Utopia Brasil
Fidélis Alcântara é militante social e liderança política mineira reconhecida por sua atuação em defesa dos direitos humanos, da moradia popular, da população em situação de rua e do direito à cidade. Com trajetória ligada aos movimentos sociais urbanos, ganhou projeção pública ao disputar o Governo de Minas Gerais em 2014 pelo PSOL, levando ao debate temas como justiça social, democratização do espaço urbano, transporte público acessível e participação popular.
Sua caminhada política é marcada pelo diálogo com setores historicamente marginalizados e pela crítica às desigualdades estruturais que atravessam a sociedade brasileira. Em Belo Horizonte e em Minas Gerais, esteve presente em mobilizações ligadas à reforma urbana, ocupações populares e resistência a políticas excludentes.
Atualmente, Fidélis Alcântara é militante do partido Unidade Popular pelo Socialismo (UP) e desenvolve um trabalho político com ênfase no Poder Popular. É pré-candidato ao Senado pela mesma sigla.
Nesta entrevista concedida ao Utopia Brasil, Fidélis Alcântara fala sobre sua trajetória de militância, os desafios da política brasileira, os caminhos para a construção de uma sociedade mais justa e o papel dos movimentos sociais no fortalecimento da democracia. Também analisa o cenário atual de Minas Gerais e do Brasil, refletindo sobre pobreza, direitos sociais, participação popular e perspectivas para o futuro.
Uma conversa necessária com uma voz comprometida com a transformação social, dignidade humana e pensamento crítico.
1- O que motivou sua decisão de disputar uma vaga no Senado em 2026, e por que acredita que este é o momento certo para essa pré-candidatura?
Fidélis Alcântara: Antes de qualquer coisa agradeço o espaço e a possibilidade de expor algumas ideias. Acredito na importância de fortalecer os canais de comunicação independentes, visto que a grande mídia é toda comprometida com os grandes partidos da direita brasileira.
A motivação vem do acúmulo de debates que realizamos constantemente no partido e por já ter uma experiência com campanhas eleitorais, apresentei o meu nome. Diferente de outros partidos, na Unidade Popular Pelo Socialismo, não decidimos se seremos ou não candidatos, apresentamos o nome e coletivamente é feita a escolha pelo diretório estadual. Não acho que há momento certo ou incerto para uma candidatura, mas o crescimento da extrema direita no país, nos coloca em alerta e enfrentar o fascismo é primordial para garantirmos uma sociedade no mínimo mais justa.
2 - Sua trajetória sempre esteve ligada aos movimentos sociais e às pautas urbanas. Como pretende levar essa experiência militante para a atuação no Senado Federal?
Fidélis: É preciso apresentar para a sociedade um novo modelo de atuação no legislativo em geral, a primeira coisa que percebo é que a população muitas vezes fica perdida nos debates e acaba se afastando, precisamos de uma comunicação clara e uma ação contundente que dialogue diretamente com as trabalhadoras e trabalhadores. Mobilizar a população para entender e defender suas pautas é primordial, promovendo pressão nos outros parlamentares e no executivo.
3 - Minas Gerais enfrenta desafios históricos nas áreas de emprego, mobilidade, saúde e desigualdade regional. Quais seriam suas prioridades para representar o estado em Brasília?
Fidélis: É difícil elencar prioridades diante de pautas tão diversas. No entanto, a mineração é uma questão urgente. É necessário que sejam suspensas todas as licenças minerárias no Brasil para uma avaliação de seus contratos, impactos e pagamentos de impostos. Até este ano, a mineração não paga ICMS, apenas o CFEM – Compensação Financeira pela Exploração de Recursos minerais, uma espécie de “royalty”, que variava entre 2 e 5%. A partir desse ano a coisa piora, com a reforma tributária criaram o imposto seletivo, ou imposto do pecado, 0,25% sobre o valor de mercado. Enquanto isso as cidades mineiras, nossas matas e rios são destruídos na mineração mais predatória e barata do mundo. Os defensores desse sistema, dizem que os valores arrecadados são altos, e realmente parecem, mas são mínimos perto de todo o lucro. É preciso estatizar as empresas minerárias e beneficiar todos os minerais no Brasil, gerando mais renda e emprego para o povo.
Na questão da saúde é preciso fortalecer o SUS, ampliar as equipes da Saúde da Família e acabar com a fila para exames e cirurgias, isso só é possível contratando mais profissionais e mudando a gestão do setor, precisamos tornar públicos os planos de saúde privados que têm grandes hospitais muitas vezes ociosos. Acredito que se todo parlamentar for obrigado a usar o SUS, teremos mudanças rapidamente.
4 - Em um cenário político marcado por polarizações e descrença popular, como reconectar a população com a política institucional alternativa e fortalecer a democracia?
Fidélis: Acredito que a ideia de polarização política é uma grande jogada midiática, a política sempre foi polarizada, desde PT X PSDB, ainda na década de 1990. O que assistimos hoje é a ascensão da extrema direita, o fascismo, fruto da crise capitalista, que precisa arrochar ainda mais a vida do trabalhador para garantir seus lucros. E neste ponto precisamos ampliar o diálogo com a população, a esquerda social democrata e neoliberal que está no poder, perdeu este diálogo, ao errar a mão nas negociações com o centrão. Para grande parte da população é difícil reconhecer o que é direita e esquerda, o que facilita para a extrema direita apresentar suas fake news e falsas promessas. A esquerda socialista precisa ampliar a sua presença na sociedade e dialogar diretamente com a população para expor as mazelas do capitalismo e apresentar quem realmente luta contra este sistema.
5 - O Senado tem papel central em debates nacionais, como reforma tributária, segurança pública e direitos sociais. Qual seria sua posição nesses temas estratégicos?
Fidélis: É curioso como a segurança pública, que é uma responsabilidade dos estados, virou uma questão federal, há uma confusão proposital para esconder a responsabilidade de governadores. O fato é que uma polícia militar, está sempre em busca do inimigo e não é preparada para defender e cuidar da população, por isso é preciso desmilitarizar as polícias, desenvolver uma nova forma de combater o crime com mais inteligência, investigação e prevenção. As policiais militares no Brasil são as que mais matam no mundo e as que mais morrem, não é justo colocar um praça na linha de fogo, assim como não é justo submeter comunidades inteiras a tiroteios, quando seria muito mais eficiente, ações de inteligência. As ações policiais nas periferias, com o assassinato de centenas de jovens todos os anos demonstra a total ineficiência deste modelo, o crime só cresce, o armamento na mão dos bandidos só aumenta e a população vive com medo.
A questão tributária precisa ser totalmente revista, na última reforma, onde o governo federal alardeou que quem ganha até 5 mil reais não precisará pagar imposto, foi uma verdadeira farra para diversos setores, mantendo a maior carga tributária sobre os pobres. A taxação sobre grandes fortunas, Bets e Bancos no Brasil é uma das menores do mundo e mostra um sistema totalmente controlado pelo bilionários.
Para ampliar nossos direitos sociais é preciso rever esta reforma tributária, ampliar a taxação sobre os bilionários e desmilitarizar as polícias, garantindo qualidade de vida para a população.
6 - Qual será o papel do jovem partido Unidade Popular pelo Socialismo (UP) no pleito eleitoral de 2026?
Fidélis: Sem dúvida a UP cumpre um papel muito importante ao apresentar pautas e questões que não são debatidas nem pela esquerda social democrata e muito menos pela direita. Falar em taxar Bancos, Bets e bilionários, é um assunto evitado para não comprometer as negociações com o centrão. Falar em suspensão temporária e avaliação das licenças minerárias será visto como absurdo, pois mexe no lucro de gente graúda. Falar sobre desmilitarização das polícias ou estatização de planos de saúde, é um grande tabu, assim como a auditoria da dívida pública. Nosso dever como esquerda revolucionária é colocar em pauta estas questões, e fazer com que o povo tenha argumentos para debate-las e desmascarar tanto partidos, como meios de comunicação, que colocam como distantes, impossíveis ou complexas demais.
7 - Que mensagem o senhor deixa para os eleitores que buscam alternativas políticas comprometidas com justiça social, participação popular e renovação democrática?
Fidélis: A participação política é muitas vezes vista como difícil, complicada, distante e de poucos resultados. Isso é feito de propósito, quem está no poder não quer que o povo entenda as artimanhas que garante o lucro dos bilionários enquanto precariza as nossas vidas. Precisamos tomar as rédeas do nosso destino e a participação na política é fundamental para transformarmos a sociedade. Convido os leitores a conhecerem mais a Unidade Popular Pelo Socialismo, a conhecerem os movimentos sociais que constroem o partido e a se envolverem nas lutas. Quando uma pessoa se move neste sentido ele leva mais um, dois ou três com quem convive e é assim que ganhamos força, com a união popular para combater os desmandos da burguesia bilionária. Obrigado pelo espaço e a oportunidade, nos encontramos nas ruas e nas lutas.
