Camilo Cogiro
Quero falar sobre um terreno em que já pisei, participei empiricamente e me dispus a ler alguma literatura sobre o assunto. Sem dúvidas, o ambiente da Umbanda é tanto místico quanto enigmático. Falamos de uma religião que tem seu passado insabido. Algumas histórias, como a que diz que Zélio de Moraes teria fundado o “primeiro terreiro de Umbanda”, são muito refutadas por umbandistas diversos. Como sabemos, a Umbanda deriva de tradições africanas imemoriais; com isso, não conseguimos ter ao certo como surgiram os seus primeiros fundamentos. É uma religião institucionalizada e representa a lacuna de uma religião autenticamente brasileira.
Já tendo participado de giras (a celebração ritualística da Umbanda), eu sei bem como são — ao menos como são praticadas na região Sudeste do Brasil. A Umbanda tem certa unidade, mas apresenta em sua diversidade uma de suas principais características. Hoje, na minha crença de que existe algo além da matéria, mas mantendo a incógnita de que não tenho certezas sobre o mundo espiritual, vejo na Umbanda muito animismo, estados de êxtase favorecidos pelo ambiente cultural. Afirmo que o local da gira realmente tem um ambiente diferente, algo que pode ser sugestivo para os momentos de percepção e comportamento alterado dos médiuns. Com isso, a Umbanda é um ambiente cultural ou, indo além, uma filosofia.
Alguns teóricos, como o costa-marfinense Paulin Hountondji, definem que a Filosofia não pode ser vista como algo coletivo, baseada em conceitos generalistas que nascem e se propagam a partir de uma essência comum, uma alma comunitária de geografia definida que invisibiliza o filósofo. Mas temos no imaginário comum essa ideia de Filosofia africana, sem que seja desleal enxergá-la dessa maneira. Os termos são disputados a todo momento: transmutam-se, são deslocados dos seus sentidos e reivindicados de inúmeras formas. O mesmo ocorre com a Filosofia. Na internet, encontramos uma das definições de filosofia como a “investigação da dimensão essencial e ontológica do mundo real, ultrapassando a opinião irrefletida do senso comum que se mantém cativa da realidade empírica e das aparências”. Eu não estou aqui para forjar novos sentidos para a filosofia, mas me aproximo mais do senso comum de que ela é um “conjunto de crenças, noções e saberes práticos aceitos e transmitidos pela tradição e vivência cotidiana”. Pode ser tanto uma ciência como uma prática não científica. Pode ser tanto um método bem definido como um conjunto de ideias que nos levam a pensar, elaborar e enxergar o mundo de determinada forma.
A Umbanda só pode ser vista como filosofia se aceitarmos que a filosofia pode ser coletiva e partir de um denominador comum. Ninguém pode afirmar uma tese e colocá-la como pertencente ao corpo teórico da Umbanda de forma universal; é isso que a torna diferente, pois sua construção é feita por todos os seus adeptos. Os consensos dentro da religião são definidos com a calma e o rigor que só o tempo pode trazer. Alguns escrevem livros sobre a doutrina, seus fundamentos e significados, mas esses registros nunca poderão ser tratados como absolutos, como a Bíblia é para o Cristianismo. A Umbanda, como filosofia, desobedece ao conceito de que o saber deve ser estritamente escrito, já que tem em sua prática a oralidade e o cotidiano. Assim, além de ser filosofia, é transgressora. E essa transgressão não se dá somente perante a academia, mas também diante das religiões hegemônicas, divergindo também até dos conceitos do paganismo; pela diferença irrefletida, ela se torna única.
Essa religião brasileira é também um repositório etnográfico, já que carrega elementos de diversas culturas que se encontraram no território do Brasil. Não nega suas origens e constitui um corpo que toma para si as motivações de outras culturas no sentido de se completar e se delinear.
Consensualmente entendida como religião, é inclusive uma cosmovisão, filosofia, modo de agir e de ser. A divergência de como e onde se institucionalizou somente confirma suas raízes ancestrais, fundadas na África, mas não somente. Atualmente não tenho ligação com a instituição Umbanda, nem sou capaz de especular respostas sobre o que há depois da morte ou o que havia antes do nascimento. Mas, como performance social, a Umbanda é muito rica e cativa muitas pessoas. É certo que cada indivíduo tem a liberdade de acreditar no que lhe parece mais convincente. O que trago neste texto não é se o orixá Ogum tem tal atribuição espiritual ou se tal entidade é responsável por algum fator na vida de alguém, mas sim a leitura de que, como elemento filosófico, cultural e simbólico, a Umbanda cumpre o seu papel agregador e coletivizado. Sem contar que a comida de terreiro é muito saborosa.
Uma religião que tem sua estrutura simbólica que se configura na diversidade é anticolonial e, sem pretensão, é também anti-imperialista e anticapitalista, já que o colonialismo e o imperialismo buscam dominar, enquanto o capitalismo busca dissolver qualquer sistema de solidariedade e da verdadeira caridade.
Com isso dito, construo, de acordo com o meu itinerário intelectual, que a filosofia pode, sim, ser coletiva; que pode partir de uma “essência” em comum, de um corpo teórico que se constrói sem uma figura singular que o personifique. Pode surgir até de forma espontânea, mas, a partir do momento em que se dá a meditação, adquire nobreza comparável à das figuras da Grécia Antiga ou de Roma.
A Umbanda é um dos territórios da verdadeira filosofia brasileira. Sendo originalmente de nossas terras, deve ser explorada não somente a partir de seus conceitos celestiais, imateriais ou espiritualistas, mas também pela sua carga antropológica, performática, culinária e hierárquica — elementos que encontram no terreiro e no barracão suas formas de se relacionar e se fazer existir.
Ainda que as respostas sobre o que existe além da matéria permaneçam sob o véu da dúvida, a presença da Umbanda como fenômeno intelectual é concreta. Ela nos convida a sair da cadeira do observador e entender que pensar o Brasil exige ser o Brasil. Seja pelo intelecto, pela performance, essa filosofia sem dono e sem centralização rígida segue cumprindo seu destino: ser o espelho de um povo que, na mistura e na transgressão, encontra sua forma mais autêntica de existir e de explicar o mundo. Em última análise, reconhecer a Umbanda como filosofia é um ato de decolonização do próprio pensamento. É admitir que o saber pode emanar do atabaque, do congá e do abraço coletivo, sem a necessidade de um autor esculpido em mármore. A filosofia brasileira encontra no chão batido do terreiro um laboratório legítimo.
