Aparelho econômico do Estado: suas possibilidades e contradições

 Camilo Cogiro

Ana Staut

Luciana da Silva



Significado de Capital

[Economia] Todo o dinheiro; bem material destinado à produção.

[Jurídico] Parcela da dívida, com exceção dos juros. adjetivo Que não se pode dispensar; que é indispensável; fundamental, principal. Que pode ocasionar morte; fatal: sentença capital. Fonte: https://www.dicio.com.br/capital/


A configuração econômica do século XXI revela uma profunda assimetria na distribuição de riquezas e oportunidades, consolidando um cenário onde o desenvolvimento depende fortemente da posição na hierarquia global. No Brasil e em outras economias periféricas, essa realidade é acentuada por um sistema financeiro que privilegia centros de capital consolidado, mantendo estruturas de subordinação herdadas do período colonial. Para compreender os desafios do desenvolvimento contemporâneo, é imperativo analisar como o aparelho econômico estatal maneja suas políticas frente às pressões externas, a volatilidade das moedas de reserva e as disparidades de poder de compra que definem a qualidade de vida das populações. Arquitetamos o nosso pensamento partindo das contradições da gestão pública até a influência decisiva do câmbio e das elites globais na construção da infraestrutura e do bem-estar social.

Vamos partir do princípio de que o dinheiro e as oportunidades são extremamente mal distribuídos no Brasil. Também podemos observar que os gestores do capital tendem a privilegiar sempre as mesmas sociedades que já possuem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elevado e uma moeda forte. Com base nessas constatações, podemos desenvolver algumas ideias importantes, mesmo que sejam baseadas, sobretudo, em fontes empíricas.

O aparelho econômico do Estado engloba um conjunto de instrumentos e políticas que podem ser utilizados para promover o desenvolvimento e o bem-estar da população. Entre suas possibilidades estão a capacidade de implementar políticas fiscais e monetárias, o investimento em infraestrutura, a promoção da educação e saúde públicas, o estímulo ao setor privado por meio de incentivos e regulamentações adequadas e o combate às desigualdades por meio de políticas redistributivas. No entanto, o aparelho econômico estatal também enfrenta contrariedades, como limitações de recursos, burocracia excessiva, interferências políticas indevidas, dificuldades na execução eficiente de programas e políticas e desafios na obtenção de consensos políticos necessários para implementar reformas estruturais significativas. Além disso, questões como corrupção e falta de transparência podem dificultar as intervenções estatais. A gestão eficaz requer um equilíbrio cuidadoso entre suas potenciais contribuições e as contrariedades que podem surgir durante sua prática.

Podemos fazer a análise que o franco suíço e a libra são alternativas ao euro na Europa, sendo moedas fortes que contam com um grande protecionismo por parte de seus bancos centrais, que servem como emissores e reguladores. Na Suíça e na Inglaterra, locais com sistemas financeiros bastante estáveis e bancos de investimentos que se esforçam para equilibrar suas taxas de câmbio por meio de um complexo balanço social e de alocação de recursos, são desenvolvidos programas econômicos para atender às necessidades de investimento em crédito pessoal, empresas e organizações que operam nesses mercados. Esses princípios sustentam as negociações e transações internacionais envolvendo produtos domésticos, importações e exportações. Sabemos que vários produtos são cotados em dólar. Portanto, quanto mais fortes forem as moedas nacionais em relação ao dólar, maiores serão as possibilidades de compra de mercadorias, enriquecendo assim a oferta e o poder de compra desses produtos.

Na defesa de políticas econômicas, existem moedas que mantêm sua força e reconhecimento internacional ao longo do tempo. No entanto, esse não é o caso do real brasileiro. Sabemos que em 1995 o real valia aproximadamente um dólar, mas hoje observamos uma taxa de câmbio na qual um dólar equivale a mais de cinco reais. Essa desvalorização não apenas dificulta a compra de produtos importados, mas também contribui para o aumento da inflação.

Pode-se dizer que isso ocorre porque o Brasil é considerado um país periférico na economia global. Isso significa que ele depende do dólar como moeda de reserva para importar produtos essenciais. A variação do real em relação ao dólar segue a lei mais conhecida do mercado: oferta e demanda. Quando o país consegue exportar produtos e receber dólares em troca — como ocorreu na década de 90 quando o preço das commodities aumentaram no mercado internacional — há uma maior oferta de dólares, o que faz com que o real se valorize. Por outro lado, quando há uma grande saída de dólares, a oferta diminui e fica mais caro comprar a moeda norte-americana com o real.


O que é moeda de reserva:


“Uma moeda de reserva é uma moeda estrangeira detida em grandes quantidades por bancos centrais e instituições financeiras globais para liquidar transações internacionais, como comércio e dívidas, atuando como uma "moeda forte" e reserva de valor, sendo o Dólar Americano (USD) a principal atualmente, embora Euro, Renminbi (Yuan) e Libra Esterlina também sejam relevantes, oferecendo estabilidade e facilitando o comércio internacional para o país emissor.” 


Alguns países tentam conter a desvalorização de sua moeda por meio de políticas cambiais, fixando o câmbio em um determinado valor. Assim, independentemente da quantidade de dólares que entra ou sai do país, a cotação não muda. O problema das políticas de fixação do câmbio é que são mal vistas pela comunidade internacional e podem resultar em retaliações de alguns governos por serem consideradas protecionistas. No entanto, para alguns países, essa pode ser uma das poucas medidas disponíveis para garantir certa estabilidade em suas economias.

Atualmente, "o Brasil adota o regime de câmbio flutuante, o que significa que o BC não interfere no mercado para determinar a taxa de câmbio, mas para manter a funcionalidade do mercado de câmbio". (FONTE: BCB)

Vamos considerar o exemplo da Espanha. Nesse país, o salário mínimo é mais de mil e cem euros por mês, o que equivale a mais de cinco mil reais. Enquanto no Brasil o salário mínimo é pouco mais de mil e quinhentos reais. (dados de 2025) Ou seja, o mesmo tempo de trabalho médio proporciona rendimentos diferentes. Essa verdade evidencia uma diferença no poder de compra conforme a força da moeda. Em territórios africanos, que muitas vezes não têm políticas econômicas sólidas, observamos uma taxa de câmbio onde um dólar pode valer mais de sessenta meticais em Moçambique ou dezoito rands sul-africanos.

A estabilidade da moeda em um mundo globalizado tem grande impacto na organização coletiva. Existem indicadores que servem como referência para perceber o valor relativo da moeda local, como o preço do ouro, da prata, do petróleo e o valor do dólar, que é a principal referência de câmbio. Ao precificar, empresários e os proprietários da oferta de mercadorias também influenciam no valor da moeda nacional.

O sistema mercantil passou por diversas fases ao longo da história. Inicialmente, houve relações de escambo, onde ocorriam trocas de produtos em uma sociedade essencialmente rural e de subsistência. No escambo não havia uma definição precisa do valor de cada produto, podendo variar amplamente de acordo com as necessidades dos negociantes. Por exemplo, uma ovelha poderia ser trocada por alguma quantidade de milho ou por arroz, sem um valor tabelado.

As trocas e o comércio evoluíram muito ao longo do tempo, e hoje em dia o dinheiro, na maioria dos casos, é digital, o que nos faz até esquecer o uso do cheque, que era comum em um passado recente. Com a digitalização do dinheiro, surgem várias problemáticas que abordarei a seguir.

Certamente as transações bancárias e o uso de cartões de crédito são regulados pelo Banco Central. Quando falamos do dinheiro como uma ferramenta para obtenção de recursos materiais, contratação de serviços, conforto, é importante reconhecer que o dinheiro é gerido por grandes gestores econômicos que tomam decisões que podem beneficiar ou prejudicar diferentes grupos. Mesmo em escala local, a realidade dos bens ultrapassa fronteiras nacionais.

Por que alguns países não têm recursos financeiros para construir sua infraestrutura, enquanto outros, como a Alemanha, com excelentes recursos bancários, possuem uma infraestrutura muito desenvolvida? Isso reflete uma dança complexa de interesses, onde são feitos ajustes com base em acordos mais ou menos específicos.

A disposição de fornecer financiamento para determinadas causas está amplamente associada às decisões das elites e aos interesses geopolíticos. Enquanto a União Europeia e os Estados Unidos, como principais atores globais, alocam grandes quantias para a Ucrânia durante um conflito, onde a Rússia também investe bilhões, o Sudão do Sul enfrenta uma longa crise de refugiados, de escassez alimentar e assistência humanitária.

Uma das heranças do colonialismo é a perpetuação da subordinação política, econômica e comercial por parte das ex-colônias. Isso significa que muitas decisões domésticas desses lugares são influenciadas negativamente pelo mercado internacional. O capitalismo global está configurado de maneira a estabelecer desigualdades, tanto em nível local quanto internacional, criando dinâmicas geoeconômicas desiguais.

No século XXI, é impossível ignorar a importância da globalização, com o uso disseminado de computadores, redes de comunicação e sites de notícias que nos permitem interagir com o mundo de forma simples e rápida. Para o Brasil, é crucial desenvolver planos econômicos eficazes que promovam oportunidades mais equitativas. Isso pode ser alcançado através da distribuição de renda e do acesso a créditos por meio de mecanismos multilaterais para estimular a economia, pois investimentos geram recursos.

O PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, foi uma importante iniciativa no Brasil deste século. Contribuiu para o desenvolvimento infraestrutural, social e econômico, priorizando também o desenvolvimento urbano em benefício da parcela base de baixa renda.


Podemos argumentar que a gestão dos recursos representa uma das principais complexidades da Nova Ordem Mundial. Se não mudarmos de rumo, será difícil alcançar avanços substanciais. De fato, líderes relevantes já estão indicando que não conseguiremos atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030, conforme foram estabelecidos pela ONU.

Diante desse cenário, torna-se evidente que a superação do subdesenvolvimento brasileiro e de outros países periféricos não depende apenas de ajustes internos, mas de uma revolução profunda na arquitetura financeira internacional. Enquanto o sistema global continuar a punir moedas de economias em desenvolvimento e a premiar a concentração de capital em centros históricos de poder, o abismo entre o poder de compra de um cidadão europeu e de um latino-americano ou africano tenderá a persistir.

A experiência de programas como o PAC demonstra que o Estado possui as ferramentas para ajudar o crescimento, mas essas iniciativas precisam estar acompanhadas de uma soberania monetária mais robusta e de uma inserção internacional menos dependente de commodities brutas. É necessário que o Brasil e seus pares busquem fortalecer blocos regionais e mecanismos de troca que diminuam a hegemonia absoluta de uma única moeda de reserva, mitigando a vulnerabilidade às flutuações do dólar.

A gestão dos recursos na Nova Ordem Mundial deve deixar de ser um jogo injusto e de cartas marcadas, onde o enriquecimento de poucos depende da precarização de muitos. Para que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de 2030 não se tornem apenas uma promessa esquecida, a economia deve ser resgatada como uma ciência social a serviço da dignidade. O desafio do século atual é, portanto, transformar a digitalização e a globalização em pontes para o desenvolvimento responsável.




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