Forjar a nova pessoa

 Camilo Cogiro

Revisão: Bruna Paquier Cestari



Construir um novo mundo depende de pessoas com um olhar diferenciado. Indivíduos que não aceitem que tudo esteja em torno do dinheiro — não apenas como ferramenta de troca, mas como elemento definidor do valor das pessoas — nem que ele meça o sucesso e distorça a percepção que temos uns dos outros. Não é aceitável que o capital tenha deixado de ser um meio para se tornar o fim, deturpando a métrica do valor humano. Se desejamos viver de acordo com nossas vocações humanas, precisamos priorizar os fatores subjetivos e éticos como os verdadeiros pilares do reconhecimento mútuo.

Forjar esse novo indivíduo exige a construção de mentalidades distintas. Muitas das vanguardas necessárias para essa transformação já existem; contudo, é preciso que essas mentes mais conscientes atuem como multiplicadoras de novos hábitos. Atualmente, vivemos inebriados por um sistema fundamentado na acumulação, que insiste em medir o valor humano pelo poder aquisitivo. O resultado é uma sociedade exausta pelo esforço de ter, quando o correto seria mediar nossas relações pelo ser.

Tenho contato com algumas dessas mentes que personificam formas distintas de estar no mundo. São pessoas que enxergam a vida como um esforço coletivo e tratam as questões comunitárias como alicerce da experiência. Enquanto o pensamento comum permanece estagnado no individualismo, guiado pelo lucro, precisamos direcionar nossas ações para objetivos que ressoem com nossos valores e com as causas que defendemos.

A construção social é, por natureza, interdependente: para me deslocar, dependo de quem fabricou o carro; para morar, dependo de quem ergueu minha casa. A retórica de que quem produz a riqueza raramente desfruta dela é um fato histórico tão atual quanto urgente. Reconhecer essa interconexão é o primeiro passo para uma justiça real.

Exercer a autocrítica é o desafio que nos permite voos mais altos e horizontes mais amplos. Somente através do questionamento — começando por nós mesmos e buscando respostas sustentáveis para problemas que vão do pessoal ao coletivo — conseguiremos avançar com qualidade e propósito.

Ao substituirmos a métrica do capital pela métrica da dignidade e da colaboração, deixamos de ser meras engrenagens de um sistema de trocas para nos tornarmos arquitetos de uma existência com significado. O futuro não é algo que simplesmente esperamos; é algo que edificamos agora, no modo como olhamos, valorizamos e cuidamos uns dos outros.

Todos devemos ter o direito à dignidade plena, que se constrói com um movimento social, mas também pelas ações únicas de cada indivíduo. Se conseguirmos inspirar o próximo para arquitetar projetos de promoção da vida plena, já teremos avançado substancialmente no caminho do Bem Viver. Nesse caminho, entendemos a valorização da solidariedade, da reciprocidade, da espiritualidade e da dignidade humana como uma alternativa ao modelo de desenvolvimento consumista. Ao percebermos os recursos como fundamentais para nossa perpetuação, não os exploramos de maneira irresponsável; devemos extrair o que é necessário para a manutenção da vida sem destruir os ecossistemas do planeta.

Certos princípios fundamentais do Bem Viver são basilares para a dignidade plena. Destaco alguns:

Harmonia com a Natureza (Biocentrismo): A natureza não é um recurso para exploração, mas a "Mãe Terra" da qual o ser humano faz parte e deve respeitar.

Vida Comunitária e Coletividade: Baseia-se em relações de solidariedade, amizade fraterna e convivência, focando no coletivo em vez do individualismo.

Alternativa ao Desenvolvimento: Contrapõe-se ao conceito de "desenvolvimento" linear e ao capitalismo, buscando a satisfação das necessidades reais sem a destruição do planeta.

Reciprocidade e Equilíbrio: A busca por uma vida equilibrada, sem miséria, onde o bom convívio é o objetivo, garantindo tempo para a contemplação e autonomia.

Interculturalidade e Pluriverso: Reconhece a existência de muitos mundos e modos de vida, valorizando a ancestralidade e a diversidade étnica.

Como vimos, manter-se em harmonia constante com o planeta é um jeito de estar no mundo. Ao valorizarmos a natureza que nos é tão importante, estaremos também, de forma concreta, nos importando com os nossos pares. Para avançarmos, todas as nossas relações precisam estar em sintonia, das mais pessoais às impessoais.

A dignidade plena implica responsabilidade, reciprocidade e entendimento. Não se compõe de ações que ultrapassam e invadem o limite do outro. Dignidade é a qualidade intrínseca de todo ser humano, sendo fundamental para garantir uma existência honrada e adequada, com integridade moral, consciência do próprio valor e direito à liberdade e igualdade, servindo como alicerce para uma sociedade justa e para a garantia dos direitos fundamentais. Assim, o “plena” atua como um reforço, com o caráter de ampliar a dignidade para todas as áreas da vida. A dignidade plena não é estática, mas uma rede de segurança integral. Ela pressupõe que o respeito ao ser não possa ser fragmentado: não basta ter dignidade no lar se ela nos é roubada no ambiente de trabalho. Dignidade plena é também ter uma rede protetiva que assegure que se algo sair do planejado, teremos o suporte que nos confere as condições necessárias para darmos “a volta por cima” e restabelecermos a vida normal.

A nova pessoa deve ser uma facilitadora da dignidade plena para as outras pessoas, ao mesmo tempo que a usufrui em sua vida. Não pretendo fazer avaliações moralizantes ou instituir parâmetros. Quero, antes de tudo, ser agente da dúvida, do questionamento. Ao escrever esse texto, inclusive faço a autocrítica de perceber onde falho, em quais áreas da minha vida preciso melhorar para manter minha satisfação, tendo como objetivo, assim, a minha própria dignidade plena. Atuar com referências também é importante para regular as paixões sem mediadores, aquele estado de tomada de decisão que os instintos e os comportamentos irrefletidos e reacionários acabam ganhando no campo da nossa relação com o exterior.

Que o questionamento aqui proposto não se encerre no ponto final deste texto, mas se desdobre em novas formas de agir e sentir. Sejamos agentes da dúvida que liberta e arquitetos da dignidade que abraça. Ao cuidarmos do planeta e uns dos outros, estamos preservando recursos e garantindo que a experiência humana alcance seu sentido: a beleza de coexistir em harmonia, justiça e reciprocidade.


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