Camilo Cogiro
Outro dia, numa conversa filosófica com meu pai, discutimos o que é o espírito. Eu argumento que o espírito, como o kardecismo concebe, talvez nem exista. Enquanto pessoas, somos o que somos, e já somos esse corpo biológico que entendemos e dispomos à ciência para ser conhecido. Mas o espírito, ou como diz meu pai, a alma, uma energia especulada que animaria o corpo, nunca é comprovadamente verificável.
Eu tenho a opinião que o pensamento é algo, produz efeito, tem suas repercussões. Como por exemplo, quando direcionamos pensamento para algo, essa força mental tem relevância, assim podemos influenciar sutilmente algum acontecimento por ser direcionado. Mas essa ligação não é necessariamente uma conexão de espírito, mas sim biofrequencial. É uma obviedade que o pensamento existe, e se ele existe, já é algo, e se é algo, tem sua força. Dessa forma, atribuo ao pensamento as suas consequências, que podem ser direcionadas a algo ou ao outro, como uma intenção.
Mesmo que alguém defina que o pensamento não tem influência em qualquer fator objetivo, ele próprio causa influência no comportamento de quem pensa, resultando em ações concretas. Tal pensamento age nas diversas camadas estruturais de quem pensa. Por exemplo, pode ser um pensamento que determina uma ação, assim seria o motivo da ação, causa da ação, teria então suas implicações práticas. Se for um desejo, existe e quer ser realizado; se for uma ideia, existe para ser executada. Mesmo que não interfira diretamente no mundo externo, o pensamento reorganiza internamente o sujeito que age sobre o mundo.
Eu não sei bem de onde advém o pensamento, de onde vem o estímulo que a mente traduz o pensamento em ideias com significados próprios. A complexidade humana traz incógnitas que, embora a ciência estude e tente decifrar, eu não tenho essas respostas teorizadas no meu conhecimento. O que são os pensamentos? De onde surgem as ideias? Talvez da necessidade de adaptação e plasticidade, talvez das informações prévias que se conectam e estimulam certa maneira de pensar.
Mas voltando ao assunto do espírito, e colocando criticamente em causa, esse espírito que habita em cada um, supostamente imperecível e representante do “ser” atemporal: existe? Eu tenho dúvidas. A hipótese do espírito não se sustenta como evidência, mas como necessidade simbólica de permanência do ser. Talvez essa concepção sustentada pelo kardecismo, de que existe um elemento que em algum momento faz parte do que eu sou, ou, eu sou em essência esse elemento, seja uma ideia concebida pela tendência de autoconservação do ser. A autoconservação pessoal é o conjunto de impulsos, comportamentos e estratégias que um indivíduo mobiliza para preservar a própria integridade e existência — tanto no plano físico quanto psicológico e social. Assim, quem argumenta que existe algo em si que superaria qualquer tempo ou qualquer fator, está na verdade se esforçando para afirmar sua existência, e tem medo de deixar de existir, de ser quem é. Autoconservação pessoal é, portanto: o movimento fundamental que orienta o ser humano a continuar existindo — biologicamente, psicologicamente e socialmente — mesmo que isso implique adaptações, renúncias ou conflitos internos. Mas nesse caso, devido à certeza de falecimento, atribui-se uma suposta energia, que em tese seria a essência do que o ser é, para argumentar que o ser (no seu pensamento autocentrado) sempre será, e sempre se reconhecerá.
Digo isso com a certeza que não tenho qualquer evidência de que tive outras existências, não tenho qualquer confirmação que uma suposta alma que sou eu, acima do que sou biologicamente, exista ou tenha intenções, ou que, após minha morte, eu terei alguma percepção que se relacione com o que eu fui, ou que continuarei sendo algo com qualquer consciência de mim mesmo. Coloco em dúvida se temos realmente um espírito que é nosso, que abstratamente é definido como o que somos realmente, como se o corpo fosse apenas uma experiência de evolução espiritual, como argumentam os espíritas tradicionais.
Já bebi na fonte de várias espiritualidades. Atualmente sou agnóstico. Assumo minha incapacidade de saber sobre qualquer instância metafísica. Ser agnóstico é adotar uma posição de suspensão de certeza diante da existência (ou não) de Deus ou do divino. Essa condição e essa postura não me isentam de pensar sobre o que há além do véu da vida, mas parto do princípio que qualquer certeza espiritual é uma hipótese carregada de interpretações pessoais. Trata-se menos de negar e mais de reconhecer os limites do que se pode saber.
Cada pessoa é livre para acreditar no que percebe como mais convincente. Minha afirmação agnóstica é para evitar a instrumentalização de doutrinas para confortar o que me é conveniente. O agnosticismo não é exatamente uma crença, mas uma postura intelectual: só devemos afirmar aquilo que pode ser comprovado. A questão sobre Deus ou sobre espíritos não pode ser resolvida com certeza, então a posição mais honesta é reconhecer os limites do conhecimento. E recuso essa tendência de antropomorfizar esferas energéticas.
Creio, através do empirismo e noções científicas comuns, que as energias existem. É fácil entender que energia da luz é a forma de energia transportada pela radiação eletromagnética. Em termos simples, é a energia que chega até nós quando vemos o Sol, uma lâmpada acesa ou qualquer fonte luminosa. Cada partícula de luz (fóton) carrega uma quantidade de energia que depende da sua frequência. As energias transportam informação e possibilitam a vida. Posso citar energia mecânica, energia térmica, energia elétrica, energia luminosa, energia química, energia hidráulica. Todas estudadas pela ciência e com seus fatores próprios. Dentro da biologia e da física, “biofrequências” pode se referir às frequências elétricas e eletromagnéticas produzidas pelo corpo; são fenômenos reais e mensuráveis. Essas biofrequências são comumente mencionadas em terapias alternativas. Biofrequências são: frequências de sinais biológicos reais, no campo científico, ou uma noção simbólica de “energia do corpo”, no uso popular e alternativo.
Não acredito em um mundo meramente mecanicista, e insisto em dizer que o encantamento do mundo é a ideia de que o mundo é dotado de sentido, mistério e presença simbólica — um lugar onde as coisas não são apenas matéria, mas carregam significado, força e, muitas vezes, mistérios e segredos que ainda não desvendamos. Eventos têm significados profundos, não apenas causas mecânicas. Contudo, não atribuo esse encantamento a uma ideia justificada em percepções que são perpassadas pelo tempo e espaço a que somos submetidos enquanto pessoas.
Esse argumento que diz: “sou um espírito e o corpo é apenas uma fase da minha experiência espiritual. Sou algo além do que sou concretamente”, me parece, assim como eu disse, uma ideia baseada no que o indivíduo argumenta, consciente ou inconscientemente, para se livrar do peso de que vai deixar de existir. Na psicanálise de Sigmund Freud, a autoconservação está ligada às pulsões de vida, que buscam manter o equilíbrio e a continuidade do sujeito. A autoconservação é o movimento fundamental que leva o ser humano a manter sua existência, física, psíquica e socialmente, mesmo diante de conflitos, limites e pressões externas. Não sendo possível fugir da morte, o ser imprime uma ideia de existência eterna psíquica em algum grau. Quando a permanência material é impossível, o sujeito produz formas simbólicas de eternização.
Pode ser que a morte encerre todas as experiências do indivíduo. Contudo, não encerra o fenômeno da vida na terra, nem extingue os elementos simbólicos da existência. Assumo que é doloroso pensar que as minhas sensações são finitas no tempo, mas reconhecer que não sei o que vai ser após a minha morte, ou que qualquer argumento que defende que existe algo sensível (e individual) além do que conhecemos como vida pode estar equivocado ou cheio de segundas intenções, é uma forma de me comprometer com a oportunidade que tenho hoje. Faço um esforço para não especular por abstrações não verificáveis do que vai acontecer daqui a cem ou duzentos anos. Não tenho qualquer recordação de vidas passadas. Na perspectiva científica atual, não há evidência comprovada de reencarnação ou memória de vidas passadas. A memória, segundo a neurociência, se forma a partir de experiências vividas nesta vida. Com isso, não tenho qualquer elemento que me permita acreditar que eu tenho um “eu” atemporal que permaneceu e permanecerá nos trilhos da história.
