Camilo Cogiro
Introdução:
Pretendo não ser reducionista nem superficial, mas ressalto que abordarei apenas uma parte da obra de Frantz Fanon. Por não ter consumido todo o conteúdo do autor, irei percorrer alguns capítulos de Pele Negra, Máscaras Brancas, estabelecendo contrapontos às ideias centrais dessa obra lendária.
A produção de conhecimento não é um ato isolado; ela é, fundamentalmente, um exercício de localização. Todo autor escreve a partir de um ponto de vista específico, pavimentado por seus estudos e por sua empiricidade. No panteão do pensamento anticolonial, Frantz Fanon ergue-se como um ícone irremediável, cujas análises sobre a psique do colonizado moldam gerações. No entanto, o peso de uma obra não deve ser confundido com a sua universalidade absoluta.
Como homem negro, brasileiro e fruto da periferia, vejo-me diante da obra de Fanon não como alguém que busca um manual de identidade, mas com o olhar crítico de quem habita uma realidade distinta. Embora tenhamos em comum a estadia pelo continente europeu e a marca da negritude, há um abismo entre o "negro" teorizado por Fanon — aquele que ansiava pela validação da branquitude — e a subjetividade que construí nos meios marginais de transgressão ao pensamento hegemônico.
Este texto é um esforço de demarcação: um diálogo entre a teoria de um tempo passado e a vivência de um presente que, embora reconheça as estruturas de opressão, recusa-se a aceitar o desejo pelo "mundo branco" como sua força essencial. Aqui, a periferia é um lugar e o caráter de uma produção de pensamento que renuncia às molduras acadêmicas e das máscaras coloniais.
Entre a teoria e a vida: Um olhar periférico sobre Fanon
Todo autor escreve a partir de duas fontes indissociáveis: seus estudos e sua empiricidade. Frantz Fanon não foi exceção. Sua obra é fruto das condições de sua época e da cultura colonial de uma Martinica sob o domínio francês. No entanto, mesmo compartilhando marcas identitárias — o ser negro, a vivência na Europa, a origem periférica —, não me reconheço como o “negro” de Fanon. Tampouco credito à brancura a glória ou o magnetismo que ele especula.
A polarização de Fanon vs. A realidade mestiça
Fanon parece enxergar o negro como um eterno candidato a habitar o mundo do branco. Talvez por sua trajetória acadêmica e por ser natural de uma colônia direta da França, seu saber tenha sido marcado por uma polaridade extrema. Em Pele Negra, Máscaras Brancas, ele relata como o europeu desconhece o negro que ele mesmo formou à sua imagem.
Minha perspectiva, contudo, é outra. Sou mestiço, brasileiro e adepto de um pensamento crítico emergente. Minha produção acontece no meio social onde estou inserido. Diferente do negro de Fanon, nunca desejei ser branco, nunca habitei seus círculos nem busquei sua aprovação; sempre estive entre os meus, no meio de outros sujeitos marginais.
O racismo e a experiência pessoal
Vivi cinco anos na Europa durante a juventude. Talvez por imaturidade ou falta de observação na época, não registrei de forma consciente episódios de racismo ou xenofobia. Isso não é uma tentativa de embelezar a realidade: sei que o racismo existe e que ele é estrutural, agindo como um freio brutal à mobilidade social.
Entretanto, minha trajetória não é pautada pelo trauma da exclusão dos espaços de elite, porque minha existência sempre foi periférica e autossuficiente nesse sentido.
Desconstruindo romantismos
Minha visão de mundo é alimentada pela realidade crua, não pela idealização:
Angola: Meu pai relata uma desigualdade social extrema, superando a brasileira.
Moçambique: Através do contato com pessoas de lá e de diagnósticos sociais, percebo a dificuldade da realidade africana.
Não romantizo a sociedade, nem a daqui, nem a de fora. Mas, como pessoa negra, sigo confiando no meu valor soberano. Minha autocrítica não serve para me diminuir diante de uma estrutura, mas para reconhecer onde falho como indivíduo em constante construção.
A autonomia do olhar periférico
Portanto, o que me diferencia da análise fanoniana é a origem do reconhecimento. Enquanto o sujeito ditado por Fanon parece sofrer pelo espelho quebrado da branquitude, o meu espelho é o território. Minha legitimidade vem da experiência dos guetos, da margem que se entende como protagonista de sua própria história.
Ao olhar para os relatos de meu pai sobre Angola, ou para as dificuldades de Moçambique, compreendo que a luta é global, mas as soluções são locais e práticas. As dificuldades de África e a estrutura brasileira me mostram que o racismo é um sistema de poder, mas ele não define a totalidade da minha psique. Eu não sou um "negro em falta" em relação ao europeu; sou um sujeito pleno e em entendimento em relação à minha própria trajetória.
Reconhecer minhas falhas pessoais é, no fim das contas, um ato de liberdade. Ao fazer isso, retiro do racismo o poder de ser a única explicação para os meus tropeços. Reivindico o direito de ser humano, imperfeito e independente. Minha "máscara" não é branca — ela sequer existe, pois minha pele é o meu manifesto e a periferia é o meu lugar de fala e de atuação.
