Camilo Cogiro
João Piuzana Rosa
A linguagem nunca é neutra. As palavras que utilizamos para nomear pessoas, grupos e fenômenos sociais carregam histórias, disputas simbólicas e interesses políticos. Termos aparentemente comuns podem conservar marcas de violência, exclusão e hierarquização produzidas ao longo do tempo. Por isso, refletir criticamente sobre o vocabulário empregado para descrever a condição humana não é mero detalhe semântico, mas parte fundamental da luta por reconhecimento, dignidade e justiça social.
Entre essas expressões, poucas possuem trajetória tão complexa quanto a palavra “raça”. Durante séculos, ela foi utilizada para classificar populações humanas, justificar colonialismos, legitimar escravidão e sustentar teorias pseudocientíficas de superioridade e inferioridade entre grupos. Embora a antropologia contemporânea e as ciências biológicas tenham demonstrado a inconsistência de divisões raciais naturais entre seres humanos, o termo continua presente no debate público devido aos efeitos concretos produzidos historicamente pelo racismo e pelas desigualdades estruturais.
Diante desse cenário, surge uma questão necessária: ainda faz sentido manter uma terminologia marcada por usos discriminatórios e por uma herança eugenista, mesmo quando empregada em sentido social e crítico?
As palavras e as terminologias estão sempre em disputa. Alguns utilizam certos termos com determinado significado ou intenção, certos de que qualquer colocação precede uma ideologia. Quando falo em ideologia, não estou me referindo a “falsear” qualquer ideia, mas sim a um conjunto de valores, crenças e visões de mundo que orienta como pessoas ou grupos interpretam a realidade social, política, econômica e moral, e que influencia o modo como entendemos problemas, julgamos o que é justo e defendemos soluções. Assim, avanço no meu pensamento…
Nos séculos XVIII e XIX, muitos estudiosos tentaram dividir a humanidade em “raças” naturais, como branca, negra, amarela, etc. Inclusive, é durante esse mesmo período que vemos o embrião da antropologia surgir, com os estudos de antropologia física especialmente focados na antropometria, o estudo das dimensões humanas, geralmente os crânios, que tinha justamente o objetivo de elencar níveis de evolução da “raça” humana, delegando aspectos considerados primitivos às etnias marginalizadas, não ocidentais. Em paralelo, se desenvolviam ali também as primeiras máquinas fotográficas, que foram amplamente utilizadas para produzir documentos visuais que fundamentaram esses argumentos evolucionistas, processo muito bem analisado por Christopher Pinney (1996). Essas classificações eram influenciadas pelo colonialismo europeu e por ideias hierarquizantes, que colocavam alguns grupos como superiores a outros, em uma espécie de cadeia alimentar da evolução, sendo o branco europeu aquele que ocupava o topo dessa pirâmide.
A palavra “raça” aplicada a seres humanos é frequentemente evitada ou usada com muito cuidado porque carrega problemas científicos, históricos e sociais. Isso não significa que a palavra seja sempre proibida, mas que seu uso exige contexto. Na biologia moderna e na genética, não existem divisões humanas claras e naturais em “raças” separadas. A variação genética entre pessoas é contínua e compartilhada. A palavra raça teve significados diferentes ao longo da história e foi transformada conforme interesses políticos, econômicos e científicos de cada época. Seu uso atual carrega esse passado. Em termos gerais, ela passou de noção de linhagem para instrumento de hierarquização humana. Na antropologia contemporânea, raça não é definida como uma divisão biológica natural da humanidade, mas principalmente como uma categoria social, histórica e política criada para classificar pessoas e organizar relações de poder. De forma geral, antropólogos entendem raça como um sistema de classificação social que atribui significados a diferenças físicas percebidas (cor da pele, cabelo, traços corporais, origem), produzindo identidades, hierarquias e desigualdades.
A antropologia reconhece que raça continua existindo como fato social. Mesmo sem base biológica sólida, a categoria racial produz efeitos concretos nas relações humanas. O racismo, a segregação, os privilégios herdados, a exclusão econômica e os estigmas culturais demonstram que a ideia de raça influencia instituições e comportamentos. Embora biologicamente inconsistente, a raça possui relevância sociológica e política porque organiza percepções e hierarquias no cotidiano.
No caso brasileiro, o tema assume características próprias, ganhando até um nome próprio. A história da escravidão, da miscigenação e das desigualdades estruturais fez com que a raça se articulasse intensamente com critérios de cor, aparência e posição social. Muitas vezes, a classificação racial no Brasil depende mais da percepção social do corpo do que de ancestralidade objetiva. Por isso, a antropologia brasileira estuda raça em diálogo com identidade, classe social, colonialismo e políticas públicas de reparação.
Mesmo não sendo um conceito biológico, geralmente a palavra raça é utilizada para hierarquizar e tem consequências concretas:
Discriminação;
Acesso desigual à renda e educação;
Violência institucional;
Estigmas sociais;
Identidade coletiva e resistência política.
A partir disso, conseguimos estabelecer que a palavra “raça” está muito associada à noção de racismo. A antropologia costuma dizer: raça não é natural, mas o racismo é real.
Raça = categoria social historicamente construída que usa diferenças corporais percebidas para organizar pertencimento, exclusão e poder.
Portanto, dentro do que foi dito, apresento a necessidade de forjar novos termos para definir o significado social dado ao corpo.
Tendo em conta que o termo raça foi amplamente utilizado pelos eugenistas entre o final do século XIX e meados do século XX, para eles, “raça” era tratada como se fosse uma categoria biológica objetiva e hierarquizada — algo que hoje é amplamente criticado e cientificamente desacreditado.
Lembramos que a eugenia foi um movimento preconceituoso e racista que defendia o “melhoramento” da população humana por meio do controle da reprodução. Em termos simples, buscava decidir quem deveria nascer mais e quem deveria nascer menos com base em critérios sociais apresentados como científicos. A eugenia era preconceituosa porque transformava juízos sociais de valor em supostas verdades biológicas. Em vez de enxergar pobreza, deficiência, sofrimento psíquico ou diferenças culturais como fenômenos humanos complexos, ela classificava pessoas como “superiores” e “inferiores”. A eugenia supunha que o valor humano pudesse ser medido biologicamente. Esse é um erro ético e científico.
Com o avanço das ciências biológicas, especialmente da genética no século XX, tornou-se evidente que a espécie humana possui enorme proximidade genética interna e que não existem divisões raciais rígidas capazes de separar biologicamente grupos humanos em categorias fechadas. As diferenças físicas observáveis entre populações são reais, mas representam adaptações ambientais e variações graduais acumuladas ao longo do tempo, não essências raciais fixas. Em outras palavras, a humanidade compartilha uma base biológica comum muito maior do que as diferenças externas sugerem.
Apesar disso, precisamos também estar atentos de que, como nos alerta Munanga (2020), antropólogo brasileiro-congolês, a racionalidade científica em si não é o suficiente para sanar o racismo proveniente dos usos históricos e estruturais do termo “raça”. Ele nos oferece inclusive o conceito de “racismo à brasileira”, uma modalidade que tem suas raízes no mito da democracia racial brasileira, uma noção errônea de que o Brasil, enquanto um país amplamente miscigenado, teria relações raciais harmoniosas e os aspectos discriminatórios estariam unicamente ligados a questões econômicas. De acordo com o autor, esse processo teria tornado o racismo no Brasil em algo ainda muito camuflado, sutil e pouco reconhecido pelas massas populares no país.
Uma alternativa urgente, porém não discutida e colocada coletivamente como alternativa ao termo “raça”, seria “biotipo”. O biotipo refere-se ao significado social e simbólico atribuído a certos tipos de corpo dentro de uma cultura. Não é apenas a constituição física em si, mas como uma sociedade interpreta, valoriza ou estigmatiza determinados corpos. Na antropologia e na sociologia, entende-se que o corpo tem uma representação social. A cultura projeta valores sobre ele. Biotipo, culturalmente, é o corpo interpretado pelo tecido social. O formato físico importa menos que o valor simbólico que lhe atribuem.
É necessário entender que o corpo é atravessado por diferentes conotações e está inserido em conceitos que são:
Gênero;
Classe social;
Juventude;
Saúde;
Sexualidade;
Status;
Moralidade;
Outros.
Defendo a necessidade de um neologismo para substituir o termo raça, mesmo que no seu constructo cultural, social e antropológico. Neologismo é a criação de uma palavra nova, de uma expressão nova ou de um novo significado para uma palavra já existente dentro de uma língua.
Deixo a inquietação com o argumento de que o termo “raça” foi utilizado historicamente em tom discriminatório, estigmatizante e folclórico, e muitas vezes com intenções preconceituosas. Portanto, virar essa página é importante para termos definições mais respeitosas e não carregadas de um passado em que os negros eram vistos como não civilizados, marginais ou inaptos.
Não tenho qualquer pretensão de cunhar o termo sozinho e impô-lo à comunidade; esse tipo de construção, como a maioria dos feitos, é de caráter social. Assim, lanço o desafio para os coletivos debaterem novas palavras para acompanhar a categoria social e simbólica usada por sociedades para classificar pessoas a partir de características percebidas.
Sugiro, de antemão, que sejam utilizados nesse processo dicionários africanos. Assim, conseguiremos chegar a definições mais precisas e ligadas à ancestralidade negra, sem cair no lugar-comum criado pela estrutura colonial que sempre segregou e excluiu o negro.
Adianto que, sempre que posso, utilizo a palavra “biotipo” para me referir à minha posição simbólica no imaginário social. Contudo, em síntese, a perspectiva antropológica atual entende que raça não é uma essência natural inscrita no corpo humano, mas uma construção histórica criada para interpretar diferenças físicas e organizar relações de poder. O desafio contemporâneo não é sustentar antigas tipologias raciais, mas compreender como essas categorias foram produzidas, como operam socialmente e de que maneira ainda influenciam desigualdades no mundo atual.
O desafio contemporâneo consiste em combater as desigualdades reais sem permanecer prisioneiro das categorias herdadas da opressão. Nomear o mundo também é transformá-lo. Se determinadas palavras nasceram para separar, inferiorizar e legitimar violências, é honesto perguntar se outras podem surgir para reconhecer, reparar e humanizar. A renovação do vocabulário social não apaga a história, mas pode indicar novos horizontes éticos e políticos.
Mais do que encerrar uma discussão, este texto pretende abri-la. Cabe à sociedade, aos movimentos sociais, à academia e aos diversos coletivos culturais pensar criticamente quais conceitos devem permanecer, quais precisam ser ressignificados e quais talvez devam ser superados. Afinal, mudar as palavras não resolve tudo, mas pode ser um passo importante para mudar as formas de ver, sentir e organizar a vida em comum.
Referências
PINNEY, Christopher. 1996. A história paralela da Antropologia e da Fotografia. Cadernos de Antropologia e Imagem, vol.2, p. 29-52
