eles não apenas gravaram canções, mas também produziram trabalhos que ficaram marcados de forma singular na história. Os temas, produzidos ainda com tecnologia analógica, estimulam um saudosismo típico de quem gosta de ouvir as séries harmônicas de cada nota. Tudo foi feito para quem aprecia distorções de guitarra de bom gosto, combinadas ao bumbo e à caixa da bateria, que marcam o tempo com timbre impecável.
As músicas dos artistas do Clube da Esquina influenciaram outros grandes gênios internacionais, como Brad Mehldau, Björk, Pat Metheny, Ron Carter, Stanley Clarke, e continuam sendo ouvidas por várias gerações de entusiastas da música. Essas obras não são passageiras como outras boas composições que, embora boas, não têm a capacidade de ficar na memória, de marcar uma época.
Certamente existem muitas histórias nas entrelinhas do movimento cultural do Clube da Esquina. Foram muitos anos de produção e, hoje, como ouvinte, observo que os criadores do movimento cumpriram o seu papel: se engajaram na missão de mudar o mundo e conseguiram.
Já ouvi histórias de que o aclamado Milton Nascimento tocava contrabaixo acústico na noite de Belo Horizonte, e já assisti a vídeos em que ele fala de seu acordeão de 8 baixos, que o acompanha desde a infância. Os músicos de Belo Horizonte têm uma relação de carinho muito grande com esses artistas inovadores; em qualquer barzinho da cidade, é comum ouvir composições de Milton, Lô Borges e Beto Guedes. Eles foram e são grandes expoentes da cultura mineira, inserindo o estado de Minas Gerais no mapa global através da arte.
Quando ouço Toninho Horta, eu me lembro das ladeiras da cidade de Ouro Preto; ouvindo Beto Guedes, remeto-me à Praça da Liberdade; Flávio Venturini traz à mente brisas noturnas da cosmopolita capital mineira.
As Vanguardas inauguram conceitos, abrem portas e trazem algo novo ao cenário, guiando coletivos e ultrapassando o cotidiano. Sua relevância é tamanha que elas adentram as universidades eruditas, como demonstra a presença de Toninho Horta na Berklee (em Boston, EUA) ou Milton Nascimento sendo cantado por musicistas acadêmicos no Japão. O Brasil inovou na música com a Bossa Nova, o Tropicalismo, o Samba e o próprio Clube da Esquina, que não teve medo de ser sofisticado e pop ao mesmo tempo. São canções radiofônicas, perfeitas para serem ouvidas em casa, no carro ou em festas, integrando a trilha sonora de casamentos e comemorações importantes.
Essas músicas são de tal modo versáteis que se revelam tanto intimistas quanto adequadas para grandes eventos de euforia. Podem ser apreciadas como relíquias para ouvidos muito apurados ou servir de trilha sonora de grandes shows, nos quais a vibração coletiva certamente está presente.
“Os caras”, criadores de acordes profundos e letras sensíveis e subjetivas, consolidaram-se não só como músicos convencionais, que lançam um sucesso ou fazem alguma gravação. Eles foram realmente relevantes para a cultura ao articularem-se com outras artes: TV, cinema, literatura, fotografia e poesia. Dessa forma, ditaram regras de como fazer acordes dissonantes e, ao mesmo tempo, assimiláveis, construindo letras que transpõem várias realidades nos mesmos versos e palavras que atingem significados atemporais sem perder a coerência do conjunto.
Tenho orgulho de viver no mesmo recorte de tempo desses artistas, que são tão grandes quanto Tom Jobim, Chopin ou os Beatles. Ser de Belo Horizonte e circular pelos espaços que serviram de inspiração para os músicos do Clube me deixa feliz, pelo simples motivo de isso permear também a minha vivência. Essa turma fez shows míticos, gravou álbuns, como o “Angelus” de Milton Nascimento, que são rebuscadamente relevantes.
Quando eu vou ao bairro de Santa Teresa, na região leste de BH, viajo no tempo ao permear os acordes folk de Milton, as harmonias super-jazz do Toninho Horta e as distorções da guitarra de Beto Guedes.
O mundo muda a cada época: novas tendências surgem, hits entram na moda e desaparecem para dar lugar a outros conceitos. No entanto, o Clube da Esquina se firmou no tempo como uma rocha, reverberou de forma plural, permeou gerações e modificou o mundo.
Agradeço a todos os gênios desse movimento cultural; vocês participam de cada etapa da minha construção de vida. Desde o meu início na música, quando comecei a descobrir esse som magnífico das Gerais, encantei-me com novas formas de ver o mundo e de enxergar os fatos subjetivos que se perpassam na minha existência.
O Clube da Esquina é uma das mais relevantes ações criativas da nossa história, produzindo obras fantásticas e dando ao mundo o sabor dos sons. Faltam palavras para descrever o trabalho do Clube. Mas diria eu: fantásticos, criativos, geniais e inovadores. Viva a música!
