(Eu) & (Nós) O indivíduo psicossocial do prazer com as suas contrariedades e divergências de pensamento

Camilo Cogiro

REVISÃO: Daniela Bajluk

REVISÃO: Laís Fritzen



O enfoque de análise psicossocial permite uma abrangência do olhar analítico por perceber a pessoa não somente como uma unidade biológica, e que, por si só, já se enquadra em contextos maiores com a natureza, “alma” ou essência. Qualquer pessoa deve ser vista como uma formação de várias dinâmicas, lógicas organizadas e elementos sociais. Temos que respeitar a nossa vocação coletiva e, portanto, podemos utilizar a metáfora de que: “o que não é bom para a colmeia, não é bom para a abelha”.

Enquanto sociedade, podemos teorizar modelos e concepções aplicáveis, ou não, que servem como direção ou os padrões sociais para construir algo premeditado, lapidado e, através de uma alquimia diária, se tornar um ser, ou um mecanismo otimizado.

Qualquer sujeito em análise está sempre em busca de satisfazer suas necessidades, que podem ser básicas (como alimentação, hidratação, sono, frio/calor, exposição ao sol etc.) ou mais subjetivas, que variam entre tipos, fatores e intensidades. Existem prazeres (quase) universais – a sensação da brisa na praia, o banhar-se... – e outros mais pessoais, que alternam de pessoa para pessoa.

Existem necessidades sociais que surgem e são estimuladas – ou reprimidas – na construção dentro dos diferentes núcleos experimentados, mas estamos sempre na direção de satisfazer nossos desejos psicossociais. Alguns modelos e condições geram determinados prazeres; momentos e situações nos estimulam, oferecem prazer ou desprazer.

Podemos usar como exemplo a escolha da profissão, inserida desde a infância com o clichê: “O que você quer ser quando crescer?”. Claro, em uma fase inicial tendemos a projetar os nossos "heróis" como modelos de profissão, mas já com uma ideia de participação básica: o que determinada ocupação representa, desde a infância, para o que é concebido como modelo. Desde pequenos, somos inseridos em diferentes focos, como a família, a escola, o esporte e outros momentos dinâmicos. São os primeiros meios de participação comunitária. 

Existem fases das quais participamos, como aquela de quando queremos ser aceitos em “tribos”: do rock, do skate, dos mais estudiosos, dos pichadores, dos esportistas… Estamos claramente desenvolvendo uma forma mais íntima para nossas capacidades de socializar. Buscamos a individualização e o destaque, nos afirmando de acordo com nosso padrão de pensamento ou comportamento. É onde, pode-se dizer, mais especificamente, formamos as características que nos preparam para a vida adulta.

Nesses momentos, portanto, estamos expostos a adaptações e à busca por prazeres como seres psicossociais. Estamos constantemente em direção a uma homeostase ou que se traduza em utopias, estamos permanentemente em busca de “algo”.

Vamos pensar em um relacionamento, como o namoro: vamos em busca do enamoramento como um modelo de instituição, de uma construção de significados com o par escolhido mutuamente. Essa instituição criada no namoro favorece as condições de prazer psíquico, gerando, assim, as condições de enamoramento. O apaixonamento se dá na medida que o outro favorece e estimula prazeres biopsicossociais: é imaginativo. Concebemos o preenchimento das nossas necessidades na combinação; é natural para quase todas as pessoas procurar o seu “par”, e a admiração é um dos ingredientes mais potentes em um relacionamento. Depois existem questões subjetivas, como o respeito e a cumplicidade, mas cada casal se configura de maneira diferente com questões próprias, nem sempre românticas.

Todos estamos sempre parcialmente insatisfeitos, é o nosso motor, a busca é por um equilíbrio que está sempre um degrau acima. Somos máquinas de procurar satisfações, que são momentâneas, logo, partimos para mais uma busca, também refletida no desenvolvimento de materialidades, de possibilidades, de evolução em todas as áreas. Eu tenho uma frase que é: “a utopia está sempre um degrau acima”, porque o caminho da vida é a busca por essa utopia, estamos constantemente na procura de novas possibilidades, novos acontecimentos e configurações sociais inéditas.

Porém, percebo que essa busca por satisfação é muito instintiva – com um pouco de irracionalidade –, porque queremos a satisfação sem nos importar, realmente, com uma ideologia coletiva de equilíbrio ou com as consequências, colocando nossos desejos à frente do conceito de universalidade, também com uma atitude de irresponsabilidade para com o mundo. Vemos isso na exploração massiva de matéria-prima, com o desenvolvimento de uma indústria que massacra o meio-ambiente, com o consumo de recursos não renováveis, como se fosse responsabilidade do próximo “se virar” com o que está por vir.

Queremos usufruir do máximo possível “aqui e agora!”. Não gostamos de adiar prazeres.

Então, a complexidade da situação descrita é psicológica e social, com responsabilidade, para com o nosso corpo e com o tecido social. Ações que acontecem em espiral, mesmo em pequena escala, são capazes de inspirar, de motivar, enfim, de ser o exemplo. Quando eu faço uma campanha de formação sobre alguma ideia boa que acredito, estou realmente contribuindo com o mundo, pelo efeito multiplicador. Quando exponho minhas UTOPIAS, teoricamente estou criando perguntas e, com isso, produzo o efeito de procurar respostas, de desenvolver sistemas.

Portanto, devemos fazer perguntas no sentido de gerar respostas que nos ajudem a construir o mundo que queremos viver.

A raridade do pensamento se dá na medida que se aperfeiçoa. Somos um completo e múltiplo sistema pessoal e coletivo, é impossível separar o indivíduo do espírito, ele se tornaria selvagem demais, como não se observa. O pensamento inédito e nobre se constrói com o trabalho, através de contato e abstrações com o meio; é teórico, mas dialoga também com o empírico.

Se quisermos pensar em uma sociedade harmônica, temos que desenvolver esquematizações pequenas, médias e maiores. Delinear comportamentos, mecanismos que favoreçam a criação em alto nível. A sociedade é uma fábrica material e imaterial: somos construtores de máquinas, mas também de pensamentos. A obra, o trabalho, é um patrimônio da humanidade, através dessas concepções arquitetamos o mundo; quando observamos trabalhos de artistas ou criadores, mensuramos principalmente pela qualidade, relevância e espontaneidade. 

A figura central é a que melhor atende às necessidades do meio, que se adequa, que preenche e dá significado para outras situações que precisam ser ditas. As figuras centrais trazem luz a conteúdos pouco explorados, falam sobre assuntos de forma sublime e se desenvolvem como instrumento em prol da humanidade. É pertinente refletir que os trabalhos são valores em direção à evolução humana. Podemos pensar em áreas nesse sentido: a preservação ambiental, o desenvolvimento material sustentável, a arte, a ciência, a comunicação, teorias sobre o psiquismo e tantos outros formatos quantos sejam possíveis para ajudar o mundo.



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