Camilo Cogiro
Revisão: Bruna Paquier Cestari
O muito recente, mas não tão atual, caso do sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores tem fugido das principais manchetes e já não parece ser o foco da imprensa. Nesse mundo super-rápido, em que estamos sempre atrasados em relação à última novidade pronunciada, algumas notícias que ganham destaque são rapidamente esquecidas ou perdem espaço para novidades mais frescas. Esse caso de Nicolás Maduro, do ataque estadunidense à Venezuela, somado à histórica e insistente postura imperialista dos EUA, causou-me reflexões que busco desenvolver neste texto. Acontecimentos como esse são cruciais para organizar a percepção coletiva, e, por isso, merecem atenção crítica, pois operam como um polo de divisão e mobilização intensa, reorganizando percepções e afetos. Em um mundo acelerado, a capacidade de influenciar alinhamentos e antagonismos através de narrativas, permeia os espectros políticos e constitui os meios de pensar a geopolítica.
O marxismo-leninismo pode explicar parte desse momento de tensão no mundo e retratar bem algumas nuances das agressões estadunidenses a inúmeros países, atualmente e pela história. Marx e Lenin analisaram tão bem a sociedade que, mesmo em séculos seguintes, suas teorias continuam aplicáveis. Ressalto que meu intuito não é levantar questões a respeito de posicionamentos pró ou contra o socialismo e o comunismo, mas dar a minha contribuição sensata e alinhada com o meu itinerário, para isso mobilizando uma teoria que considero pertinente para esta discussão.
É evidente que autoridade política e poder econômico estão atrelados. Quando os Estados Unidos decidem aplicar sanções econômicas a outras nações, se valem das suas capacidades de influenciar os mercados para estrangular seus inimigos estatais. O domínio econômico no capitalismo, que Lenin descreve na obra “Imperialismo, fase superior do capitalismo” como monopolista e fator importante do imperialismo, é explicado como resultado da fusão do capital bancário (diga-se: dinheiro) com o capital industrial (produção), criando uma casta monopolista que se autoproclama dona de tudo e de todos. Assim, os EUA, como país altamente industrializado, com um mercado de alta produção e consumo (seja de produtos duráveis ou mais imediatos), e que ainda detêm a principal moeda de reserva do mundo contemporâneo, atuam de forma intensa nos rumos econômicos e, como dito, políticos de todo o globo.
Os EUA, quando investem valores incalculáveis em seu aparato bélico, não o fazem somente para se defender, mas sobretudo para atacar outros países e impor suas vontades ao resto do mundo. Isso envolve uma tecnologia extremamente avançada, que gera aviões de última geração, tanques e até satélites artificiais exclusivos para operar um maquinário de guerra que reforça sua capacidade de intimidação. Esse armamento tem sido testado mais uma vez (como em muitas ocasiões nas últimas décadas) no recente conflito com o Irã, envolvendo vários atores políticos e desenhando a Nova Ordem Mundial, com especulações de ligação com outras potências como a China e o controverso Estado de Israel.
Quando um cara como Trump chega ao governo dos EUA, estabelece-se um cenário perigoso, pois, na sanha de poder pelo poder, pulverizam-se as fronteiras do Direito Internacional. Os Direitos Humanos passam a ser cartilhas secundárias e as retóricas são instrumentalizadas para justificar ações autoritárias e de desrespeito às populações não privilegiadas pelo sistema. Donald Trump parece ter apoio de grande parte da ala mais radical do Partido Republicano dos EUA e dos adeptos ao movimento “Make America Great Again” (MAGA). Contudo, há sinais de divisão dentro do próprio movimento MAGA, o que indica que o apoio não é totalmente homogêneo. Certas lideranças operam não somente como decisores, mas também como gatilhos de mobilização psíquica e ideológica, organizando o campo social em polos de identificação e rejeição, de forma a fazer a disputa pelo poder passar por uma captura da subjetividade coletiva.
A diplomacia, moldada pelo diálogo, convenções, reuniões, acordos e conferências em que são discutidas situações sem o uso da força, mostrou-se secundária perante as situações mundiais modernas. A guerra, além de movimentar muito dinheiro, parece ser mais interessante para os objetivos imediatos dos gângsteres que estão nos governos, como Donald Trump, Vladimir Putin e Netanyahu. Esses atores políticos parecem só querer exterminar seus inimigos e dominar outras nações; o termo neocolonialismo é útil para caracterizar a conduta desses líderes. Claro que cada Estado e liderança apresenta particularidades importantes, no entanto, a situação dos EUA alcança mais visibilidade por se tratar do país mais influente dentro do atual quadro do capitalismo.
Destaco que liderança, no meu entendimento, não é o que esses chefes de governo exercem, pois não me convencem em suas decisões. Mas certamente — e isso se verifica — há muita gente que apoia as medidas tomadas por esses gângsteres. Muitos, seja por desconhecer ou ignorar o que o colonialismo representou (e representa), assim como as implicações do imperialismo, seja por se deixarem levar pela publicidade maçante que essas figuras patrocinam e excitam, não têm uma consciência crítica formada para repudiar essas ações. A propaganda eleva a imagem e a política das nações proeminentes de maneira a convencer o público comum. Em consequência, muitos, por meio de uma apreciação superficial, não refletem sensatamente sobre as repercussões da imposição política através da força dos mísseis.
Este texto, em caráter de urgência, vem para publicizar que o capitalismo — e, como disse Lenin, o imperialismo como sua fase superior — é o motivo de tanta matança. Nele, os países se confrontam não somente por territórios, mas também por mentalidades e imaginários. A subjetividade das pessoas tem sido sequestrada por ideologias que buscam o poder pelo poder por meio da violência. O mercado, no intuito de reproduzir o capital, impõe a valorização e o fetiche às mercadorias e ao dinheiro. Os grandes players, com a intenção de perpetuar os moldes do capitalismo, desenvolvem tecnologias sociais de alienação, nas quais um pequeno grupo se beneficia da produção e do consumo pela população em geral.
Não se deixar seduzir pelo imediatismo das ações e pelas publicidades que atuam no consciente e no inconsciente, estudar história e ter um posicionamento que tenciona um mundo melhor é premente no cenário atual. Os reacionários, superficiais em seus argumentos, são aqueles que estão nas fileiras de pensamento sequestrado pela hegemonia. Muitos atacam o feminismo, ou acham ser possível convencer com base no diálogo os burgueses a proporcionarem melhores condições laborais para os trabalhadores. No entanto, a história sugere que a “elite”, ou seja, aqueles que têm a propriedade dos meios de produção, só se importa em acumular mais e mais, sempre às custas da maioria, pessoas comuns que somente têm a força de trabalho para sobreviver.
Escravidão e Guerras Mundiais são muito recentes na história da humanidade. Com isso constatado, temos que reconhecer que ainda estamos em estado de precariedade ideológica e política. O que os Estados Unidos têm feito é semelhante ao que acontecia muito antigamente, há mais de 2000 anos, com as Missões Civilizadoras da Roma Antiga, que via suas conquistas como a expansão da "civilização". Embora os métodos tenham evoluído com a tecnologia e a globalização, a essência do exercício de poder por meio da força militar, controle econômico e a crença na superioridade cultural ou política assemelha o imperialismo a práticas antigas.
Assim chegamos à conclusão de que o avanço conceitual é lento, o tempo de fala tem muita latência e a cultura é, de certo modo, engessada. Para favorecermos o processo é preciso radicalizar, romper com o sistema; não destruí-lo, mas revisá-lo visando a fabricação de outro padrão.
O poder é controverso, o dinheiro é ótimo funcionário e péssimo patrão. Quando circulo pela internet, vejo, na maior parte dos casos, discursos que colocam o capital como o principal ator, falseando a opinião pública e estabelecendo um ideal de riqueza muito distante da maioria. Grande parte é alienada na ambição de conseguir produtos da moda, carros de alto preço e um luxo que é inacessível à maior parte da população.
Se você ainda tem como modelo Donald Trumps ou os jogadores de futebol do momento, significa que tem uma mentalidade antirrevolucionária, está sujeito ao status quo e é ludibriado pela mídia das luzes. É onde se encaixa a cultura de massa, que precisa dessas figuras para o espetáculo televisivo e das redes sociais para favorecer apenas os super-ricos.
Reconheço minha impotência perante a atualidade, mas acho que está na hora de radicalizar para resgatar muitas pessoas ainda sequestradas ideologicamente e que, atualmente, estão no campo da ignorância histórica. Essa impotência, contudo, não me impede de ter uma atitude discursiva contra tudo o que acontece e com o que não concordo. Denunciar me ajuda a esvaziar o sentimento de descontentamento que tenho ao analisar a conjuntura. Estou convicto de que a denúncia pode ser uma importante via de mobilização, já que, se eu conseguir fazer uma pessoa pensar melhor, já terei alcançado parte do meu objetivo: instigar a dúvida e o questionamento, não entregar respostas e soluções, até mesmo porque elas não são fáceis nem possíveis de serem dadas atemporalmente.
Continuo, não com um crachá de marxista ou comunista, pois esses são títulos que muitas das vezes mais servem para a autoafirmação, mas como alguém que, apesar de ter limitações, enxerga a necessidade do mundo ser coletivamente melhor do que é. Vivemos numa época em que muitos são obrigados a cumprir rotinas apenas com trabalho, sem nenhum tipo de satisfação ou realização própria, enquanto o capitalismo continua retendo todas as possibilidades para uns poucos. Sem oportunidade de mobilidade social e com alta desigualdade, não conseguiremos a sociedade plena, justa e mais igualitária que tanto almejamos.
Finalizo trazendo o apelo para que se informem criteriosamente e busquem trocar com seus pares sobre os assuntos históricos e atuais. Não considero que quem pensa diferente de mim seja meu inimigo, já que certamente poderá somar na minha visão de mundo em algum momento. Debates saudáveis e pautas inegociáveis existem, por isso não afasto qualquer ideologia desde que minhas ideias também sejam respeitadas.
