Questão de classe ou raça? A luta de classes é uma luta de cor (REVISADO)

 Camilo Cogiro

Revisão: Bruna Paquier Cestari

A formação da sociedade brasileira é alicerçada em uma contradição persistente: a negação de um racismo que, paradoxalmente, organiza toda a nossa estrutura de poder e trabalho. Longe de ser um fenômeno superficial, o racismo no Brasil opera como um sistema de manutenção de privilégios que sobreviveu à abolição formal e se faz nas engrenagens da modernidade. Entender a realidade nacional exige encarar que a cor da pele funciona como um marcador social, determinando quem tem direito ao topo e quem é empurrado para as margens. Diante de uma história marcada por quase quatro séculos de escravidão, a atualidade é uma continuidade de processos que moldam a subjetividade negra e limitam a democracia.

O racismo no Brasil é uma questão estrutural que atravessa todas as instâncias sociais. Dados estatísticos — como, por exemplo, os que confirmam que a maioria da população carcerária em nosso país é composta por negros e mestiços — indicam que o país ainda não conseguiu romper com as amarras do preconceito de cor. O “lugar” do negro fica restrito aos serviços menos qualificados ou menos especializados, numa nítida divisão do mercado de trabalho em uma sociedade onde a mobilidade social é quase nula.

Outro dia estava lendo uns textos de Karl Marx sobre economia e fiquei com a impressão de que, em algumas partes, ele sugerisse que o mesmo tempo médio de trabalho deveria corresponder ao mesmo salário, fato que não se confirma na realidade. Marx denunciou inúmeras contradições sociais; no entanto, os rumos históricos da humanidade também revelaram limites e impossibilidades na concretização de algumas de suas teses. Ao explicar sobre a luta de classes, em alguns momentos, fica implícita e em falta a situação racial, tão inscrita no século XIX. Contudo, Marx escreveu sobre a escravidão em artigos jornalísticos sobre a Guerra Civil Americana (1861 – 1865) e em outros textos.

Sou um cidadão negro e já fui interpelado com argumentos como: 'Não existe racismo, somos todos iguais'. Se isso é verdade, como explicar que grande parte das pessoas mortas pela polícia ou vítimas de crimes violentos são negras? Dados sociais explicitam situações que interferem na subjetividade negra. Sendo a condição econômica muitas vezes atrelada à cor da pele, a divisão de questões de classificação social se torna ainda mais acentuada. Segundo um levantamento divulgado pela CNN Brasil:

“A disparidade salarial entre pessoas brancas e negras no Brasil é estrutural, com trabalhadores negros recebendo, em média, 42% a quase 70% menos que trabalhadores brancos”

“A diferença salarial entre negros e brancos chega a 42,3% para cargos de gerência Uma pessoa preta recebe em média R$ 3.905,03 nesta função, enquanto uma pessoa branca tem uma remuneração de cerca de R$ 6.769,55.”

“Mesmo quando profissionais brancos e negros têm qualificações semelhantes, ainda assim, os primeiros ganham mais que os segundos para executarem as mesmas tarefas, o que demonstra o preconceito estrutural no ambiente corporativo”

“A diferença é maior quando se trata de níveis de especialização, como pós-graduação, mestrado e doutorado, em que apenas 6% dos pretos e 7% dos pardos têm essa formação em comparação com 13% dos brancos.’

FONTE: CNN Brasil


A sociedade é dinâmica, as coisas se transformam e “nada é, tudo está”. Dessa forma, a situação da luta de classes no Brasil está intrinsecamente associada à cor da pele devido a fatores históricos que ainda se mantêm operantes. Em minha experiência cotidiana, já fui diminuído em espaços de liderança ou influência em função da cor da minha pele. Cada pessoa se vê a partir da própria singularidade; consigo perspectivar melhor a partir do meu ponto de vista. Não contenho em mim o sentimento do racista; assim, não o comporto de forma nenhuma, muito menos as suas motivações internas. 

Em diálogo crítico com Frantz Fanon — que identifica no racismo uma matriz estrutural comum, herdada do colonialismo —, compreendo que, embora essa base seja compartilhada, o racismo se manifesta de forma multifacetada, direcionando-se a condições, corpos e representações específicas conforme o contexto. Todos os racismos devem ser combatidos, mas apresentam pré-conceitos diferentes. Isso me faz ter o questionamento sobre o racismo de cor e o preconceito de classe.

Essa distinção é fundamental para compreendermos o Brasil. Enquanto o preconceito de classe tenta camuflar a exclusão sob o manto da meritocracia ou da condição econômica, o preconceito de cor marca o corpo antes mesmo de qualquer interação social ou financeira. Em vários casos a aparência prevalece como noção de elitização, subalternização ou status. Muitas vezes a valorização é indicada pela cor da pele, independentemente da competência ou da posição que o indivíduo ocupa.

Ignorar a intersecção entre raça e classe é manter operantes as estruturas que mencionei anteriormente. Não se trata apenas de uma disputa por meios de produção, mas de uma disputa pelo direito à humanidade e ao reconhecimento. Para que a dinâmica social deixe de ser um ciclo de repetições coloniais, é preciso que a subjetividade negra seja resgatada não como uma estatística de violência, mas como uma potência de liderança e transformação. O combate ao racismo, em todas as suas frentes, não deve ser visto somente como um acerto de contas com o passado. Assim, quem argumenta sobre estratificação social deve imediatamente levar em consideração o “papel” da negritude e da branquitude em determinado contexto.

Superar a herança colonial brasileira exige mais do que reformas econômicas genéricas; exige o reconhecimento de que a raça é um dos filtros pelo qual a classe é moldada em nosso território. Enquanto o "corpo negro" for lido como um corpo destinado apenas à base da pirâmide, a mobilidade social permanecerá como um mito sustentado por privilégios de cor. A verdadeira emancipação social só ocorrerá quando a estrutura de trabalho distribuir renda e desmantelar a hierarquia estética e racial que dita quem deve liderar e quem deve servir.

Concluo que o combate ao racismo não é uma pauta identitária isolada, mas é imperioso para qualquer projeto de nação que se pretenda democrático. É necessário transmutar a dor da interpelação racista em uma força política capaz de reescrever o contrato social brasileiro. Resgatar a humanidade negada pela estrutura é um ato de justiça para com a negritude, e também a única via possível para que a sociedade brasileira deixe de ser um reflexo do seu passado escravocrata e passe a ser o palco de sua própria transformação.




Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem