Contra a hegemonia imperialista: cultura, trabalho e luta socialista

Camilo Cogiro

Revisão: Laís Fritzen


O imperialismo, enquanto uma prática de dominação de alguns países sobre outros, é uma política condenável e, acertadamente, alvo de críticas por socialistas e comunistas. Ao longo da história, a dominação de uma nação sobre diferentes comunidades se reproduziu — como estudamos inclusive na escola. O período colonial no Brasil, nas Américas e na África serve como exemplo dos efeitos iniciais mais brutais dessa prática: escravidão, saque sistemático de matérias-primas, submissão política e destruição dos modos de vida adversos àqueles dos invasores. A colonização foi o laboratório da atual lógica imperialista, que apenas mudou de roupagem, e não abandonou sua essência de propagar injustiças.

O imperialismo, enquanto elemento estrutural do capitalismo, submete povos, oprime populações e privilegia magnatas de nações dominantes. A influência dessa prática se infiltra em todas as esferas das relações internacionais. Não sou economista, nem estudei profundamente economia de Estado; falo a partir do empirismo e da observação. Porém, além da política, é possível presenciar os efeitos do imperialismo contemporâneo na cultura e na arte. A indústria cultural de massa — hoje cooptada por grandes conglomerados digitais como Instagram, YouTube, Spotify, TikTok, MTV e outros — define quais produtos midiáticos chegam ao público, impondo métricas de consumo e moldando comportamentos, narrativas e gostos. Os artistas e conteúdos não “nascem” do povo: são selecionados e impulsionados por algoritmos e interesses privados.

No campo econômico, alguns conceitos básicos já revelam a engrenagem imperialista. Na Europa, por exemplo, tornou-se comum que governos e o Banco Central Europeu injetem bilhões de euros para salvar bancos da falência — sempre bancos de países imperialistas. Instituições financeiras até mesmo recebem aportes maiores que seu próprio valor de mercado para evitar sua extinção. A guerra interimperialista, portanto, assume dimensões bilionárias na disputa por mercados, investimentos e enriquecimento de oligarquias.

Os arquitetos do capitalismo fazem de tudo para expandir seus mercados, uma vez que não existem mais territórios “a serem descobertos”. Agora, avançam sobre consciências, desejos e imaginários. A disputa por hegemonia passa tanto pela venda de produtos materiais quanto pela monopolização do entretenimento, da informação e do pensamento.

A especulação financeira — com seus elementos de oferta e procura, poder monetário, flutuações cambiais e mercados internacionais — é um terreno fértil para o imperialismo, já que este tem o dinheiro como sua religião. E se esse dinheiro é obtido através da mais-valia resultante da exploração do trabalho, os grandes monopólios se engalfinham para crescer, absorver empresas menores e expandir seu domínio mediante fusões e aquisições. Enquanto isso, exploram a mão de obra em países vulneráveis, onde o salário dos trabalhadores é muito mais baixo e os direitos são precários.

Essa leitura, ainda que superficial, mostra um dado concreto: a maior parte dos altos executivos das multinacionais instaladas em países periféricos provém do Norte Global, reforçando a concentração de poder nas mãos dos países imperialistas. As decisões estratégicas atendem aos interesses externos, e não às necessidades das populações locais.

Na música e na arte, áreas que domino mais, a lógica não é diferente. Os melhores estúdios, os maiores investimentos tecnológicos, as principais distribuidoras e os selos mais influentes são estadunidenses, alemães, ingleses, franceses ou japoneses. Isso cria uma dependência permanente para os artistas do Sul Global, que precisam se adequar às métricas e expectativas definidas por agentes estrangeiros para terem visibilidade internacional.

Lenin já alertava, em Imperialismo, fase superior do capitalismo, que o capital, os meios de produção, os bancos e a mídia tendem a se concentrar nas mãos de uma oligarquia quase todo-poderosa. À medida que a produção se centraliza em poucos conglomerados, a possibilidade de concorrência diminui drasticamente. As multinacionais transformam-se em entidades que controlam praticamente todo o mercado, influenciando os rumos políticos dos países.

Como socialista, defendo a socialização dos meios de produção. Entretanto, reconheço que, para além da convicção política, são necessárias alternativas e soluções que economistas socialistas devem criar para enfrentar a mais-valia, a inflação e a corrosão do poder de compra. Só com um novo arranjo econômico será possível avançar na construção socialista. Nada é espontâneo: tudo exige planejamento rigoroso. Se queremos socializar a produção, precisamos também de melhores salários, mais tempo de descanso, uma administração central capaz e comprometida com o interesse público — tanto no governo quanto nas empresas. Isso só é possível com conscientização, educação e confiança da população. Combater o atraso na gestão e promover o avanço tecnológico e produtivo são desafios centrais da luta socialista.

Chegamos a uma fase de contradições insustentáveis. Diante do nível técnico e industrial que a humanidade já alcançou, é evidente a necessidade de uma revolução. Contudo, acredito que essa revolução só será possível e sustentável se for construída com tranquilidade e lucidez institucional. É o tempo que organiza a maturidade das transformações. Por isso, ações precipitadas, guiadas pelo imediatismo, pela ansiedade e pelo consumo compulsivo, alimentam o próprio sistema que queremos superar. Enquanto buscarmos “a última novidade”, permaneceremos presos à lógica capitalista produtivista e competitiva.

O socialismo se materializa quando enxergamos o outro como potência, não como benefício, lucro ou ameaça; quando compreendemos o outro como agente ativo do cenário social, respeitando sua subjetividade e sua participação no coletivo, damos sentido concreto ao conceito de comunidade. É necessário ampliar nossa visão do comunitário, porque é nele que reconhecemos traços comuns, exercitamos a solidariedade real e estabelecemos vínculos profundos.

Devemos valorizar a comunhão: não no sentido religioso, mas como união e comprometimento com a vida em conjunto. É preciso ser materialista na planificação e amplo na compreensão cultural, porque a cultura atravessa diversas visões e expressões humanas. Favorecer a multiculturalidade e os múltiplos pensamentos é uma forma de combater o imperialismo, que tenta padronizar modos de vida e ideias.

A partir da educação básica e da valorização do ser humano em sua essência, podemos construir metas ambiciosas de organização social, relações de trabalho e formas de vida. É nessa base que se começa a superar a hegemonia imperialista e a caminhar para uma sociedade verdadeiramente livre, igualitária e plural.



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