Contratos que não assinei

 Camilo Cogiro



Escrevo essencialmente sobre a sociedade. Embora não reivindique o rigor metodológico das Ciências Sociais, debruço-me sobre temas que cruzam a existência humana: das biofrequências e do desejo à economia, religião e saúde mental. Reconheço minha dívida com vários clássicos, mas minha base foi moldada por leituras que vão da Grécia Antiga de Platão e Aristóteles, de Rousseau à Foucault; da literatura de Jorge Amado à crítica de Frantz Fanon; passando pelas bases de Freud e Marx, além de Paulo Freire em sua Pedagogia da Autonomia.

Essas vozes me servem como ferramentas para compreender o que me cerca. Através delas, questiono a imposição de 'contratos que nunca assinei'. Ao nascer, encontro compromissos pré-estabelecidos pela cultura, pelas leis e pelas tradições. Muitas vezes, vejo-me forçado a desempenhar papéis que não me representam. Na sociedade capitalista contemporânea, pautada pelo produtivismo e pelo consumo, o esforço para 'caber' nessas funções é exaustivo. Uma das maiores contradições da atualidade reside justamente nisso: a obrigação de dedicar a maior parte do meu tempo servindo a um patrão, enquanto esse mesmo tempo poderia ser investido em uma formação pessoal que me tornasse verdadeiramente mais capaz de contribuir para o bem comum.

Essa expropriação do tempo subjetivo em prol da engrenagem produtiva acaba por reduzir a existência ao mero exercício de funções. Ao priorizar o 'ter' e o 'produzir' sobre o 'ser' e o 'conhecer', a sociedade nos furta a possibilidade de uma prática verdadeiramente transformadora. Se, como propõe Paulo Freire, a educação e o autoconhecimento são caminhos para a autonomia, o sistema atual opera na direção oposta, condicionando nossa energia a contratos de produtividade que visam apenas a manutenção de uma estrutura da qual somos muitas vezes, apenas peças substituíveis.

Portanto, o desafio que se impõe não é apenas o de compreender esses mecanismos — tarefa na qual os clássicos me servem de bússola — mas o de buscar novas maneiras em meio a esses compromissos impostos. Reivindicar o tempo para a formação pessoal e para a saúde mental é um ato de resistência contra a desumanização. É através da consciência dessas amarras que posso, talvez, deixar de apenas representar papéis preestabelecidos para começar a escrever, com voz própria, os termos da minha participação na coletividade.

Maneiras alternativas de estar na vida, que não se resumam à reprodução do capital, deveriam ser mais incentivadas e aceitas. Quando nos posicionamos marginalmente ao dinheiro, enfrentamos a crítica daqueles que têm somente o capitalismo como modelo. Alguns dos meus projetos não saem do papel pois não contam com o investimento financeiro e, assim, não têm o apoio e a doação de tempo por eventuais colaboradores. Essas ideias, sem dúvida, teriam vários beneficiados e poderiam surtir efeito benéfico para parcelas da população — na grande maioria dos casos, pessoas marginalizadas e privadas de mecanismos garantidores da dignidade plena.

O dinheiro, como principal ator, condiciona a ação às suas métricas. Serve como mediador, mas também como uma coleira que o mercado impõe às atividades. Vemos na maioria dos conteúdos a idolatria ao capital, onde a métrica do sucesso é econômica e em que se realizar é um arquétipo de riqueza muito distante da maioria. Assim, vemos a vida passar numa busca angustiante por adquirir mais. Mas, muitas vezes, essas aquisições materiais nem são assim tão necessárias; passam por marcas e padrões de consumo capitalistas, distorcendo a percepção comum do que é útil ou do que é apenas um fetiche.

Se essa é a estrutura que me atravessa, resta perguntar: como existo dentro dela?

Sou um cara realizado no sentido de que consigo exercer minhas potencialidades; mesmo com os meus equívocos passados e atuais, sigo na busca de uma alquimia da minha personalidade. Faço da minha vida uma utopia — não no sentido de viver apenas fantasias ou invenções da minha psique, mas no ato de buscar sempre caminhos ainda inexplorados na minha permanência. Já especulei mais no que existe além da vida; hoje me contento em aceitar que o que eu tenho é o agora, minhas certezas são materiais. Tendo a morte como fato incontornável, vou ter bastante tempo para viver o metafísico, no caso de ele realmente vir a existir.

O mundo é vasto e complexo, não cabe numa só perspectiva. Aquelas leituras mais usuais são apenas alguns dos modelos possíveis. Hoje, faço dos livros meus melhores amigos, pois eles estão para mim disponíveis e benevolentes, constantes e diversos como somente encontrei também na música.

Atualmente, minha escrita é híbrida; não me refugio em ferramentas de internet, mas faço delas um complemento das arestas que ocasionalmente a produção imediata deixa escapar. Mesmo textos que eu escrevi há dois anos ou mais, atualmente eu os faria diferentes. Mas isso é resultado da minha construção metamórfica; minhas mudanças não me privam de ter um fundamento, mas são fruto dos meus estudos e do meu empirismo. Extraio das vivências o máximo que elas podem dar, isso com a maturidade de que qualquer estado de estabilidade implica uma série de tensões.

Tento fazer minha melhora diária de acordo com o que consigo. Minhas vocações, facilidades e atributos são colocados acima das minhas inabilidades. Mesmo que em algumas ocasiões eu possa ser capturado pelo instinto irrefletido, tento sempre equalizar minha conduta de acordo com a minha cosmovisão. Não sou refém de espíritos e teses religiosas; não exijo um paraíso lindo ou qualquer tipo de perfeição, pois até mesmo na matemática a perfeição é rara. Continuo consciente de que preciso melhorar em diversos quesitos — não que sejam defeitos incapacitantes ou que ditem totalmente quem eu sou.

A própria dialética da vida pressupõe contradições. Não deixo de ser pessoa e entendo que os super-heróis só existem na televisão. A mídia tenta nos empurrar padrões irreais, mas a vida, vista de perto, tem as suas falhas e irregularidades. Ainda não escrevi um livro, nem sei se tenho repertório para tal. Meus textos, como já mencionei diversas vezes, nascem da urgência, numa pressa ora cuidadosa, ora afobada de dizer o que permeia o meu momento. Considero-me capaz, faço as autocríticas cruciais para o meu avanço e sigo convicto de que não posso, nem devo, pensar tudo sozinho. A construção de qualquer projeto que se queira grande é coletiva. Troco experiências com os meus pares genuinamente; quanto à vivência, só posso controlar e falar em meu nome, os outros agirão como suas próprias consciências orientarem.




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