Camilo Cogiro
Adaptação: Camila Faraldo e Luciana da Silva
Contribuição: Liege Costa
Preparação: Laís Fritzen
O histórico processo de urbanização no Brasil, refletindo altos índices de desigualdade social e concentração de renda, deu origem a guetos e blocos urbanísticos denominados favelas. Esse termo remonta ao início do período republicano no Brasil e, atualmente, refere-se a habitações, comunidades, culturas e meio social presentes em várias cidades brasileiras.
Por vezes a palavra “favelado” tem uma conotação negativa, referindo-se às pessoas marginalizadas socialmente, ainda que as favelas estejam localizadas tanto em áreas geográficas marginais quanto nos centros das maiores cidades do Brasil. As favelas são compostas por um modelo de construção de casas bastante irregular, com edificações mais rudimentares e improvisadas, que costumam ordenar-se a partir de becos e vielas. Também são consideradas locais com alta incidência de criminalidade e muitos desafios sociais.
Algumas favelas apresentam indicadores que demonstram uma demanda de investimentos significativos para superar problemas crônicos. Várias críticas sociais colocam a vida como ponto central, enfatizando as desigualdades e as dificuldades que os marcadores de locais enfrentam, como a falta de transporte e de outros mecanismos que dignificam a existência — como postos de saúde de qualidade, escolas e espaços de lazer.
No entanto, as favelas são berços culturais de interação humana com elevado grau de sofisticação, apresentando características próprias. Então, apesar dos desafios, as favelas não são apenas espaços de carência, mas também territórios de intensa organização social e cultural.
Grandes artistas originários de favelas, ou que dialogam com suas ideias, ganharam destaque internacional. O rap nacional, com temas e discos que marcaram a trajetória da música brasileira, emergiu em territórios desfavorecidos, influenciado pela cultura pop negra norte-americana. As músicas e trabalhos relacionados ao rap no Brasil destacam-se não apenas pela qualidade musical e fonográfica, mas também pelo aspecto conceitual.
Nessas regiões menos favorecidas, não encontramos apenas grandes compositores do rap, mas também de chorinho, samba, música percussiva e danças. Além disso, diversas ONGs, centros sociais e espaços de difusão artística estão instalados nas favelas, gerando projetos nobres que exportam a cultura e o talento brasileiro. Em algumas cidades, os aglomerados com seus muros grafitados tornaram-se pontos turísticos, aparecendo frequentemente na televisão.
Nas favelas existem pessoas criativas — combativas — que se desdobram para conseguir fazer valer a vida. De acordo com o Censo IBGE 2022, o Brasil tinha cerca de 16,4 milhões de pessoas morando em favelas e comunidades urbanas, número que representa 8,1% da população nacional. Esses dados nos remetem à frase que consta em uma das músicas de Marcelo D2: “É muito fácil falar de coisas tão belas, de frente para o mar, mas de costas pra favela…”
É imperativo que as políticas públicas estejam voltadas à promoção da inclusão e à melhoria das condições de vida nessas comunidades, reconhecendo e valorizando suas contribuições para a diversidade cultural do país. A abordagem deve ser holística e otimista, considerando não apenas os desafios, mas também o potencial e as riquezas presentes nas favelas, buscando assim construir uma sociedade mais justa e igualitária para todos.
Os trabalhadores comunitários são aqueles que se destacam nesse processo, porque colaboram na articulação coletiva dos espaços, dinamizando as iniciativas e criando mecanismos ideológicos para efetivar ações e propostas. Eles são peças fundamentais no desenvolvimento das organizações, fazendo as pressões necessárias para obter a ajuda do poder público e privado.
Em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, destacam-se líderes comunitários como Lindaura Rosa dos Santos, do Morro das Pedras. Profissional da Assistência Social, ela faz a ponte entre a comunidade e o ambiente acadêmico da maior universidade de Minas Gerais, a UFMG. Lindaura é protagonista em diversas ações políticas, ativista em defesa do meio ambiente e participa de diretórios e da militância. Ela circula junto aos principais intelectuais de BH, desenvolvendo uma atuação com o propósito de melhorar a vida das pessoas. Inclusive trabalhou na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) e é destaque em liderança e trabalho social, contribuindo com várias ações socioculturais da cidade.
Portanto, cabe a nós romper com a lógica da exclusão. É fundamental encararmos as favelas como componentes urbanos integrados à cidade que, como tal, carecem de infraestrutura que inclua saneamento, saúde, educação, lazer, comércio, emprego e transporte. Investir nessas áreas é o mínimo para garantir justiça social.
Porém, mais do que políticas compensatórias, é urgente reconhecer o direito de existir sem estigmas. A favela não é um problema citadino: é um grito urbanístico direcionado a um país que sempre privilegiou poucos, e explorou e excluiu muitos. Favela é cultura, é arte, é criatividade, é talento!
Enquanto houver gente resistindo nas vielas e periferias, haverá esperança de um Brasil verdadeiramente popular, com pluralidade, diversidade e justiça. Ser ativista social hoje é afirmar: favela é povo, favela é potência.