Camilo Cogiro - Brasil
Rafael Ávila - Brasil
Moisés Manzano - Espanha
REVISÃO: Letícia Marcelino
REVISÃO: Thaís Mesquita
“A existência de um sujeito incompreensível e invisível para o conhecimento e o olhar médicos é suficiente para sua invalidação social.”
Paráfrase de Marilena Chaui
No dia 18 de maio, é marcado o Dia da Luta Antimanicomial, que reforça a necessidade de um tratamento humanizado em saúde mental. Precisamos compreender a dificuldade e o sofrimento psíquico como uma ocasião, e não como uma condição.
A data marca um movimento social e político que busca transformar o modelo de cuidado em saúde mental, ao contestar práticas baseadas no isolamento e na exclusão de pessoas com transtornos mentais em hospitais psiquiátricos, tradicionalmente chamados de manicômios. Esse movimento tem raízes na crítica às instituições asilares, que historicamente promoveram a segregação, a negligência e diversos abusos contra os pacientes, tratando-os como “incapazes” ou “perigosos”, afastando-os da sociedade.
O lema “Por uma sociedade sem manicômios” reflete o desejo de que o cuidado seja pautado no respeito à individualidade, na autonomia dos sujeitos e na garantia de seus direitos. O movimento também atua contra a medicalização excessiva e o uso indiscriminado de contenção física e química. A luta permanece atual, enfrentando desafios como a manutenção e ampliação dos serviços de atenção psicossocial, a resistência de setores da sociedade que ainda enxergam o manicômio como solução e a necessidade da capacitação constante de profissionais para lidar com a complexidade dos transtornos mentais sem recorrer à internação prolongada.
Portanto, o objetivo não visa apenas à reforma do sistema de saúde mental, mas à construção de uma sociedade inclusiva, livre de estigmas e exclusão.
Historicamente, a humanidade convive com a “loucura” há séculos. Antes de se tornar um tema médico, o “louco” habitou o imaginário de diversas formas: do possuído pelo demônio ao marginalizado por não se enquadrar nos preceitos morais e culturais vigentes.
Segundo Bader (2002):
“A exclusão social é um processo sócio-histórico, que se configura pela repercussão em todas as esferas da vida social, mas sobressai como necessidade do eu, como sentimentos, significados e ações subjetivas. Destaca ainda que existam diferentes dimensões da exclusão, como a dimensão objetiva da desigualdade social, a dimensão ética da injustiça e a dimensão subjetiva do sofrimento. Assim, esse estigma do ‘louco’ como alguém a ser excluído da sociedade perdurou ao longo das civilizações. Porém, com o avanço das teorias organicistas, o que era considerado como doença apenas moral passa a ser compreendido também como uma doença orgânica, modificando o olhar em torno da doença mental.”
De acordo com o portal do Ministério da Saúde, disponível em www.saude.gov.br, o processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil é contemporâneo ao “Movimento Sanitário”, dos anos 70, que propôs mudanças nos modelos de atenção e gestão nas práticas de saúde, da equidade na oferta dos serviços e do protagonismo dos trabalhadores e usuários dos serviços de saúde nos processos de gestão e produção de tecnologias de cuidado.
Atualmente entende-se que os transtornos mentais, em geral, resultam da soma de fatores biopsicossociais: biológicos (idade, sexo), psicológicos (individuais e coletivos) e sociais (urbanização, pobreza).
Esse modelo não foca apenas na patologia, mas em todos os aspectos que envolvem o fenômeno do adoecer, buscando a prevenção e a promoção da saúde de forma dialética.
Contudo, ainda há um despreparo profissional e social. Persiste a cultura de que privar a liberdade é necessário para o controle, ignorando que os sujeitos submetidos a essas práticas são, muitas vezes, pessoas invisibilizadas e sem recursos para reivindicar direitos. É urgente resgatar a autonomia desses indivíduos por meio de centros de convivência e oficinas de ressocialização. A sociedade contemporânea, com seu volume massivo de informações e padronização comportamental, tem reduzido o repertório de relações sociais, o que pode causar adoecimento. Somando a isso, o enfraquecimento dos laços familiares (historicamente o núcleo social de suporte), fragiliza a segurança desses indivíduos.
Nessa perspectiva, o apoio social é a chave para evitar sofrimentos desnecessários, retirando o foco exclusivo da patologia. Educação e desestigmatização são cruciais. Embora dados mostrem maior incidência de transtornos em mulheres e populações de baixa renda, deve-se ser cauteloso: a vulnerabilidade social deve ser combatida politicamente e economicamente, mas a raiz explicativa do sofrimento clínico não deve ser reduzida apenas a fatores econômicos.
Uma abordagem empática permite enxergar a saúde mental como algo transversal e intrínseco a cada ser humano. O exemplo do “Holocausto Brasileiro”, ocorrido no Hospital Colônia de Barbacena (MG), serve como um lembrete sombrio das consequências da desumanização. Devemos celebrar o Dia da Luta Antimanicomial como o compromisso de que todo paciente merece tratamento digno, exercendo sua subjetividade livre de opressões.
DEVEMOS FAZER DO SOFRIMENTO MENTAL UM EPISÓDIO, NÃO UMA CONDIÇÃO.
