Comunicação: a subjetividade dos significados do comunicador

 Camilo Cogiro

Revisão: Laís Fritzen



      A comunicação está relacionada aos significados dos símbolos formalmente expressos. Mesmo que cada pessoa possa ressignificar uma palavra, em algum dicionário essa palavra vai ter a descrição de sua classe gramatical, de sua representação aceita e propagada e do que significa. Contudo, é bem possível ultrapassar os conceitos usualmente utilizados. A construção de uma comunicação, com o desenvolvimento de significações entre os interlocutores, pode agregar às expressões novos valores, que vão ser pertencentes às inúmeras possibilidades da linguagem.


Assim, quando falamos em um fato, como “carro”, por exemplo, é possível entendê-lo como “veículo que se locomove sobre rodas para transporte de passageiros ou de cargas”. Materialmente, todos nós sabemos o que é um carro. Contudo, partindo do princípio que vou tentar defender durante o texto, eu poderia construir uma frase do tipo: “As palavras são o carro do processo comunicativo textual.” De forma explicativa, a palavra “carro” deixou de ter uma representação com a materialidade carro em si, e se relaciona com o meio de dispersão das palavras para a construção de um texto. 


Acho importante instigar o assunto e relacioná-lo com a criatividade de uma forma geral. Se nos permitirmos ressignificar os termos originais de um jeito personalizado — de acordo com as continuidades de um processo de comunicação —, com a capacidade de inventar, criar e compor a partir da imaginação, conseguiremos dizer mais coisas por meio das mesmas expressões formalizáveis. O exemplo que eu mencionei no parágrafo anterior é apenas um dos tantos exemplos que consigo pensar. Na minha comunicação pessoal, tento estender as premissas para que elas possam também representar memórias afetivas, verdades próprias e lembranças. Então, eu consigo dizer que “própolis tem o cheiro da minha infância”. Se pensar de forma engessada, “infância” é uma fase da vida e não tem um cheiro específico; é o período que vai do nascimento à adolescência. Já “própolis”, que vem de resina produzida por abelhas e tem um cheiro balsâmico e amadeirado, é uma substância medicinal. Utilizando a forma “própolis”, eu posso dizer que “um novo amor é como própolis, cura as dores e cicatriza feridas…” e essas são só algumas versões das possibilidades linguísticas. Mas podemos avançar.


A interação pode ser também não explícita, quando a mensagem aparente esconde outras sensações — envolvendo contexto, entonação, silêncio, gesto, estilo, afeto; para o emissor seu conteúdo vai muito além daquilo que é entendido imediatamente pelo receptor. Um tipo de mensagem subliminar, que tenta despertar ou influenciar comportamentos e pensamentos. Inclusive, quando o significado não explícito está contido no ato, também pode ser uma forma de esvaziamento de sentimentos, emoções e colocações próprias que podem ser desvendados com o passar do tempo. Dessa forma, posso afirmar que “eu gosto da cor vermelha” e, assim, associar o vermelho ao meu tipo conjugal ideal pela intensidade. Explicado dessa forma, complemento afirmando que o discurso não explícito pode definir pensamentos ou comportamentos sem a pessoa notar, de todas as partes, causando percepções mnemônicas. 


Assim como foi destacado — e é importante explicar o que são —, mensagens subliminares são descritas como estímulos que estão abaixo do consciente e que, então, podem influir em percepções inconscientes. Ao induzir também a percepções mnemônicas, podem converter informações abstratas ou complexas em formatos mais concretos, utilizando a capacidade do cérebro de associar novas experiências a conhecimentos pré-existentes. 


Além do discutido, a comunicação é patrimônio social. Ninguém é dono de um idioma, apesar das academias que normatizam as línguas e das músicas ou poesias que têm um autor e podem estar reguladas por leis de direitos autorais. Existe um conceito decolonial, advindo da africanidade, que diz que o conhecimento deve ser direcionado à comunidade, porque o saber é patrimônio coletivo. Em meu entendimento pessoal, a informação também deveria ser vista dessa forma…


Contudo, em um mundo onde existe a tendência de capitalização universal, de comercializar e tentar obter lucro através de tudo, a informação e o conhecimento ficam restritos a quem pode pagar por eles, diminuindo, assim, seu poder intrínseco de formação e democratização das decisões e da participação social. 


Estamos tratando de um assunto que dialoga com a organização social, a psicologia, a neurologia, a arte, a antropologia, enfim, todas as áreas da vivência humana, já que a linguagem, e a capacidade de produzir vocabulário, é o que nos permite um estilo de vida complexo como, por exemplo, conservar, avançar e perpetuar conhecimento técnico com as possibilidades de produção antropotécnica.


Alguns autores dizem que a materialidade é o que define a vida e que a materialidade dita a vivência. Para mim, antes da materialidade, outros elementos são mais definidores do ente. Em épocas distintas, em territórios com estruturas de produção diferentes, o amor e a dor serão sempre o que são; a felicidade e o sofrimento, assim serão.  


Estudar autores e conhecer suas afirmações — alguns mais acadêmicos, outros que exercem a prática da dúvida, uns com mais imposição, outros dialógicos ou decoloniais — é importante para construir verdades pessoais próprias, pois fazendo relações entre a minha realidade e o que outros teóricos propõem é que eu consigo entender melhor as engrenagens do que me cerca.


Qualquer pessoa, tendo interesse nos processos da comunicação, vai precisar experimentar sentimentos próprios à veracidade da troca de ideias. Continuo defendendo que uma comunicação mais diversa e complexa depende de experiências e de uma “essência” mais rebuscada. Experiências mais completas e questionamentos mais amplos favorecem a criação da multiplicidade na hora de falar, escrever e criar em qualquer formato de transmissão de ideias. É assumidamente importante ter contato com a diversidade, para não ficar fechado em uma redoma. 


Expandir o vocabulário é expandir o próprio horizonte de existência. Comunicar não é apenas transferência de dados, mas sim um ato de coragem que nos permite imprimir nossa própria gramática no mundo. Ao expandirmos os limites do que as palavras podem significar, deixamos de ser meros repetidores para nos tornarmos autores de nossas próprias realidades. Que possamos manter a linguagem viva — e não como um monumento estático em um dicionário. O intercâmbio floresce o encontro, a memória e a eterna capacidade humana de se reinventar através do dizer.





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