História distorcida: o papel do negacionismo na construção do extremismo atual e o revisionismo histórico

 Autor: Vitor Odirlei Joner


Revisão: Laís Fritzen

    Atualmente, a polarização política chegou ao seu extremo no Brasil. Não só por partidos ou ideologias, mas estendendo-se às narrativas. Jair Bolsonaro, enquanto figura política atual, não escondeu seu apoio à ditadura militar brasileira, que torturou e matou milhares de inocentes, enquanto mantinha outros milhões censurados e oprimidos diariamente durante 21 longos anos (1964–1985).

    Mesmo defendendo a ditadura, o fechamento do STF e a tortura, Bolsonaro elegeu-se presidente no ano de 2018. Não só uma figura fascista chegou ao poder, como, junto dele, impregnou-se uma nova ideologia doentia: o bolsonarismo. Esse fenômeno corroeu e manipulou milhões de brasileiros que defendiam figuras e ideias sem nem ao menos perceber as mentiras que lhes eram contadas.

    Como não podiam comprovar suas teses e defender uma ditadura sangrenta como a brasileira a partir da História convencional, o bolsonarismo utilizou o revisionismo histórico para difundir suas mentiras e normalizar sua ideologia.

    Esse revisionismo histórico não é uma revisão da história como pesquisa científica e sociológica, mas sim uma distorção dos fatos já consolidados para moldar a verdade e a realidade, e encaixá-las na política e em nossa democracia. Assim, diversos discursos foram sendo replicados mesmo quando suas fontes e metodologias eram questionáveis.

    Esse conteúdo encontrou eco em indivíduos frustrados, que buscavam validação para seus preconceitos e para o desejo de silenciar quem divergia de sua visão moral. Assim, esses indivíduos puderam, finalmente, colocar aqueles com ideologias, religiões, e até mesmo sexualidades diferentes, como supostos inimigos que querem fazer o mal para as tais “pessoas de bem”.

    Embora tenha tido uma crescente nos últimos anos graças a Bolsonaro, esse público já existia aqui. Mas, agora, teve uma bandeira única para se unir, usando uma figura política como pretexto para atentar contra a democracia em discursos fascistas que ecoam em uma das maiores repúblicas do planeta.

    A ditadura militar brasileira se iniciou a partir de um golpe de Estado por parte de grupos militares apoiados pelos Estados Unidos, sempre defendendo suas ações como uma suposta “salvação do Brasil” contra o “comunismo” do então presidente João Goulart, uma figura de centro-esquerda que, ironicamente, foi tirado do poder por aqueles que o chamavam de ameaça à democracia, mas instauraram um regime de terror e aboliram qualquer sistema democrático.

    Durante esse período, os militares utilizaram violência e censura contra opositores para garantir legitimidade e consolidar seu poder. O objetivo era moldar a opinião pública e ocultar as ilegalidades cometidas impondo decretos inconstitucionais — sendo o AI-5 o mais sombrio deles.

    Através da Comissão Nacional da Verdade, o Estado brasileiro reconheceu apenas 434 mortos políticos, afinal, a Lei sobre Mortos e Desaparecidos Políticos foi negociada com os militares, fazendo com que diversas mortes de indígenas e camponeses, e outras mortes causadas direta ou indiretamente pelo Estado, nunca fossem contabilizadas. O número real de vítimas, estimado por diferentes órgãos e entidades, pode passar de 10 mil mortos e chegar a pelo menos 20 mil pessoas torturadas por aqueles que deveriam defendê-los.

    Desse modo foi criado um cenário perfeito para o presente revisionismo: pessoas intocadas pelo Estado, muitas vezes apoiadores das causas contra minorias e, carregaram por gerações o discurso pró-ditadura, impulsionadas pelo próprio Estado brasileiro que, mesmo depois da redemocratização, fez questão de não punir os responsáveis pelas atrocidades cometidas e foi cúmplice ao relativizar e diminuir o número de mortos.

    A impunidade e a não revelação de toda a verdade de um capítulo sombrio de nossa história criou uma brecha que foi preenchida pelos grupos que vemos, hoje, pedindo o fim da liberdade política e religiosa, e a volta de seu próprio carrasco com o intuito de legalizar e difundir sua visão no Brasil — pois, ainda que percam sua liberdade, poderão se satisfazer vendo os demais sendo diminuídos.

    Bolsonaro sempre soube quem era o seu eleitorado; foi o primeiro presidente desde 1985 a não comemorar a data do fim da ditadura e foi além: em seu mandato, permitiu uma celebração na data de início da ditadura por meio de mensagem enviada aos quartéis e militares sobre a suposta união entre civis e militares para resgatar o país de um inimigo que, em suma, nunca existiu.

    Anos de impunidade e o menosprezo à verdade aliados a quatro anos de Bolsonaro na presidência levaram ao ápice em 2023. Após perder as eleições de 2022 para Lula, que voltaria para seu terceiro mandato como presidente, Bolsonaro, juntamente com outras figuras do governo e das forças armadas, tramou um plano para um golpe de Estado que visava a morte de figuras como o recém-eleito presidente e o chefe do judiciário, ministro Alexandre de Moraes, vistos como inimigos do grupo destituído do cargo.

    Os apoiadores de Bolsonaro também desejavam pôr fim à democracia, já que invadiram e vandalizaram prédios dos Três Poderes, iniciando uma ocupação e exigindo a volta de Bolsonaro por vias de intervenção violenta.

    Dois anos depois da tentativa fracassada de golpe, o STF investigou, indiciou ou responsabilizou em diferentes esferas, cerca de 1.400 pessoas, incluindo Bolsonaro e figuras próximas a ele, por crimes que variam entre tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, associação criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. Porém, o fim legal de Bolsonaro na vida política não seria o fim do bolsonarismo, nem o fim de sua significância: Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, aspira disputar as eleições presidenciais em 2026.

    É nítido que a incapacidade do Brasil, enquanto povo, de lidar com as consequências da ditadura e de conscientizar sua população levou à criação de grupos extremistas — seu líder chegou ao poder e, sem surpresa alguma, como sempre se mostrou um inimigo da democracia, atentou contra ela. O extremismo de direita e o neofascismo estão aí; mesmo que não fosse Flávio a figura da vez, enquanto esses movimentos existirem, sempre haverá alguém querendo representá-los, graças à falta de habilidade da democracia brasileira. O culpado não é só o extremista, é o sistema que cria e aceita o extremista.

    Atualmente, Lula é favorito para um quarto mandato, mas e daqui a quatro anos? O que será do Brasil sem uma figura forte o bastante para se opor a um possível governo ditatorial? Não podemos depender apenas das urnas para evitar mais quatro ou oito anos de catástrofe; é necessário abrir novas pesquisas e comissões para avaliar os reais danos do golpe de 1964. A verdade precisa ser dita, e não só uma vez, mas quantas vezes forem necessárias.

    As redes sociais formam um mecanismo utilizado para espalhar informações inventadas, manipular e mentir. Normalizar tais funcionamentos discursivos, como já ocorre nos meios digitais, é outro fator que corrobora a ruína do Estado democrático de direito.

    Enquanto o país for cúmplice dos amantes do regime militar, nossa democracia nunca estará segura. Assegurar nossa liberdade requer luta constante contra as mentiras que estão enraizadas em nossa história. A vitória só será possível através de um compromisso inegociável com a memória, a verdade e a justiça. É preciso trazer à tona a lembrança daqueles que foram agredidos e silenciados.

    É premente combater a ignorância! Que 64 cause um sentimento de repulsa, e não de nostalgia dos “bons tempos". Aceitar a falha em lidar com o tema é um primeiro passo; nossa história deve ser contada e precisa mostrar a dura realidade desses anos como forma de combater a anistia e a impunidade. Uma democracia não se faz apenas no tempo eleitoral; a população precisa ter consciência da importância da defesa de nossa democracia. Só assim crenças que são contra o pensamento democrático não terão espaço para criar raízes.

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