Camilo Cogiro
Revisão: Laís Fritzen
O trabalho constitui uma das principais atividades humanas. O ato de transformar a realidade, produzir mercadorias, modificar a natureza e oferecer serviços são algumas das várias modalidades dessa atividade. Na qualidade de leitor de temas diversos, muitos deles voltados à antropologia e à sociologia — não como pesquisador acadêmico, nem especialista em um assunto específico — posso tatear a temática do trabalho de forma contínua.
Considero-me marxista não apenas no campo intelectual, mas na práxis: participo de vanguardas marxistas-leninistas; estudo e vivo essa cosmovisão. Entendo a realidade como algo condicionado pelas possibilidades materiais de cada tempo. Assim, a cultura, o social e o ideológico estão sempre atrelados às condições de produção material de dada sociedade. E como marxista, compreendo a luta de classes como o motor da história. Entendo que as classes sociais não nascem apenas da diferença de renda, mas da posição que cada indivíduo ocupa em meio aos meios de produção: enquanto uns vivem da exploração do trabalho, outros sobrevivem vendendo a própria força de trabalho.
Nas instituições de estatística, as classes são categorizadas na forma de estratos mediante o rendimento financeiro. Segundo o portal Brasil Escola, a divisão das classes econômicas obedece aos seguintes critérios de renda familiar:
Classe A: Mais de 15 a 20 salários mínimos.
Classe B: 5 a 15 salários mínimos.
Classe C: 3 a 5 salários mínimos.
Classe D: 1 a 3 salários mínimos.
Classe E: Até 1 salário mínimo.
Essa classificação foca no rendimento domiciliar total (salários, aluguéis e outras fontes), e os valores em Real oscilam conforme o reajuste do salário mínimo: em 2025/2026, a Classe A é frequentemente definida acima de R$ 25.000 mensais. As métricas variam entre institutos, como IBGE, PNAD e ABEP, que por vezes incluem escolaridade e posse de bens (eletrodomésticos e infraestrutura residencial).
Embora eu reconheça que o rendimento médio e a escolaridade sejam critérios legítimos de avaliação social, entendo que, para Marx, a divisão fundamental ocorre entre burguesia e proletariado, duas classes antagônicas no seio da coletividade. A burguesia detém os meios de produção, enquanto os proletários possuem apenas sua força de trabalho para auferir rendimentos.
Com o desenvolvimento industrial, o trabalho deixou de ser artesanal. Para ser competitivo, ele depende de meios de produção complexos. Nas fábricas, o trabalho é fortemente segmentado, o que aumenta a produtividade e reduz custos. Cada trabalhador torna-se responsável por etapas mínimas: apertar um parafuso, pintar uma peça ou pregar uma parte de uma máquina. Embora essa definição de segmentação pareça antiga e não abarque toda a complexidade do trabalho atual, ela ainda explica a lógica das grandes empresas: o funcionário raramente domina a totalidade do processo laboral; ele responde a uma função determinada e é, tendencialmente, especializado (e limitado) no que faz.
Essa especialização, somada à repetição, ao tempo de jornada e ao esforço contínuo, conduz à alienação. O trabalhador comum, restrito a uma única tarefa, é privado de assimilar a realidade como um todo. O ideal, a meu ver, seria que o eletricista compreendesse também a física aplicada, por exemplo, em vez de apenas consertar um interruptor.
Por outro lado, um dos elementos mais atuais do capitalismo é sua capacidade de transformar a subjetividade em mercadoria. Não se vende apenas um produto, mas estilos de vida, identidades e pertencimentos simbólicos. As redes sociais, os algoritmos e as plataformas digitais operam como grandes mecanismos de captura da atenção humana. O trabalhador já não vende somente sua força física ou intelectual: vende também sua imagem, seus dados, seus afetos e sua capacidade de permanecer constantemente disponível. A exploração ultrapassa o espaço tradicional da fábrica e invade o cotidiano, o tempo livre e a intimidade.
A precarização do trabalho ocorre também pela dissolução dos vínculos humanos. O capitalismo contemporâneo estimula a competitividade permanente, enfraquecendo laços coletivos e dificultando a construção da solidariedade entre trabalhadores. O indivíduo é constantemente induzido a enxergar o outro como concorrente, e não como semelhante. Essa lógica produz isolamento, ansiedade e sensação contínua de insuficiência. Já o sofrimento psíquico deixa de ser percebido como consequência social e passa a ser tratado como fracasso individual.
A ideologia meritocrática talvez seja uma das formas mais eficientes de manutenção da ordem capitalista. Ela desloca questões estruturais para o campo moral, como se sucesso e fracasso dependessem também exclusivamente do esforço individual. Nessa lógica, a pobreza deixa de ser compreendida como produto histórico das desigualdades materiais e passa a ser interpretada como incapacidade pessoal. O trabalhador exausto é convencido de que precisa apenas “se esforçar mais”, enquanto as estruturas que concentram riqueza permanecem intactas.
Karl Marx e seus seguidores explicaram essa realidade através de conceitos como valor de uso, mais-valia, valor de troca e trabalho abstrato. No capitalismo, estamos constantemente atrasados em relação à "última novidade". O sistema exige inovações técnicas e simbólicas para suprir sua tendência de acumulação infinita. Institui-se a pressa como parâmetro e o consumo como forma de pertencimento, alterando a percepção humana sobre o que é necessário. Até o imprescindível — como água e energia — torna-se mercadoria.
O avanço tecnológico, que poderia representar a redução do sofrimento humano e da carga de trabalho, é utilizado para intensificar a exploração. Máquinas, softwares e sistemas automatizados possuem potencial para libertar o ser humano de tarefas desgastantes. Contudo, sob a lógica do capital, tais ferramentas acabam sendo direcionadas para ampliar produtividade, acelerar ritmos e aumentar lucros. Ao invés de servir prioritariamente à emancipação humana, a tecnologia torna-se instrumento de vigilância, controle e aprofundamento da alienação.
Existe também uma dimensão cultural da alienação que não pode ser ignorada. A indústria cultural produz desejos padronizados e transforma o entretenimento em mecanismo de conformação social. O consumo excessivo de conteúdos rápidos, superficiais e descartáveis favorece a dificuldade de reflexão profunda sobre a realidade. O imediatismo se torna hábito psicológico. A sociedade passa a consumir informações em velocidade cada vez maior, mas compreende cada vez menos as estruturas que determinam sua própria existência.
Vivemos para reproduzir o capital, que passou a ser a medida da existência humana. Mas isso tem solução.
Como intelectual e militante, compreendo que o marxismo ultrapassa os textos marxianos; entendo-o, fundamentalmente, como um método de análise e ação sobre a realidade. Embora certas previsões de Marx não tenham se concretizado, muitas de suas teses permanecem tanto fidedignas quanto aplicáveis, mesmo após um século de sua formulação.
O marxismo, para mim, não é um crachá de validação externa, mas sim um mapa de ação. Por meio das ideias de Marx e, eventualmente, de Sartre, mudei radicalmente meu posicionamento perante a religião e me tornei agnóstico. Considero a existência de Deus — ou do sobrenatural — como algo desconhecido ou impossível de se comprovar pela razão humana. Adotar essa postura foi uma libertação das amarras religiosas. O materialismo e o existencialismo foram cruciais para despertar em mim a busca pela razão e pelo pensamento objetivo. Portanto, hoje, afirmo que qualquer certeza ou crença em seres espirituais constitui uma alienação da condição humana. Embora não considere a religião desimportante e respeite a crença individual, recuso-me a especular sobre entes celestiais ou forças imateriais que supostamente ditariam a realidade.
Para mim, as ideias de autores como Marx e Lenin são matéria-prima para o pensamento e, sobretudo, para fomentar práticas convergentes com a revolução que almejo. A revolução não cabe nos livros, mas encontra neles um aliado indispensável.
A luta revolucionária não deve ser compreendida apenas como confronto econômico ou disputa institucional. Existe igualmente uma batalha simbólica e cultural. Disputar a consciência coletiva significa romper com valores profundamente internalizados pelo capitalismo: individualismo extremo, competitividade permanente, culto ao consumo e naturalização das desigualdades. E transformar a sociedade exige também transformar a forma como os indivíduos percebem a si mesmos e suas relações com o mundo.
Porém, o capitalismo também possui uma habilidade histórica de absorver críticas e convertê-las em mercadoria. Discursos de rebeldia, contestação, e até mesmo a estética revolucionária, frequentemente são apropriados pelo mercado e transformados em produtos comercializáveis. Inclusive a pura indignação pode ser esvaziada quando reduzida a identidade superficial. Por isso a construção revolucionária exige organização concreta, continuidade histórica e enraizamento popular, para não se tornar apenas mais uma expressão simbólica que será absorvida pela lógica do capital.
A mentalidade capitalista evoluiu de trocas simples para um sistema financeiro global intrincado, regido pela suposta "mão invisível", onde termos como "mercado que se autoajusta", "livre concorrência" e "meritocracia" são falácias que tentam conferir ordem ao caos, contudo, o capitalismo não é uma essência imutável, mas se impõe como forma de vida única.
Talvez uma das maiores vitórias do capitalismo tenha sido fazer com que muitos trabalhadores não consigam mais se reconhecer enquanto classe. A fragmentação das relações de trabalho, a hiperindividualização e a cultura do empreendedorismo dificultam a percepção coletiva das contradições sociais. O trabalhador precarizado muitas vezes não se vê como explorado, mas como um “empreendedor em potencial” temporariamente limitado. Essa inversão ideológica enfraquece a organização política e favorece a manutenção das estruturas de dominação.
Tenho inclinações revolucionárias, mas mantenho a lucidez de entender que a revolução exige um longo acúmulo de forças. É preciso desconstruir o status quo para implementar um novo modo de vida. A mentalidade atual, pautada no imediatismo e no desfrute rápido — no "agora e já" —, é um acúmulo de séculos de construção social, mas o vício pelo consumo e a propensão pelo trabalho alienado não proporcionam uma significação real à vida.
Mas e agora?
Não escrevo manuais sobre "como vencer o capitalismo". Embora tenha meus modelos ideais de uma sociedade revolucionária, não os vejo como sistemas universais aplicáveis a qualquer subjetividade. A construção coletiva é interdependente; cada indivíduo contribui com seu "tempero". Além disso, descarto a ideia de uma revolução feita apenas por livros ou teses acadêmicas. A elevação da consciência é determinante para qualquer suprassunção. É vital estudar livros relevantes, mas revoluções puramente literárias são ficcionais. A complexidade humana ultrapassa qualquer autor. As livrarias estão cheias de obras revolucionárias, enquanto as revoluções ali propostas permanecem não concluídas.
Gestar a revolução é um trabalho cotidiano, um "fazer". Não adianta ganhar em uma frente para perder em outra. É preciso somar os avanços para que estes sirvam de impulso para conquistas maiores. Derrubar a escala 6x1, por exemplo, seria um avanço imediato na qualidade de vida de milhões, mas, para além da redução da jornada de trabalho e da valorização salarial, pautas como a tarifa zero e o direito à moradia são fundamentais. O Poder Público já aporta subsídios vultosos às empresas de transporte; portanto, é perfeitamente viável converter esses recursos em um serviço de qualidade, mas livre de cobrança direta ao usuário. Projetos nesse sentido já tramitam em diversas capitais brasileiras, e a reivindicação já conseguiu vitórias parciais, como a gratuidade aos domingos e feriados em Belo Horizonte. Contudo, é imperativo avançar: a universalização dos direitos sociais é a única via para garantir uma vida digna à classe trabalhadora.
Mesmo diante das contradições do presente, continuo acreditando na capacidade humana de construir novas formas de sociabilidade. A história não é imóvel. Nenhum sistema social é eterno. Embora apresente enorme capacidade de adaptação, o capitalismo também produz continuamente suas próprias tensões internas. A desigualdade crescente, o adoecimento psíquico coletivo, a precarização da vida e a destruição ambiental demonstram os limites de uma sociedade organizada exclusivamente em torno do lucro. Pensar alternativas deixou de ser apenas exercício teórico: tornou-se necessidade histórica.
Concluo com a convicção de que não esgotei o tema. Como marxista prático, compreendo que toda obra é dialética e provisória. Convido-os a acompanhar minhas teses, que são desabafos perante o real. Trago o empirismo não apenas como experiência sensorial, mas como uma síntese de teoria, estudos e trocas coletivas. Não busco escrever textos milagrosos, apenas abrir uma porta para o diálogo e acender a centelha do questionamento.
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