Camilo Cogiro
Na Europa, o século XV foi visto como a ponte entre o final da Idade Média e a época do Renascimento e da Idade Moderna. Diversos desenvolvimentos tecnológicos, sociais e culturais levaram à Grande Divergência — processo que consolidou a Europa Ocidental como potência dominante — e permitiram que algumas nações europeias controlassem o cenário mundial nos séculos vindouros. Entre esses protagonistas estavam o Reino da França, o Reino da Inglaterra, Portugal e outros.
O colonialismo moderno consolidou-se a partir do ano de 1400 d.C. com as Grandes Navegações. O poderio e a tecnologia marítima impulsionaram o contato entre povos e a anexação de territórios pelos países hegemônicos. A "Partilha do Mundo" entre as nações europeias foi selada por diversos tratados entre os países do Norte Global; para o território que hoje é o Brasil, o mais influente foi o Tratado de Tordesilhas, que traçou uma linha imaginária dividindo as terras entre Espanha (que na época era o Reino de Castela) e Portugal. Naquele tempo, a Europa era um cenário de hostilidade e fragmentação, em que cada nação se aventurava pelos mares em busca da conquista de novos povos, impondo doutrinação, catequização e aculturação forçada.
A partir do momento em que os centros de poder mapearam a geografia global, estabeleceu-se uma estrutura de dominação rígida: o controle político e econômico das metrópoles sobre as colônias, geralmente operacionalizado pelo pacto colonial. Nestes territórios, a matéria-prima era saqueada e a população escravizada, sem qualquer noção de Direitos Humanos ou legalidade.
Esse padrão é, em termos históricos, relativamente recente. Apenas no século XX a descolonização africana se consolidou por meio de movimentos de independência e conflitos armados. Em Angola, por exemplo, frentes como o MPLA, a FNLA e a UNITA foram fundamentais para romper o domínio português em 1975. Contudo, embora as bandeiras tenham mudado, a prática de dominar territórios e mercados permanece constante.
Com o amadurecimento do capitalismo, o colonialismo transmutou-se em neocolonialismo. Trata-se da dominação econômica, política e cultural de países periféricos por potências como os EUA, Europa e Japão. Diferente do colonialismo clássico, o foco aqui é o controle indireto, incentivado pelo excedente industrial e por teorias de superioridade que perpetuam a dependência e o subdesenvolvimento.
O imperialismo, perpetrado por nações que historicamente subjugaram outras culturas, é o pilar da conjuntura global atual. A "Nova Ordem Mundial" — longe de ser uma teoria conspiratória, mas sim uma análise das relações de poder entre Estados-nação — é dominada por atores que detêm hegemonia econômica e bélica, com destaque para os Estados Unidos. Esse poder de impor políticas unilaterais e dominar desrespeita a "Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais", que assegura o direito inalienável dos povos à soberania.
Figuras como Donald Trump tornaram-se ícones desse imperialismo contemporâneo. Em uma busca pelo poder absoluto, sua retórica e ações atuam com a invasão de territórios, sequestros, bombardeios e até a pretensão de anexar áreas como a Groenlândia. Essa política (dos Estados Unidos) é impulsionada por um orçamento militar próprio que ultrapassa 900 bilhões de dólares anuais, somando-se investimentos públicos e o complexo industrial-militar privado.
O imperialismo não domina apenas bolsas de valores e recursos geográficos; ele atua no sequestro dos imaginários. É alarmante observar cidadãos em nações historicamente exploradas enxergarem em líderes neocolonialistas exemplos de referência. Como sintetizou Lênin em "Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo", o sistema evoluiu para o domínio dos monopólios e a fusão do capital bancário com o industrial.
A hegemonia do dólar como reserva mundial permite que os EUA manipulem a economia global, dívidas externas e investimentos em benefício próprio, sem mediadores. Em um sistema em que o capital viaja o mundo em um clique, o controle financeiro torna-se uma arma de guerra tão eficaz quanto mísseis. Embora líderes políticos sensacionalistas ocupem as manchetes, são os mercados que muitas vezes ditam as regras reais de sobrevivência.
Enquanto o capital e a propriedade privada forem os eixos da sociedade, assistiremos à manutenção de políticas colonialistas e práticas neoescravistas — como a exaustiva escala 6x1. No Brasil, enfrentamos um atraso ideológico em que a mentalidade popular é moldada e alienada pela burguesia moderna, colocando-nos em desvantagem na arena internacional.
A mudança exige investir na cultura, na transgressão e em práticas revolucionárias. É urgente formar mentalidades multiplicadoras de libertação. Caso contrário, continuaremos subalternos a marcas, status e aos detentores históricos do poder. Mesmo que o trabalhador produza tudo, ele seguirá em posição de indignidade enquanto as regras forem ditadas por aqueles que apenas gerem o capital acumulado pelo suor alheio.
Como podemos agir?
Visto que a história está posta — os fatos passados são imutáveis, ainda que passíveis de reinterpretação —, torna-se urgente a disputa de mentalidades. É pela instrução que alcançaremos avanços reais. Embora o comportamento humano se transforme lentamente, é empírico que a evolução da consciência precede e molda a mudança das ações.
Ninguém transforma o mundo, ou sequer sua própria comunidade, agindo de forma isolada; as conquistas são, por natureza, coletivas. Compreendo que nossa existência só ganha sentido na relação com o outro. Nesse contexto, estimular o consumo consciente, incentivar gestões éticas e doar tempo e esforço a causas em que acreditamos — sem a expectativa de retorno financeiro — são passos fundamentais. Reconheço, contudo, as barreiras: o capitalismo opera em ritmo frenético, drenando o tempo e a disposição para a militância. Muitas vezes, a sobrevivência consome o espaço que seria da leitura e da reflexão.
Uma das saídas reside na formação de base, desde a infância, alcançando periferias e creches populares. A verdadeira libertação passa pelo imaginário: é preciso conceber nosso povo sob um olhar decolonial, resgatando o valor da negritude e da mestiçagem que fundamentam o Brasil. Sustento que o colonialismo encontra campo fértil na psique. Se consumirmos apenas o que impulsiona o imperialismo, perpetuaremos esse modelo. Precisamos ser incisivos; em certos momentos, será necessário radicalizar, transgredir e impactar.
A arte, que possui um protagonismo formador, tem sido frequentemente reduzida ao entretenimento vazio, esquecendo sua potência política. O que observo hoje, seja na música ou nas redes sociais, é uma lacuna de debates vazios. Falta uma formação consciente e assertiva na direção da suprassunção social.
Não pretendo estabelecer padrões, ditar fórmulas mágicas ou oferecer soluções milagrosas. Meu papel cumpre-se ao estimular a dúvida, denunciar o que é e propor uma linha de pensamento autêntica. A complexidade humana não cabe em receitas prontas. Embora descarte o autoritarismo de modelos sociais rígidos, reconheço o valor das teorias e estudos que aprimoram as ideias. Afinal, a imposição gera insatisfação, e o horizonte deve ser a construção de uma vida plena e satisfeita.
Portanto, a mudança que almejamos não é um destino estático, mas sim um exercício cotidiano de presença e resistência. Nossa busca por conhecimento não pode terminar na teoria; deve transbordar em gestos de solidariedade e na ocupação de espaços. Se a estrutura atual nos quer exaustos e isolados, nossa maior transgressão é permanecermos lúcidos, sensíveis e, acima de tudo, juntos. A revolução que importa começa na mente, mas só se concretiza na ação em prol do comum.
