Camilo Cogiro
Parafrasear, abstratamente, aliterativamente ou personificando. O tal ponto de apoio, o – eu... - A construção discordante. A intencionalidade coletiva, o ordenamento desordenado e ordinário. Criação de uma linha de pensamento baseado em fatores viscerais... Como construir uma coletividade? Na vivência real pontos concretos se transformam em pontos de referência.
A beleza da multiculturalidade conceitual, que se torna real à medida que é expressada.
A história da cultura brasileira é rica e atravessada por uma espécie de alquimia verbal e melódica, onde a palavra nunca se limita ao que é meramente visível. Durante décadas, fomos herdeiros de uma estética permeada — aquela que aceita ao interlocutor habitar o espaço entre o que é dito e o que é sentido, transformando a canção em um espectro poliédrico. No entanto, observamos hoje um fenômeno de retração dessa polissemia simbólica. O que antes era expansão e convite ao imaginário, parece ter sido sitiado por uma objetividade pobre, reduzindo a obra de arte a um objeto de consumo imediato e interpretação unívoca. É sob o peso desse silenciamento das subjetividades que analiso o cenário atual.
Afirmo, categoricamente, mas não de forma inédita no pensamento, que a arte tem perdido a sua capacidade mobilizadora. Compositores que se consagraram não somente pela técnica, mas pela linguagem sonora, e muitas vezes textual, não têm acontecido atualmente. Tom Jobim, Chico Buarque, Ivan Lins, não existem mais na produção dos dias de hoje — autores que projetaram os seus significados para a seara de possibilidades do criador e dos interlocutores em geral. A Garota de Ipanema pode ser uma garota numa praia de Ipanema, como qualquer referência perto ou distante do apreciador. Gabriela pode ser a personagem do sertão, como outra Gabriela igualmente inspiradora, que pode nem se chamar Gabriela de fato. Essa multiplicidade na comunicação está, como disse Toninho Horta, “em um vaso perdido no tempo”.
Aquilo que é dito não pode ser somente o que parece ser! Tem que haver mais, por parte do comunicador e no universo de todos os entendedores. As materialidades têm que significar as suas mais belas projeções, utopias e sentido. Os sentimentos têm que ser colocados não somente como aprendemos que eles são, mas como os sentimos. Assim, elevo o tom…
Os meios de produção, a expansão das padronizações, têm acarretado relações que são apenas mediadas pelas coisas que são, e não pelo o que elas podem ser. Esse reflexo é ditado por um mundo que mede o outro pela sua utilidade ou pela capacidade de produzir lucro. Mas deveria ser pela potencialidade. A mediação deveria ser também pela possibilidade da capacidade em diversos contextos, já que tanto o indivíduo como a sociedade são capazes de ser outras coisas além do que são.
A vida pode ser imaginada em um retrato, mas não é estática. Nem sempre estamos na melhor condição favorável para alcançar os nossos limites, ou, nem em todos os momentos é possível desenhar todos os cenários, sejam eles bons ou ruins. Assim, a necessidade de nos relacionarmos (que é a linguagem) tem sido substituída pelo conforto que alguma antropotécnica pode proporcionar; consequentemente, diminui o repertório médio na esfera do que conseguimos dizer.
Não nego a utilidade e importância de qualquer produto humano, já que o trabalho, muitas vezes, é a capacidade de transformar, de modificar a natureza e dar valor à atividade cotidiana, criando assim facilidades ou artefatos que possam dar sentido a nossa vida de acordo com cada contemporaneidade. Contudo, esse modelo padronizado material, acaba se desenhando também na comunicação, padrões de apreciação emocional, as relações afetivas e interpessoais são organizadas e arbitradas pelas condições atuais.
Pensar num mundo diferente significa compreender que o “diferente” pode ser de diversos tipos. Mas o nosso “mundo diferente” é nosso, assim como o valor que atribuímos ao que dizemos e assimilamos. Então, forjar o novo mundo depende de nos soltarmos e questionarmos os argumentos que atuam como algemas ao status quo. A comunicação tem papel protagonista, já que ela é a intermediária da nossa relação com o outro. A comunicação abstrata utiliza linguagem não figurativa, símbolos ou arte para criar significados, sendo crucial para o pensamento teórico, mas muitas vezes mais difícil de interpretar que a linguagem concreta.
Portanto, a recuperação da comunicação abstrata é um ato de insurgência contra o esvaziamento do ser. Se a linguagem concreta nos ancora ao chão do utilitarismo — onde uma canção é apenas um produto e um sentimento é apenas um dado — a abstração nos devolve o direito ao mistério e à interpretação. É na condição do que "não foi dito explicitamente" que o interlocutor se encontra e se reconhece como sujeito, e não apenas como consumidor de significados prontos.
Forjar esse "novo mundo" exige, portanto, que aceitemos o desconforto do não-óbvio. É preciso permitir que a arte volte a ser uma indagação, e não uma resposta pronta embalada por algoritmos de conveniência. A comunicação tem que voltar a se desprender das algemas do literal para poder reencontrar a potência de Jobim ou a profundidade de Chico Buarque nas vozes que ainda virão. A arte só mobiliza quando nos instiga a olhar para o vaso perdido no tempo e, em vez de apenas lamentar sua ausência, decidimos, enfim, quebrar o silêncio para preenchê-lo com novas e infinitas subjetividades.
“O que se diz,
O eco de palavras ditas anteriormente
O controle do que pode ser dito
Tentativa,
O acerto e o erro
A interferência,”
