A dialética do desejo: entre a norma social e a autonomia do corpo

 Camilo Cogiro

Revisão: Laís Fritzen


As ideias apresentadas neste texto são fruto de uma reflexão pessoal atravessada por minha formação, vivências e percurso intelectual. Escrevo para compartilhar um ponto de vista possível sobre como o desejo se constrói na relação entre cultura e poder. Este texto não deve ser lido de forma rígida, mas como um ensaio: um convite ao diálogo, não a definições. Propor uma reflexão sobre a sexualidade é um desafio na minha rota criativa, é uma expansão do olhar.

A compreensão dos fenômenos humanos exige uma incursão pelas camadas mais profundas da subjetividade. A sexualidade é um campo político da subjetividade onde o conflito social se manifesta de forma íntima, e apropriar-se do próprio desejo é uma maneira de estar bem consigo mesmo.

Durante grande parte da minha trajetória, dediquei-me a observar as macroestruturas que moldam as sociedades, analisando as tensões que emergem das desigualdades e das lutas por reconhecimento. No entanto, a experiência social não se esgota nas instituições, no Estado ou na economia; ela pulsa, com igual ou maior força, nas dinâmicas mais pessoais da existência.

Entendo que o corpo é o primeiro território onde se travam as disputas entre o individual e as normas coletivas. Ignorar a dimensão do instinto e da libido seria negligenciar forças motoras que sustentam a agência humana e suas interações. É sob esta luz que inicio a presente exposição, esclarecendo que minha base epistemológica é pragmática, dialógica e dialética. Minha fundamentação teórica varia de escolas do pensamento humanista à crítica social latino-americana. Já tenho, assim, um grande campo para exercer meu pensamento, mas, dessa vez, tento falar sobre sexualidade.

O desejo — como estado motivacional e emocional de viver atividades, instintos e experiências — está intrinsecamente associado às vontades inerentes ao sexo. Qualquer pessoa adulta apresentará vontades, libido ou impulsos que podem ser mais ou menos reprimidos em sua vida social. Não tenciono fazer julgamentos morais, mas sim abrir um leque para dispor um repertório sobre esse tema delicado.

Penso a partir da minha perspectiva heterossexual, mas busco expor minhas ideias de forma aberta, exercitando a sensibilidade para entender diferentes orientações sexuais e identidades de gênero. Acredito que o diálogo sobre sexo deve ser atravessado pelas noções de masculinidade e feminilidade, entendendo-as como eixos centrais de identificação na nossa cultura, já que são as performances de gênero comuns. Consigo, assim, incluir mais pessoas e abrir o diálogo na minha elaboração.

A sensualidade, exposta nas características físicas e psicológicas, muitas vezes serve de impulso para vontades privadas. Cada pessoa deve procurar estar ajustada aos seus conceitos próprios quando se trata de sexualidade e erotismo.

Entretanto, a sexualidade deixa de ser apenas um funcionamento biológico para se tornar também um fenômeno cultural e político na medida em que são produzidos textos explicativos (como os direcionados aos jovens), cartilhas de saúde sexual e livros que tratam o tema sob a perspectiva da psicanálise, do comportamento, da religião e, claro, da biologia. Por meio da palavra, a sexualidade é moldada em termos definidos pelo meio que nos cerca.

Se a base de minha análise é a dialética, só posso sugerir que o desejo não ocorre em um vazio; ele é moldado, articulado e, por vezes, distorcido pelas estruturas de poder que definem o que é "normal" ou "aceitável". O conflito social, portanto, habita o íntimo: é a colisão entre o impulso vital do indivíduo e as normas de conduta que a sociedade impõe para organizar masculinidades e feminilidades.

O erotismo surge como a sofisticação desse impulso. Enquanto o humano responde ao instinto, o ser social constrói as fantasias, o romance e a interdição. É na fronteira entre o que se quer e o que se pode mostrar que a subjetividade humana se revela de forma mais crua. Propor um diálogo sobre esse tema exige, portanto, a coragem de olhar para as nossas próprias contradições, reconhecendo que a liberdade sexual é uma busca por autonomia diante das pressões externas.

Ao longo da história, diferentes sociedades tentaram determinar comportamentos desejáveis: “ajustados”, moralmente aceitos, ou libertinos, moralmente condenáveis. Então, a convivência com a própria sexualidade pressupõe enquadrar-se no mundo; e tecer nosso lugar na história significa também administrar arrebatamentos. Vivenciar, desfrutar e controlar as próprias noções conjugais faz parte de uma vida saudável e humana, enquanto espécie que transforma a convivência em cultura. 

Contudo, a administração dos afetos e impulsos não deve ser confundida com a privação de prazeres. Pelo contrário: apropriar-se da própria sexualidade é um ato de resistência subjetiva. É compreender que, embora estejamos inseridos em uma teia de significados preexistentes sobre o que significa ser homem ou mulher, o exercício do desejo é o espaço onde a singularidade pode, finalmente, emergir.

O desejo é uma vontade, um querer; pode ser uma necessidade ou uma carência de algo que está em falta para o físico ou o psicológico. É um sentimento, algo que projetamos e temos vontade; está ligado ao subconsciente, ao sentimento de posse, de capacidade e de poder, e nem sempre está alinhado com nosso crivo ético e moral. Os desejos precisam ser simbolizados, equalizados, trabalhados, investigados e, em alguns casos, moderados por substituição de vontade e prioridades éticas e morais.

Desejos podem ser realizados, mas a vontade nunca será totalmente satisfeita. Eles fazem parte da eterna busca por “algo” cujo julgamento de atos caberá ao vício humano de definir linhas entre aceitável e inaceitável.

A busca humana é por algo inalcançável, imensurável e infinito, ainda que existam questões singulares subjetivas — como felicidade, realização profissional e harmonia familiar — e concretas, como a aquisição de algo específico ou algum ato físico ligado à sexualidade. Trata-se de uma busca interna que exterioriza desejos e vontades em valores e materialidades. Somos seres insatisfeitos e buscamos aperfeiçoamento para dominar as forças naturais e decifrar o sentido da existência. A insatisfação é necessária para darmos continuidade à busca pessoal e coletiva e evoluirmos enquanto pessoas e sociedade.

Viver bem não significa extinguir o desejo, mas aprender a dialogar com ele. O desafio reside em equilibrar essa força motriz com os valores que sustentam a vida em sociedade. Ao ajustar nossos impulsos através do discernimento, transformamos a insatisfação em progresso consciente, garantindo que a nossa busca pelo "infinito" não atropele a realidade e a integridade do outro.

Reitero que falar de sexo e desejo é falar de dignidade. Uma vida plena exige o equilíbrio entre o respeito aos limites do outro — a base do diálogo e do consentimento — e a coragem de não silenciar a própria voz interior diante de preconceitos paralisantes. Se minha trajetória sempre foi pautada pela análise das macroestruturas, encontro agora na política do desejo um elo da corrente: a certeza de que a transformação social começa na libertação dos corpos e na exteriorização das subjetividades, permitindo que cada indivíduo seja o autor de seu próprio dicionário amoroso.

Concluo que podemos transformar o tabu em repertório se aceitarmos diminuir os julgamentos e priorizar a compreensão das vivências. A sexualidade, quando integrada de forma consciente à vida, deixa de ser um motor de angústia e passa a ser uma ferramenta de emancipação. Afinal, entender como desejamos é, em uma boa análise, saber como nos relacionamos com o outro e com o próprio mundo que nos cerca.





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