Religião: o véu do mistério e da ilusão

 Camilo Cogiro


A vida nasce e renasce no trajeto do mundo. O que é essa energia que permite tais ressurreições? Entender a dinâmica que proporciona essa “magia” em tudo o que existe é um desafio complexo e instigante. Já escrevi sobre espiritualidade, mas sinto que ainda não alcancei os argumentos exatos para explicar como vivencio essa faceta da experiência humana. Como seres filosóficos e construtores da história, fabricamos teses que buscam abarcar os mecanismos do cotidiano. Fui ensinado desde cedo sobre conceitos religiosos; venho de uma família que cultiva certa religiosidade, o que moldou significativamente minhas primeiras percepções metafísicas.

Hoje, considero-me agnóstico. A existência de divindades não pode ser provada nem refutada pela razão ou pelos elementos de que dispomos. Os indícios são inconclusivos: não é possível verificar a veracidade de espíritos conscientes ou se algo transcende a vida biológica. Essa postura é, para mim, uma forma de libertação dos dogmas e das amarras religiosas, já que não acredito em castigos divinos, carmas ou na eficácia de alterar a realidade material por meio de rezas ou rituais.

Contudo, a ausência de certezas divinas não me impede de argumentar que somos energia — o que costumo chamar de biofrequências. Costumo interpretar que sintonizamos frequências energéticas. É evidente que somos constituídos de algo mais; cada organismo vivo possui uma assinatura energética única. Há um fundamento científico no fato de que o corpo humano se comunica por sinais elétricos e eletromagnéticos; antes de uma resposta bioquímica, ocorre um pulso elétrico. Isso torna possível utilizar frequências sonoras para promover o bem-estar ou acessar estados alterados de consciência. A frequência de 432Hz, por exemplo, é tida por muitos como uma sintonia harmoniosa que proporciona relaxamento profundo. Partindo disso, podemos estimar que outras frequências também possuam efeitos terapêuticos ou nos conectem à natureza.

Essas questões ajudam a elaborar parâmetros para pensar a espiritualidade e a conexão com o outro além do mecanicismo. Entender as frequências auxilia a pensar para além do "corpo bruto" e a contestar teses propagadas por diversas religiões.

A história da religião acompanha a evolução humana, passando de ritos anímicos à institucionalização de crenças. Os mitos gregos, por exemplo, constituíam uma religiosidade baseada em cultos e sacrifícios. Para os antigos gregos, os deuses olímpicos eram entidades reais que interferiam no mundo, embora possuíssem falhas morais humanas, como o ciúme e o orgulho. A mitologia era a teologia praticada, difundida por poetas e filósofos. Muitas dessas crenças são tão antigas que suas origens se perdem no tempo, frequentemente rotuladas como "paganismo" por sua ligação com a natureza, como os cultos celtas e egípcios. O Cristianismo, por sua vez, surgiu como um divisor de águas, alterando profundamente a percepção religiosa e a administração social do Ocidente.

O Cristianismo tornou-se político. A Bíblia, o livro mais difundido do mundo, traz narrativas que, embora soem improváveis ou fantasiosas, ditam as premissas de fé para milhões. Avançando para minha percepção atual, percebo que a religião pode oferecer significado, disciplina e consolo no luto. No entanto, sigo convicto de que ela também pode ser uma forma de alienação ao retirar do indivíduo sua capacidade de questionamento. Esperar por uma salvação sem data ou formato configura a instrumentalização da fé para protelar ações que deveriam ser tomadas no presente. Quem vive à espera de que forças espirituais o salvem ou castiguem acaba esvaziando sua condição de sujeito, tornando-se refém de intermediários que podem usar a religião para objetivos pessoais.

Tornou-se comum a venda de "soluções religiosas", como se fosse possível convencer uma deidade a atuar em favor de alguém. Tais deidades — santos ou espíritos — nunca se manifestam de forma objetiva, deixando os resultados no campo da abstração. Qualquer acontecimento posterior a um "trabalho espiritual" é, muitas vezes, associado irracionalmente à fé, pois não existem parâmetros situacionais para refutá-lo. O que existem são as significações: um ritual pode fazer sentido psicológico para o participante, elevando sua autoestima ou otimismo, mas isso não prova a conexão com forças extrafísicas conscientes.

O fenômeno religioso é complexo por unir percepções subjetivas e ação coletiva. As igrejas estão cheias de pessoas clamando por Deus, assim como os terreiros de matriz africana reúnem aqueles que encontram ali estados alterados de consciência. A religião permeia até a linguagem cotidiana, como no "vá com Deus". Para mim, porém, é constrangedor lidar com justificativas religiosas para comportamentos humanos. A ideia de um Deus antropomórfico em um trono parece nascer do medo da solidão e da dificuldade em assumir a responsabilidade pelo bem e pelo mal. Esse Deus exterior e onipotente é, a meu ver, uma contradição: o mundo é construído pelo que há nele, não por um espírito externo.

Continuo acreditando em um "mundo encantado", não puramente mecânico, onde cada subjetividade é indecifrável. Pode existir algo além do véu, mas não sinto necessidade de intermediários — padres, pastores ou pais de santo — para lidar comigo mesmo. Delegar a solução de problemas humanos a entidades me afasta da minha essência. Pensar que um exército celestial resolverá a fome ou a crise climática retira de nós o atributo de agir.

Não pretendo resolver todos os problemas do mundo, mas não creio que as soluções virão de milagres. Assumir que não tenho respostas não me torna inapto, mas me ajuda a focar nas certezas possíveis. O que tiver que ser será construído com o "lápis da ação". Não atribuo poder ao que não se prova real. A vida é agora, construída sobre a razão e a complexidade humana, não em um tempo improcedente ou em promessas de outras vidas que não posso recordar.

Concluo com a convicção de que o meu itinerário também é constituído por desvios de rota. Se frequentei igrejas ou cultos de matriz africana, foi para recolher elementos empíricos e práticos que fundamentassem minha opinião. Jamais presenciei a manifestação de qualquer espírito, nem recebi prova de que teses espirituais ou religiosas sejam procedentes. Cada pessoa deve se alinhar ao que considera mais convincente; no momento, não vejo sentido, praticidade ou motivo para participar de celebrações religiosas ou delegar a forças especulativas a razão dos meus erros e acertos.



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