Camilo Cogiro
Revisão: Julia Netto
A trajetória da humanidade é indissociável da busca por respostas sobre a existência, o universo e o que reside além do tangível. Essa busca consolidou-se, ao longo dos milênios, na forma das religiões — instituições de estruturas complexas que moldam os alicerces das civilizações. No entanto, para compreender essa construção em sua totalidade, é preciso olhar além do véu da espiritualidade e observar sua face pragmática: uma engrenagem de poder, controle social e influência econômica. Mais do que um conforto para a alma, as instituições religiosas atuam como agentes políticos e materiais que, historicamente, definiram fronteiras, ditaram leis e estabeleceram as normas.
A religião, descrita como um sistema de crenças, práticas, rituais e valores que conecta os seres humanos ao sagrado ou ao divino não é somente uma prática espiritual. Também se trata de um sistema de organização bastante material e com ideologias que influenciam no coletivo. Conceitos religiosos ditam as regras do jogo social. Até nas monarquias absolutistas, a Corte justificava o poder dos reis como “enviados de Deus”. No contexto atual, referências religiosas — como padres, pastores evangélicos, sacerdotes e pais de santo — detêm autoridade socialmente aceita para articular os rumos das comunidades.
A religião também é terreno para várias teorias da conspiração, que frequentemente misturam elementos de fé com medos contemporâneos, transformando eventos históricos, figuras de liderança ou avanços tecnológicos em supostas tramas malignas. Um exemplo é o dos conspiracionistas que sugerem que algumas sequências de números estariam ligadas a fatores malignos; outras teses defendem o fim dos tempos. As religiões são um terreno fértil para a criatividade, a fantasia e a manipulação das massas.
Estatisticamente, no Brasil, a maior parte das pessoas se declara como católica, seguida pelos evangélicos. Esses dados revelam um caráter histórico de catequização e evangelização cristã. Desde antes do descobrimento (leia-se: invasão) do Brasil, a Igreja Católica já empenhava esforços para converter terras da África à sua religião. Segundo a religião, a Igreja foi fundamentada nos ensinamentos, morte e ressurreição de Jesus Cristo, que escolheu Pedro como líder, e os apóstolos iniciaram a pregação, com os primeiros seguidores sendo chamados de "cristãos".
A figura de Cristo é entendida por muitos como a pessoa mais evoluída que habitou o mundo, sendo atribuídos a ele vários milagres, sobretudo sua ressurreição. Várias religiões em solo nacional têm influência cristã, inclusive as religiões de matriz africana se misturaram aos conceitos cristãos através do sincretismo.
É importante referir que as religiões e a espiritualidade datam de tempos remotos. Antes, eram fonte de explicações para fatores naturais que a humanidade ainda não dominava plenamente, como a agricultura ou a medicina. Guerras foram travadas em nome da religião. Os pagãos, as primeiras bruxas e os adeptos de religiosidades não hegemônicas foram perseguidos e mortos em fogueiras ou aprisionados, reforçando o caráter coercitivo das religiões ao longo da história.
Não se julgam crenças individuais, mas sim as estruturas institucionais e seus efeitos materiais. Muitos, para tentar obter respostas que não são possíveis, são convencidos que precisam comprar um lugar no céu ou que precisam pagar algum dízimo para sua salvação pessoal e dos seus. Diante disso, a Igreja Católica é uma das instituições mais ricas do mundo, com patrimônio acumulado em ouro, pedras preciosas, imóveis, obras sacras e outros bens. Muitos enriqueceram explorando a fé de outras pessoas, pregando teorias que não podem ser inquiridas.
Economicamente, a fé movimenta muito dinheiro; existem vários santuários de alto luxo espalhados pela Europa e pelo mundo. Sem contar os persistentes governos teocráticos, como o Irã ou a Arábia Saudita. Nesses Estados, as leis estão ligadas a dogmas, e as normas sociais são moldadas por escritos e livros religiosos. O poder político está nas mãos de líderes religiosos ou é legitimado por uma fé.
Pensar que existe algo além da matéria me parece válido. É quase uma obviedade que somos energia, que compactuamos com biofrequências. Ir além disso, para mim, é fazer afirmações sem certezas, mergulhando em um oceano de hipóteses que, muitas vezes, servem mais para limitar o questionamento do que para expandir a consciência. A espiritualidade, quando desprendida das amarras institucionais e comerciais, deveria ser um exercício de liberdade, e não de submissão.
Em última análise, a história mostra que a religião é uma ferramenta poderosa de coesão e controle, capaz de erguer impérios ou aniquilar culturas. Reconhecer sua influência material e política não anula a busca individual pelo transcendente, mas exige um olhar atento para que o sagrado não seja usado como produto ou instrumento de opressão. A fronteira entre a fé que acolhe e a ideologia que aprisiona é sutil, e cabe a cada indivíduo decidir se deseja ser protagonista de sua própria percepção da existência ou apenas mais um repetidor de convicções alheias.
