Camilo Cogiro
Revisão: Thaís Mesquita
Jean-Paul Sartre foi um prolífico autor francês; escreveu peças de teatro, ensaios e diversos textos e livros que o tornaram uma figura canônica na produção do pensamento do século XX. Sua escrita é filosófica e agradável, mas o conteúdo é, sem dúvidas, passível de controvérsias. Sua obra avança com o passar das páginas, não é ruminante e tem densidade notável; defende o existencialismo sartreano, em alguns momentos atribui ao marxismo o título de ciência mais importante da sua época e refuta a ideia da existência de Deus. Mesmo que eu divirja parcialmente de seu pensamento, vejo grande valor em seus escritos.
Entrar em diálogo crítico com um literato tão consagrado, que foi laureado até com o Prêmio Nobel, apesar de ter recusado formalmente a honraria, e é considerado um dos principais autores de seu tempo, é difícil, pois exige uma leitura dentro dos padrões estabelecidos. Porém, ninguém é dono irrestrito do conhecimento, e posso exprimir a minha opinião sobre os conteúdos que leio sem medo de infringir padrões ou regras. Utilizo até mesmo a liberdade sartreana para me colocar como sujeito pensante de ação e me aventurar a falar sobre assuntos delimitados, muitas vezes, pela academia.
O existencialismo de Sartre em um primeiro momento pode ser confundido com o individualismo. Ele defende que somos os arquitetos integrais de nosso próprio destino. Por consequência, interpreto que, se eu sou músico, me posiciono como músico, e só posso falar como artista enquanto exerço essa condição. Cada um desenha o seu destino, com a liberdade de escolher a área de estudo ou profissão, e isso é condicionante para os acontecimentos que se sucedem.
Sartre argumenta que somos anteriores à nossa autopercepção; interpreto que ele defende tal tese tanto no que tange à espécie humana quanto à qualidade de indivíduo nascido. Há várias opiniões sobre como surgiu a espécie humana e muitos também criam teorias sobre o desenvolvimento infantil; assim, para compreender Sartre, é necessário ter informações e convicções prévias para interpretar o que tal filósofo quis dizer. Ou seja: para entender o que foi escrito, é necessária uma bagagem prévia, pois sua obra não é totalmente autoexplicativa.
Fiquei em dúvida se ele defende aquela meritocracia que coloca o sujeito como o único determinante de seus resultados, ou a responsabilidade existencial dentro da condição concreta. Do mesmo modo, eu me oponho a essa meritocracia ou responsabilização, já que o sucesso, como o fracasso, muitas vezes é circunstancial. Claro que nossas decisões e ações geram resultados, mas não são originadoras absolutas de suas finalidades. Como a sociedade é uma rede interdependente, as harmonias e desarmonias são causadas por movimentos coletivos, que não se resumem a atos isolados dos indivíduos, mas sim a atos interagindo com outros atos gerando resultados que, muitas vezes, podem ter atribuições individualizantes, mas que são resultado de equilíbrios comunitários, coletivos e sociais. Dessa maneira, podemos escolher como agir, mas não podemos saber qual vai ser o resultado exato medido em sucesso ou insucesso, de qualquer escolha. A mesma decisão ou ação em contextos culturais, simbólicos ou econômicos distintos terá uma leitura diferente; assim, a solução será distinta em cada caso.
Os resultados são interativos: não basta pintar um quadro magistral; o contexto e o museu onde o quadro vai ser exposto são determinantes no seu valor real, independentemente de sua qualidade única. Imagine que você está em uma praça e vê um músico muito talentoso, que faz parte de uma orquestra renomada, tocando e pedindo uma doação em uma caixinha. Mesmo assim, ele provavelmente vai receber a mesma quantia de dinheiro que qualquer outro músico, mesmo que não seja tão habilidoso na mesma situação. A ocasião é tão ou mais determinante do que a competência individual. A partir dessa premissa, avalio que, mesmo que o indivíduo seja muito brilhante em alguma área de atuação, somente esse estado não é delimitador; o reconhecimento vai variar de acordo com outros acasos. Pontuo que falo do sucesso pessoal, não da capacidade de algum ente em gerar produtos ou mercadorias, já que aí estão envolvidos outros processos, muito mais materialistas do que somente idealizados.
Para ler bem Sartre, é crucial entender que o existencialismo contempla, sobretudo, a escolha do indivíduo apesar da situação, mas também o lugar de fala. Só posso falar, seja sobre qual assunto for, do meu lugar de fala subjetivo. A eleição do conselheiro direciona o conselho. Nossas preferências são indicativas de desenlaces, podendo ser transposta e aplicada a elas a célebre frase de Isaac Newton: “toda ação tem uma reação”. Diante dessas teses, alego que a subjetividade é um dos determinantes, mas não o único; não podemos responder pelo outro nem pela conjuntura, e assumo que nem sempre temos a liberdade plena para agir conforme gostaríamos.
Os contratos sociais, muitos deles aos quais somos submetidos, em alguns casos não nos dão a autonomia de fazer o desejado. Então, nas circunstâncias impostas, temos que pagar por quase todos os elementos impreteríveis ou dignificantes da existência, como água, comida, moradia, roupas e deslocamento. O que sugere, nas circunstâncias atuais, que estamos sujeitos ao trabalho e, muitas vezes, a papéis sociais que não nos representam, nem causam satisfação, nem favorecem a completude individual. Como militante, me identifico com os questionamentos de Sartre, a luta contra o fascismo, o conceito de que a humanidade é resultado de ações objetivas das pessoas que a fabricam e que nada é garantido. Após a minha morte, as pessoas que me sucederem podem tomar decisões contrárias às minhas ambições em vida. Assim, reafirmo: não posso responder pelos outros, não sou ingênuo a ponto de acreditar na benevolência de alguém distante que eu sequer conheço. A liberdade pode implicar algum grau de desconhecimento. Tendo em conta que a liberdade não deve ser exclusividade minha, a liberdade do “outro” denota várias eventualidades que não posso prever cabalmente.
Este texto faz-se fazendo. Não há texto antes de cada e qualquer letra. Organizo minha escrita hierarquicamente: primeiro qualitativa, estética, conceitual e, só por fim, quantitativa. Frases que condensam mais significados inteligíveis são as que eu tento semear.
Sartre erra ao dizer que "não há outro universo senão o universo humano", pois contraria o valor de outros tipos de vida e apresenta um forte antropocentrismo. Tanto valor têm os astros planetários e todas as coisas que são porque são. O discernimento do humano o permite compreender que existe muita coisa que acontece além do próprio homem. Nota-se que utilizo argumentos sartreanos — como quando ele diz: "o homem está constantemente fora de si..." — para contestar as conclusões do mesmo autor. O pensamento dialético platônico é útil e, mesmo construído e organizado com sagacidade, assume-se a partir das contradições.
Na leitura e releitura dos textos do meritório escritor, ora concordo, ora discordo, até mesmo em parágrafos únicos. Quando ele escreve "O homem apresenta-se como uma escolha a fazer" e, logo a seguir, "ele é sua existência no presente". Assimilo bem que temos sempre algumas, porém não infinitas, opções. Mas, se estamos e somos em construção, não nos resumimos ao tempo contemporâneo. Não consigo cogitar que não haja uma condição, essência inequívoca humana. Seria ela a cultura, a linguagem ou a razão? Quando Sartre afirma que a existência é anterior à essência, está desacreditando todo o percurso anterior à percepção atual do que é existência. Argumento que, ao existir, herdamos uma essência que é, sim, anterior à nossa presença e ação. Quando nascemos, recebemos do mundo uma estrutura que nos dita como podemos/devemos ser, também já nos diz qual é o nosso lugar (físico, comportamental, etc), isso são expectativas factuais, mas não determinações, das possibilidades de cada um.
O mundo pronto que encontramos ao nascer não significa a prontidão da pessoa ao vir ao mundo. É apenas vivendo que empreendemos a obra que define quem somos. Quão memorável seria Sartre sem nenhum parágrafo escrito? Talvez apenas mais uma pessoa comum nascida na França, com importância restrita a seus familiares e amigos. Porém, desde que se aventurou em produzir textos de tal relevância, eu, que estou no Brasil e deslocado de sua época, o conheço e o reconheço, desde a imagem até os títulos.
É possível ir e voltar nos textos desses autores emblemáticos; são multi representativos, detêm várias leituras possíveis. Então, durante este artigo, tentei dialogar criticamente com as obras “O existencialismo é um humanismo”, “A imaginação” e “Questão de método”. Redigi ideias que possam atravessar e ser intersubjetivas. De modo que sustento que o homem é (também) o que ele faz de si mesmo. Contudo, o esquema conjuntural também imprime o ser. A cultura como instrumento se exerce sendo carimbo, e faz crer que toda construção humana é uma via de mão dupla entre indivíduo e sociedade.
O "outro", na sua liberdade, não desmonta o meu eu, mas me torna permeável à situação. Na escola, o meu eu é aluno; no meu partido político, o meu eu é militante. Quem eu sou, porém, é mais estático, está relacionado com a minha identidade em suas qualidades intransferíveis.
O bater das asas de uma borboleta pode, em última instância, causar um tornado. Esse fato, tomado como referência e traduzido como o agir em responsabilidade com o universo, é uma leitura útil; ajuda a nos referenciar.
O marxismo está inscrito na maioria das minhas leituras, e o reencontrei, mais uma vez. Ao colocar o marxismo numa arena de avaliação, Sartre também autoriza implicitamente que outros autores façam isso com sua própria obra. Eu, mero escritor desconhecido do grande público, tenho as mesmas concessões literárias de Jean-Paul Sartre. Em "Questão de método", Sartre se situa bem ao analisar o marxismo muito além de Karl Marx. Definir escolas de pensamento como ideias intrincadas ajuda a dar a entender que se trata de histórias em construção; o marxismo não se resume aos textos marxianos, e Sartre soube bem disso.
Gostaria de ter tido uma conversa com Sartre, já que ele — assim como eu, posto que também leu textos de diferentes épocas de Marx e de vários outros autores do marxismo — me pareceu ter tido mais sintonia com a parte “filosófica” do que com a dedicada apenas à economia.
Concluo com o conforto de que, ao ler Sartre, adquiri um pouco mais de repertório. Tenho meus interesses decoloniais e quero fazer o mesmo trabalho que fiz neste texto com um autor brasileiro, latino-americano ou africano. Escrever sobre obras consolidadas ajuda a organizar as ilações; interiorizar e assimilar é um exercício; escrever sobre o que entendi mexe com a minha intelectualidade. Os livros, cada vez mais, são meus amigos e conselheiros e, como foi dito, escolho os livros já pretendendo receber conselhos convergentes e que somam com a minha cosmovisão.
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