Autor: Camilo Cogiro
A trajetória do autor inclui participação em eventos da Luta Antimanicomial, seminários promovidos por instituições como a FIOCRUZ, além de formação introdutória em psicanálise e diálogo constante com usuários, familiares e especialistas. Essa experiência prática e teórica permite construir uma visão crítica fundamentada.
Resumo:
O presente artigo aborda, sob uma perspectiva crítica e experiencial, o cenário da saúde mental no Brasil, com articulações ao contexto mundial. A partir da vivência do autor como ativista e usuário dos serviços de saúde mental, propõe-se uma reflexão sobre os excessos de medicalização, as falhas institucionais e os desafios na construção de uma rede efetiva e humanizada de cuidado. Discute-se a necessidade de um modelo terapêutico que considere a subjetividade, as condições sociais e culturais dos pacientes e que valorize práticas integrativas, como o esporte, a espiritualidade e a participação comunitária. Com base em experiências concretas e referências psicanalíticas, propõe-se a superação do paradigma manicomial e a construção de um tratamento centrado na pessoa.
Palavras-chave: saúde mental; medicalização; subjetividade; luta antimanicomial; política pública; psicossocial.
Quem está minimamente por dentro do cenário de saúde mental no Brasil e no mundo sabe que é uma área de extrema complexidade, e muita coisa ainda precisa ser melhorada. É visível uma política psiquiátrica de sobre-ingressos de internações e supermedicalização, sem contar os muitos casos de estadia prolongada em hospitais, clínicas e comunidades terapêuticas. Os remédios são instrumentos de estabilização em quadros psiquiátricos, mas, tratando-se de uma área que envolve subjetividades e visões de mundo, a prescrição é de difícil manejo, levando a uma porcentagem grande de erros médicos.
Eu, como ativista de saúde mental — envolvido com o panorama há mais de dez anos —, e sendo um paciente em potencial que já vivenciou experiências clínicas, ambulatoriais e esteve como paciente, tanto quanto como estudioso e membro da comunidade em contato com especialistas e instituições que trabalham com saúde mental, tenho duras críticas a tecer sobre o trabalho e a atuação de profissionais da cena. Mesmo que os dispositivos de tratamento públicos tenham as falhas mais evidentes, em um lugar onde impera a invisibilidade dos utentes, que são amontoados em espaços sem as condições adequadas de recebê-los, as consultas são muito superficiais e os planos de tratamento, ineficazes. Também podemos elaborar que, no campo da medicina particular, são cometidos equívocos — sobretudo com uma política de tentativas de maquiar os sintomas, sem buscar um plano de tratamento que restaure as condições psicológicas e emocionais dos pacientes.
A Rede de Apoio Psicossocial teorizada no Brasil é boa. Dispositivos regionalizados, centros de convivência comunitários, farmácias com disponibilização de medicação gratuita — tudo isso, se funcionasse integralmente e de forma articulada, seria muito bom. Mas vemos que a institucionalização do sujeito se faz quase como regra, deixando usuários dos serviços presos aos dispositivos de tratamento. Então, de acordo com a complexidade do assunto, devem ser elaborados planos que respeitem a subjetividade de cada um. As complicações de saúde mental devem ser vistas como ocasiões, e não como condições. Não é porque algumas comorbidades psiquiátricas sejam consideradas sem cura ou de difícil tratamento que devem ser vistas, pelo meio médico e pela sociedade em geral, como uma sentença. Não podem ser taxadas como condições intransponíveis para uma vida “normal”. São momentos, muitas vezes, de incompreensão do meio, que levam as pessoas aos quadros e à necessidade de ajuda.
O paciente de saúde mental, o “portador” de um diagnóstico, é sempre visto como antinormativo e sem capacidade de exercer sua vivência de forma integrada no coletivo. Então criam-se os conceitos capacitistas que diminuem o indivíduo na sua posição social. O capacitismo é a crença, o preconceito contra pessoas com algum tipo de diagnóstico. É importante pontuar também que o diagnóstico, em várias situações, pode ser errôneo ou não se manter, no sentido de que o paciente adquire novas capacidades de lidar com sua condição, alterando de forma evidente sua situação — e, assim, o diagnóstico deveria também ser atualizado, algo que não acontece com frequência.
Quem tem informações adicionais sobre a Luta Antimanicomial ou sobre saúde mental de uma forma holística vai poder entender e elaborar ideias que possam somar em todo esse sistema. A própria prática esportiva é um potente elemento terapêutico, assim como o sono de qualidade e o engajamento em atividades que deem significado ao cotidiano. A ociosidade e o sedentarismo vêm como antônimos da melhora e do resgate das capacidades. Yoga, alongamentos, meditação, leitura de conteúdos edificantes, formação, trabalho e boa utilização do tempo são componentes mais eficazes do que somente a medicalização, na realidade de qualquer um com dificuldades psiquiátricas.
Participei de importantes momentos na perspectiva da saúde mental, desde eventos de pontuação do Dia da Luta Antimanicomial até um seminário de usuários e familiares promovido pela FIOCRUZ na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Conheci muita gente, participei brevemente de formação em psicanálise, com introdução à teoria de Freud e outros autores como Bion, Kohut e Melanie Klein. Então, essa experiência serve como conteúdo para formar minha opinião e perceber as limitações e falhas de todo o sistema de tratamento. Em contato com outros ativistas, o discurso vigente no meio é de que muito ainda precisa ser feito. Pessoalmente, já tive contato com casos de pessoas que estiveram mais de três anos em uma comunidade terapêutica, o que é um desrespeito aos direitos humanos fundamentais.
A saúde mental é inerente à vida de todas as pessoas — desde o morador do lugarejo afastado e ermo até os habitantes das grandes cidades, como São Paulo, Nova York ou outras. Porém, é especulado que o meio de vida em um lugar com maior densidade populacional pode desencadear uma maior prevalência de transtornos psiquiátricos. Minha tese sobre isso é que o meio artificializado destoa da nossa natureza primordial, levando o psiquismo a situações que não correspondem à ancestralidade. A partir do século XVII, com a introdução dos meios de produção, do capitalismo e da sociedade de grande consumo, as pessoas passaram a viver de forma desintegrada e alienante. Apesar de não existirem dados precisos sobre saúde mental de tempos antigos, como de 200 ou 300 anos atrás, é possível tecer algumas ilações — mas fica difícil rastrear as condições psíquicas gerais de épocas muito anteriores. A psiquiatria como ciência médica só foi surgir depois do século XVIII, e a psicologia como área do conhecimento só foi se estabelecer no final do século XIX.
Podemos seguir falando das complicações psiquiátricas mais comuns, como a depressão (6%), a ansiedade (9%) ou até mesmo a esquizofrenia, que se estima acometer cerca de 1% da população. Avançando, enquanto algumas perspectivas da Organização Mundial da Saúde estipulam que mais de 9% dos brasileiros apresentam algum transtorno, outros dados mostram que — de forma alarmante — 86% das pessoas no Brasil possuem algum tipo de transtorno mental (a precarização do trabalho, a desigualdade e a instabilidade existencial correm o risco de serem medicalizadas, inflacionando índices e obscurecendo a distinção entre sofrimento social e patologia individual). Foram encontrados números divergentes sobre essas informações. A própria Organização Mundial da Saúde reconhece limitações metodológicas, variações culturais e diferenças entre sofrimento e transtorno mental. Temos também que considerar os sobrediagnósticos, bem como o fato de que esses números dependem da forma como 'transtorno mental' é definido (por exemplo: critérios clínicos diagnósticos versus autorrelato de sintomas), o que exige cautela na interpretação de dados amplamente divulgados.
Falar de saúde mental é falar da vivência de todas as pessoas, em todo momento, estando também intimamente relacionada às emoções, visões de mundo e subjetividades em geral. A saúde mental é a condição determinante para perceber todas as vivências — é o nosso filtro de ver o mundo, nossa lente de perceber todas as experiências, assimilá-las e traduzir os momentos em quadros organizados ou não. Temos que enxergar essa temática como essencial ao cotidiano de todos.
Relacionar o psiquismo a outras áreas é premente: tanto ao mercado de trabalho, à espiritualidade, ao contexto socio-urbanístico, ao esporte, às relações conjugais e familiares e, de forma hodierna, à tecnologia. Especula-se que não somos mais a mesma espécie de séculos passados, que a pessoa moderna se transformou em um subtipo moldado pelo meio. Até mesmo a alimentação mudou as características humanas — estima-se que nosso corpo está mais inflamado por alimentos adulterados, industriais e ultraprocessados —, e isso também tem um impacto na nossa mente, como parte do metabolismo geral.
Enfim, temos que ajustar nossos pensamentos para cenários promissores, com qualidade de vida — algo que envolve gratidão, aceitação e outros vários atributos notáveis. Uma rotina biopsicossocialmente saudável deve ser priorizada, com todas as demandas atendidas para um estado amplo de se posicionar no mundo. Saúde mental é nossa vivência mais profunda de experiência de vida.
Referindo-se ao tratamento em saúde mental, precisamos conceber planos bem elaborados, com dedicação e tempo, especialização profissional e sensibilidade. Estamos tratando de subjetividade, de olhares únicos perante a vida. O mais importante é proporcionar o conforto, as oportunidades e os encaminhamentos certos para que o paciente ultrapasse seu momento de vulnerabilidade — que as crises não sejam constantes, que a lucidez se faça presente, longe de delírios e alucinações de qualquer natureza. É preciso pensar em novos modelos que não se baseiem em confinamento e subordinação. O paciente deve ser o protagonista, a figura-chave, o elemento beneficiado pelas políticas e métodos de tratamento.
Ressalto minha percepção de que a utilização farmacológica, de remédios laboratoriais, pode estar sendo sobreutilizada, assim como os ingressos hospitalares. Muito provavelmente, uma associação de ansiolíticos com remédios naturais pode diminuir os efeitos colaterais e proporcionar um resultado mais eficaz. Assim como — volto a dizer — o esporte pode ajudar no sono, e terapias alternativas podem ajudar em quadros psicóticos. O remédio é uma ajuda, mas não deve ser a centralidade do tratamento na maioria dos casos. Condições que proporcionem qualidade aos dias devem ser a prioridade, principalmente em momentos agudos e de virada das situações.
Sendo eu cronologicamente paciente, estudante e militante da saúde mental, avalio que o Movimento da Luta Antimanicomial é, em alguns casos, erroneamente interpretado. Já recebi relatos de terapeutas que ainda mantêm aquele velho pensamento de que privar o paciente da liberdade é um método eficaz; esses mesmos profissionais seguem uma postura ultrapassada, que desfavorece pessoas antinormativas em qualquer grau. Quando a ideologia comum em saúde mental se baseia na invisibilização e no distanciamento social de pessoas que precisam participar comunitariamente, abre-se um perigoso precedente que favorece ainda mais o preconceito contra indivíduos que têm qualquer tipo de diagnóstico.
Para finalizar, acrescento que não sou adepto da antipsiquiatria, mas mantenho críticas ao conceito de 'doença mental' e ao cerceamento da liberdade, que prejudica ainda mais a condição delicada do paciente. Certamente, cada caso é único e precisará de avaliação conformada e harmonizada com as necessidades próprias.
