Setting analítico - Lugar de confiança recíproca

Autor: Camilo Cogiro

Preparação e revisão: Cássia Farias
Adaptação: Maria Eduarda Pires


Muitas vezes o paciente chega ao consultório para um tratamento psicológico, desconfiado e sem saber direito o que esperar. É certo que no cenário da saúde mental, ocorreram e ocorrem muitos desrespeitos, tanto em clínicas e instituições públicas como em particulares. Esse mesmo paciente é colocado em posição de invisibilidade e está suscetível a decisões das quais não participa, como a medicalização ou o tempo de internação em uma unidade psiquiátrica. Tratando-se de eventos que podem mudar completamente o rumo da vida de qualquer pessoa, é importante estabelecer uma relação horizontalizada no set analítico e em todo o esquema de tratamento. O principal beneficiado da intervenção psicológica deve ser o próprio paciente, que através de métodos profissionais é estimulado a reagir sobre sua condição adversa. 

O processo terapêutico é um trabalho de estimular respostas, e não de entregá-las prontas ao analisando. O próprio processo de medicalização é algo delicado e pode beneficiar ou não cada um. É frequente uma prescrição equivocada, sendo primordial uma avaliação sensível por parte do psiquiatra da necessidade desses fármacos. A dosagem recomendada varia de caso para caso e existe toda uma subjetividade que vai interferir na necessidade e quantidade dessa manipulação medicamentosa. É desejável que essas dosagens sejam diminuídas com o passar do tempo, pois o paciente adquire outras ferramentas para lidar com a própria condição.

  • A confiança no contexto do tratamento psicológico 

A confiança é algo difícil de ser alcançado e fácil de ser perdida. Portanto precisa de ações práticas e objetivas para sua manutenção, mesmo depois de instaurada. O médico nunca deve olhar para seus pacientes com uma visão de superioridade, que determina todas as coisas e é o “senhor das verdades”. Todos precisam de um ambiente de acolhimento e que se sintam seguros para manifestar suas próprias dúvidas em relação ao tratamento, para expor coisas que por vezes são muito pessoais e precisam ser ouvidas sem julgamentos. Acontece do paciente dizer: “Não exponha tal fato para minha família…” e mesmo assim o terapeuta contar tudo para os pais ou para os contatos responsáveis, acreditando estar cumprindo o seu papel. Isso pode quebrar todo um processo de confiança do paciente, que vai se sentir desincentivado a relatar outros fatos que podem ser importantes naquele contexto. A escuta sem preconceitos e sigilosa é indispensável. 

  • Métodos e abordagens

A terapia é uma ferramenta, assim como as medicações e outros procedimentos, e o paciente deve ser ator nas decisões do que ocorre com ele próprio. Existem muitas vertentes, como a psicanálise ou a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que são métodos de escuta e interação, cada uma com sua utilidade e sua devida aplicação. Mas dentro da figura do clínico existe uma pessoa sujeita a inúmeras condicionantes e até mesmo traços de sua própria personalidade. Também os professores universitários desses terapeutas têm muitas responsabilidades, pois estão formando profissionais que vão lidar com outras pessoas, então devem formar de maneira muito criteriosa e aberta. 

É possível que um tratamento seja algo pontual ou transcorra por mais tempo, de acordo com as necessidades de cada caso. Mas acredito ser importante uma construção que depende da constância. Sempre alinhando visões de mundo e conceitos de acordo com cada fase, ou momentos de vida. Estamos lidando com pessoas, então, fatores subjetivos entram em questão, não apenas bulas ou noções universitárias. 

  • Análise

Na análise psicológica, como o próprio nome sugere, estamos sujeitos a interpretações que podem ser muito mais da própria pessoa, seja do analista ou do analisando. Nesse contexto de troca muitas coisas podem ocorrer, como a transferência, por exemplo, que é quando o paciente transfere a imagem do analista às concepções próprias e que podem estar associadas a outras relações, algumas das vezes vínculos familiares ou de proximidade cotidiana. 

A relação dentro do consultório pode ser complexa e de difícil manejo. A própria natureza da situação é um fator dificultador da experiência. Questões relacionadas a dinâmicas familiares disfuncionais do paciente também são elementos a serem trabalhados. A análise deve ser construída de acordo com o que é apresentado no setting analítico, no enquadramento ético, simbólico e prático o terapeuta deve construir a linha do tratamento de maneira realista e sem julgamentos desnecessários, o que torna possível a escuta clínica e o trabalho psicológico profundo. O trabalho deve ser de organizar os relatos, mesmo que por vezes confusos, e transformá-los, dar forma, simbolizar e integrar em pensamentos saudáveis e coerentes.

  • O consultório

O consultório é um espaço de dinamismo, inquietações e dúvidas, de todas as partes. O cliente pode interferir de forma ativa no processo de escuta do terapeuta, assim como uma palavra bem falada pode ser decisiva no percurso de alguém que esteja enfrentando dificuldades. 

A psiquiatria e a psicologia são ciências recentes na história da humanidade, cujas práticas antes eram delegadas a outras especializações, até mesmo aos curandeiros ou aos Pajés das tribos. Não se tinha configurado ainda a ação de sentar-se para falar ou escutar em um ambiente preparado para isso. O conforto dos assentos, a organização das salas de consulta e de espera, a dinâmica e a atenção com a marcação das consultas, tudo isto denota a qualidade da ocasião. 

  • Religião e tratamento

Será adequado tratar de assuntos religiosos dentro da análise? Acredito que sim, desde que feito de forma responsável e contribuindo para desfazer delírios místicos religiosos. Um ambiente em que não há nenhum tipo de preconceito pode favorecer a abertura para o paciente sentir-se à vontade para trazer também outras questões, que podem ser relacionadas ou não à religião.

Recentemente, a ligação entre saúde mental, espiritualidade e religião tem sido cada vez mais explorada. Existem centros de estudos acadêmicos e científicos que conectam essas temáticas e desenvolvem pesquisas para chegar a desfechos práticos — como, por exemplo, o Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-USP), que possui um programa voltado à leitura da dimensão espiritual ao tratamento médico, focando no cuidado integral. Outro destaque é o NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde), vinculado à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), um grupo interdisciplinar pioneiro que realiza pesquisas científicas de alto nível sobre como a religiosidade e a espiritualidade afetam a saúde física e mental.

Uma das conclusões propagadas pelos meios técnicos é que a prática da religião e espiritualidade pode ser um poderoso componente para a felicidade e para a realização pessoal, gerando sentimentos de contentamento, satisfação, significado e agindo como disciplinador da conduta. É certo que existem condições negativas ligadas ao assunto, como quando a pessoa constrói enredos fantasiosos e extremistas sobre o tema. Portanto, saúde mental, espiritualidade e religião devem se juntar com uma visão clara e lúcida, sempre regulando as convicções e organizando o pensamento de forma construtiva e edificante.

  • Conclusão

Todo o processo deve ser respeitoso e contextualizado. Então, em se tratando de oferecer ajuda, seja profissional ou informal, a confiança é de extrema importância. Sem confiança o interlocutor não se abre, e quando alguém se sente diminuído, invalidado ou invisibilizado, ele assimila aquela atitude alheia a uma falta de aceitação, o que cria dificuldades para lidar com as questões próprias que precisam ser ditas. 

Fica também a ideia de que nem tudo precisa ser terapeutizado, às vezes um conselho de amigo, a prática esportiva e uma vida com significado já podem desempenhar uma ação de melhoria no quadro psicológico de uma pessoa. Qualquer um pode entrar no setting terapêutico, esteja com dificuldades ou em busca de autoconhecimento. A qualidade do processo vai depender da disposição de ambas as partes. O preparo, sensibilidade, visão de mundo e competências profissionais do terapeuta vão ser decisivos para o sucesso ou não de todo o processo.



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