Camilo Cogiro
Revisão: Thaís Mesquita
Alguns vivem sob um imaginário colonizado, no qual o espelho da civilização reflete apenas o processo eurocêntrico e norte-americano. Essa lente, imposta desde a formação escolar até o consumo digital cotidiano, oblitera as potências do Sul Global e silencia vozes que não se alinham à lógica da acumulação. Antes de questionarmos para onde vamos, precisamos entender para onde estamos olhando e, principalmente, a mando de quem. É preciso romper com a passividade de sermos apenas plateia de um espetáculo que nos exclui ou nos caricaturiza.
Por que continuamos a privilegiar os centros históricos de poder? Afinal, são nesses lugares onde o capitalismo mais se reproduz, onde a concentração de capital se faz mais presente e, ao mesmo tempo, onde o estilo de vida está mais engessado. Ali, o consumo industrial e o dinheiro são os principais atores que movimentam notícias, mídias e redes sociais. Estamos em uma fase do capitalismo em que o sistema nos coopta por todos os lados, moldando nossas noções, hábitos e crenças. Ao ponto de o senso comum entender que a métrica do sucesso é medida em dinheiro.
Nesse cenário, continuamos a olhar para os EUA, Europa, Nova York ou Paris como modelos únicos de civilização. Sob essa ótica, pouco diversa e nada poliédrica, em que a globalização e a aculturação exercem forte influência —, compreendemos que precisamos enriquecer ou ostentar a “marca x”. Assim, somos reduzidos a consumidores cujas mercadorias definem o que e quem somos.
A colonização não atua apenas sobre territórios e economias; ela também se instala no imaginário coletivo. Desde cedo aprendemos quais sotaques são considerados sofisticados, quais culturas merecem prestígio e quais conhecimentos devem ocupar os espaços de poder. Essa operação simbólica produz indivíduos que muitas vezes rejeitam suas próprias origens em busca de reconhecimento social. O resultado é uma subjetividade fragmentada, constantemente pressionada a corresponder a modelos externos de sucesso, beleza e inteligência.
Embora carregue a África dentro de mim, não tenho a ambição de falar sobre ela com profundidade técnica, nem especular sobre as diversas culturas que compõem o continente. Sou negro, mas desconheço minhas origens em África, pois a própria sociedade apaga esses dados para roubar a personalidade do negro. O resultado é um indivíduo que se vê impelido a querer ser, consumir e agir como branco, deixando sua ancestralidade de lado. Quando critico o meio universitário ou instituições proeminentes, faço-o para expor minha insatisfação com o fato de que a maioria das ideias e autores ainda parte do Norte Global, preterindo uma cultura riquíssima.
Enquanto determinadas formas de conhecimento são elevadas à condição de ciência universal, outras permanecem relegadas à condição de folclore ou curiosidade regional. Os saberes dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais raramente ocupam lugar de destaque nos currículos escolares ou nos grandes meios de comunicação. No entanto, essas populações desenvolveram ao longo dos séculos formas sofisticadas de organização social, manejo ambiental e construção de vínculos comunitários que podem contribuir significativamente para enfrentar os desafios contemporâneos.
A própria saúde mental não escapa à lógica mercantil. Em uma sociedade que transforma tudo em produto, até mesmo os afetos são submetidos à produtividade e ao desempenho. Cresce o número de pessoas que se sentem insuficientes ou fracassadas por não conseguirem acompanhar padrões de consumo e realização impostos pelo mercado. Muitas vezes, aquilo que se apresenta como um sofrimento individual tem raízes profundas em estruturas sociais que produzem exclusão, competição permanente e sensação de inadequação.
Os negros são constantemente caricaturizados como figuras exóticas ou elementos da natureza, em vez de pessoas plenas. Em certos livros acadêmicos, são representados como selvagens que não acessaram a civilização e a “cultura”. Enquanto isso, autores brasileiros diversos tentam se impor, forçando o uso de termos em alemão, inglês, francês e italiano. Os dicionários em línguas africanas, que têm termos como “moleque”, “acarajé”, “samba”, que fazem parte da nossa vivência, são ignorados pela norma culta, ficando restritos à linguagem informal dos guetos.
O Brasil é essencialmente mestiço com uma população de biótipo misto. Devemos reconhecer o negro e os nativos indígenas como fundantes da nossa nação, combatendo o histórico colonial que posicionou os brancos como elite após invadirem e imporem suas ambições sobre as demais etnias.
Por isso, criticar o capitalismo requer uma autoanálise sobre o tipo de conteúdo ideológico que consumimos: devemos questionar se frequentamos apenas shoppings (centros comerciais do capitalismo) e redes de fast food ou se valorizamos feiras populares e projetos em contato com a natureza intocada. Valorizar exclusivamente a França ou a Itália não é um ato anticapitalista, pois é nessas metrópoles que o capitalismo e o imperialismo ganham força e impõem suas vontades.
Não precisamos ir longe para encontrar alternativas: em qualquer região do Brasil, existem territórios originários onde os ribeirinhos vivem da pesca e da terra. Quem busca referências apenas em Londres ou Milão alimenta o sistema. Ser anticapitalista é ser anticolonial e decolonial; é enxergar o Sul Global como exemplo. Atualmente, o consumo de e dos grandes centros de poder é um impositivo social: quem tem mais dinheiro vai querer ter uma roupa italiana ou alemã, influenciando o jovem que enxerga nesse padrão um sentimento de pertencimento.
Ser anticapitalista é favorecer o que é nosso; é entender como os lugares que não estão nas principais manchetes também são muito importantes. A elite econômica tende a beneficiar seus próprios lugares; os grandes bancos dos centros do capitalismo investem em infraestruturas com base em seus interesses. As contradições ecológicas e climáticas escancaram as injustiças. Os países que mais poluíram historicamente são os que hoje vendem tecnologias “verdes” a preços exorbitantes, falseando a percepção pública, mas apenas em função do acúmulo de capital.
Construir alternativas ao modelo dominante não significa rejeitar toda produção estrangeira ou idealizar qualquer território periférico. Significa, antes de tudo, ampliar o horizonte das referências disponíveis e reconhecer a pluralidade de experiências humanas existentes no mundo. Uma sociedade mais justa depende da capacidade de dialogar com diferentes tradições culturais, valorizando aquilo que emerge dos povos historicamente silenciados sem abrir mão da crítica e da reflexão permanente.
Falar sobre África exige superar as imagens simplificadas construídas pelo olhar colonial. Não existe uma única África, mas dezenas de países, milhares de grupos étnicos, línguas, religiões e expressões artísticas. Trata-se de um continente que abriga algumas das civilizações mais antigas da humanidade e que continua produzindo literatura, filosofia, música, ciência e tecnologia de enorme relevância. Conhecer essa diversidade é também uma forma de romper com narrativas que insistem em associar o continente apenas à pobreza, aos conflitos ou ao atraso.
De forma conclusiva, quero estudar mais sobre África. Mantenho meu fôlego de escrita; como relatei em outros momentos, sempre produzi muito. Minha inquietação e minha energia me fazem querer falar, esvaziar minhas angústias, frustrações e gritar para o mundo. África deve ser mais valorizada, não vista apenas como tribal. Suas riquezas, savanas, rios, mares, montanhas, arquiteturas, culinárias, povos e nações devem ser respeitados e ter mais visibilidade.
Ser anticapitalista é enxergar os melhores valores nos povos silenciados. A implementação de um novo sistema social exige uma mudança de mentalidade. Para a evolução, não bastam a burocracia política ou a técnica; é necessária a subjetividade, o acolhimento dos históricos pessoais e a construção a partir do que somos, em vez de apenas traduzir fórmulas distantes para a nossa realidade.
Termino convidando os leitores a me indicarem textos, livros, arte e música de artistas africanos, negros, mestiços e periféricos, que sejam originais, não comerciais, que possam alargar minha cosmovisão e minha consciência do que é o mundo. Não quero ser refém de um poder que não me representa; quero ser um transgressor que revoluciona mentes para que estas multipliquem ações contra interesses escusos de perpetuar diferenças, assimetrias e desigualdades sociais. Que possamos construir quilombos intelectuais e afetivos onde quer que estejamos.
Talvez a verdadeira descolonização comece quando deixamos de perguntar apenas o que o mundo espera de nós e passamos a perguntar o que podemos construir a partir de nossa própria história. A resistência nasce na recuperação da memória, na valorização da cultura popular, no fortalecimento dos vínculos comunitários e na coragem de imaginar futuros diferentes daqueles que nos foram impostos. É nesse movimento que a transformação social encontra suas raízes mais profundas.
Que nossa referência seja, definitivamente, o nosso território. O caminho é longo, mas o ímpeto de gritar é o que mantém viva a chama da mudança. Sigamos em movimento: onde houver memória e ancestralidade, haverá resistência.
