Semiótica, Música e Harmonia

 Camilo Cogiro

Laís Fritzen

REVISÃO: Natália Miranda



semiologia 

(se.mi:o.lo.gi.a)

sf.

1. Ling. Estudo dos signos linguísticos, ou não linguísticos (p.ex.: gestos, rituais religiosos, vestuário etc.), que funcionam para a comunicação; SEMIÓTICA

2. Med. Ver sintomatologia

[F.: Do fr. sémiologie.]

(https://aulete.com.br/semiologia)


A comunicação através de várias linguagens é vasto e fértil terreno para semioticistas e linguistas. Se podemos pensar o planeta Terra como um campo energético organizado, com processos e padrões regulares, temos que concordar que a laboração complexa do universo obedece a padrões lógicos de interações – um dos maiores reflexos disso é a comunicação.

As interações humanas costumam estar no centro de discussões antropológicas, pois permeiam a constituição do homem, o objeto desse campo de estudo. No entanto, quando se trata da comunicação, a Antropologia precisa recorrer aos conhecimentos de outras áreas. Isso porque a linguagem – a ferramenta utilizada para comunicação – sendo tomada nessa área como um correlato ao seu objeto específico, o homem, e sua interação/produção, caracteriza-se como um fato social. 

A área da qual a Antropologia pega emprestados conceitos, que toma como objeto específico língua(gem) e tudo que a constitui, por sua vez, é a Linguística. Ou, pelo menos, é dessa forma que entendemos a Linguística desde que Saussure desenvolveu seu projeto de estudo no início dos anos 1900 que transformou a área. A Linguística não exclui o fato social da comunicação, mas para dar conta da multiplicidade de seu objeto impalpável, comunitariamente construído à revelia de qualquer vontade pessoal, espraia-se em ramos tão diversos quanto suas teorias se distinguem umas às outras. 

São séculos de estudo de temas intrinsecamente relacionados à linguagem a partir de abordagens que foram evoluindo de acordo com as tecnologias que dispúnhamos, isso se contarmos o estudo inaugural de Gramática por volta do séc. v a.C. na Grécia antiga. Porém, por mais contraditório que possa parecer para aqueles à par das teorias linguísticas, trazer Saussure para esta discussão se justifica não apenas pela forma como podemos construir argumentos com base nos pressupostos para pensarmos língua(gem), mas também semiologia e, consequentemente, música. 

Saussure propunha a semiologia – que depois viria a ficar consolidada como semiótica – como uma ciência, a cargo da Psicologia social, para estudar a vida dos signos (do grego semeion, signo/sinal) na vida social. Essa era uma antecipação do teórico à lapidação da forma de seu próprio objeto – a língua – que, enquanto conceituado como sistema de signos compartilhados em circuito de fala, constantemente dependentes de uma relação entre si para ter significação, irremediavelmente pertenceria a um domínio mais abrangente, à semiologia, estando, portanto, sempre vinculado ao fato social. 

Assim, a comunicação – coletiva, mas também individual – manifesta-se na forma de construção porque, para ter significado, depende daquilo a que os signos estão, ou serão, relacionados: uns aos outros e ao mundo (concreto, tangível, e abstrato, imaginário). Esse pode ser um ponto de vista adotado pela Antropologia, mas primordialmente, são, no plural, muitos pontos de vista da Linguística. O argumento de que a significação opera por meio de uma série de relações lógicas está contido no argumento de que o universo obedece a padrões lógicos de interações.

Assim, a linguagem torna-se um meio de nos afirmarmos socialmente, funcionando em nível individual e sociocultural, pois se quando emitimos declarações nos colocamos no mundo, quando recebemos declarações de outros sobre nós, somos colocados, o que quer dizer que nos inserimos e somos inseridos constantemente em determinados contextos. 

Na língua portuguesa, estima-se que existam mais de 400 mil palavras, porém as possibilidades de arranjo são quase infinitas, uma vez que dependem de construção estilística, harmônica, retórica e prosódica – subjetiva – e ficam restritas pela construção sintática – dada pela língua. O efeito disso é a possibilidade de nos aproximarmos da compreensão de um pensamento e comunicação sobre tudo aquilo que julgarmos existir.

Círculos sociais específicos apresentam repertórios singulares, com vocabulários com sentidos exclusivos, formando campos de linguagens técnicas que servem para caracterizar premissas diferentes e específicas.

O fluxo da comunicação é algo que pode ser trabalhado: enquanto pessoas, estamos contando nossa história através de signos; e o contexto – seja ele imediato, geográfico, cultural ou histórico – confere funcionamento simbólico aos signos, podendo projetar uma frase ou ideia aparentemente simples para diversos significados. Assim, podemos pensar que a existência é como um livro em que nós escrevemos os capítulos, cada qual com seus assuntos e características morais e sociais oriundos do tipo de vivência em que nos inserimos. 

harmonia

(har.mo.ni.a)

sf.

1. Equilíbrio entre elementos diversos que resulta em algo agradável de se ver ou ouvir. [+ em, entre: Há grande harmonia nas cores desse quadro: criar harmonia entre os objetos da decoração]

2. Bom entendimento; CONCÓRDIA [+ com: Viver em harmonia com a natureza.]

3. Mús. Ciência que estuda a formação dos acordes musicais e seu encadeamento.

[F.: Do gr. harmonía]

Harmonia consonantal
1 Fon. Ling. Tendência a aproximar pronúncia de uma consoante à de outra consoante da mesma palavra ou sintagma.

Harmonia imitativa
1 Mús. Expressão de sensações ou sentimentos por meio de ritmo ou melodia.

Harmonia vocálica
1 Fon. Ling. Tendência a aproximar pronúncia de uma vogal à de outra vogal, de forte presença, da mesma palavra ou sintagma.

(https://aulete.com.br/harmonia)

Na música, harmonia é a combinação de sons, que, de forma proposital, pode gerar determinada sensação psicoacústica. Geralmente, na música brasileira, harmonia é o nome dado para a formação de acordes, notas com intervalos de frequências que geram sonoridades agradáveis e desejáveis para um certo tipo de audição. 

Assim como uma percepção sistemática da língua lhe confere um senso de universalidade, a música trata-se de uma linguagem universal, com convenções teóricas aceitas que integram as correntes musicais. Por exemplo: conceitos teóricos do erudito são diferentes de conceitos teóricos do samba, assim como a sonoridade do rock and roll é bastante diferente da valsa tradicional. São construções estéticas, formatos, conteúdos, timbres, motivações e finalidades distintas. Existe uma coletânea específica para cada estilo ou “escola” musical. 

Gostaria de trazer uma impressão um pouco mais pessoal e não somente empírica sobre o fazer e consumir música. São muitos elementos em questão, desde inspirações, memória e informação prévia até situações do mercado. Creio que a produção e o consumo da arte estão relacionados a uma essência, a uma representação através de associações e combinações de processos cognitivos. Músicas mais elaboradas requerem um repertório “essencial” mais alargado, vivências mais profundas, experiências mais diversas e questionamentos mais complexos. Existe, portanto, a necessidade de exercitar a percepção para levar o pensamento mais além. 

Quero utilizar o conceito de harmonia para falar de harmonia social. Como vimos a partir da Antropologia, da Linguística e da semiologia, formamos um completo e múltiplo sistema sociopolítico/cultural. Muitos fatores estão envolvidos; não somente as materialidades, mas também os sentimentos e a natureza, os padrões que criamos e repetimos, e o próprio trabalho. 

Diante disso, é importante pensar em uma forma de otimizar a Organização Humana, de gerir situações de modo a tornar o mecanismo social mais harmônico – em agradável equilíbrio entre suas partes. 

Assim como uma nota musical tem uma característica, uma personalidade, e a harmonia acontece com a combinação e conteúdo dessa característica, personalidades únicas interagem e se combinam em núcleos sociais, formando o todo do sistema. Nasce, então, a necessidade de ‘alquimiar’ a existência de vários núcleos, contribuindo para a formação da harmonia desejável. 

É irremediável. Não podemos nos fechar em nós mesmos e deixar de levar em conta a subjetividade do outro: a beleza da vida está na diversidade, na multiculturalidade, e o saber é um patrimônio coletivo. Devemos aprender com o outro e formar uma corrente do bem, sempre atentos às responsabilidades sociais e culturais.




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