Autoconsciência Coletiva e Transformação Social

 Camilo Cogiro

Revisão: Vinicius Lima



O marxismo e outras escolas sociais inauguraram alguns pensamentos revolucionários, porém nem sempre convergentes. É possível levantar questões e interpretações que são próprias sobre as motivações para revolução, como no caso da Revolução Francesa. “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” foi uma bandeira importante para a época, em uma sociedade dominada pelo poder da Igreja e muitos dogmas inerentes a ela. Aconteceram avanços nesse sentido com as ideias de Voltaire, que criticou o absolutismo, e de Rousseau, que trouxe o pensamento do contentamento geral. Mas esses pensamentos precisam ser atualizados…

Em tempos posteriores, surgiram várias escolas de pensamento, como a psicanálise e o marxismo, todas inaugurando teses e com uma certa desconstrução, ou rompimento, com o pensamento dominante da época. O marxismo, corrente teórica que aprecio mas não domino, abordou critérios sociais, políticos e econômicos relacionados ao materialismo, fundamentalmente a nossa condição de produtores de coisas que possam significar as nossas vidas. No auge de uma expansão industrial da humanidade, Karl Marx, influenciado por outros gênios, mas também observando a realidade ao seu redor, construiu argumentos revolucionários. A sociedade precisava mudar para atender aos seus anseios. Marx falou sobre mais-valia, economia e dialética, propondo alternativas para uma nova sociedade. Foi uma possível ruptura com o capitalismo, esse que dava seus sinais de força produtiva, porém baseado na exploração da classe trabalhadora, assim como se observa nos dias atuais. 

Afirmo que os primeiros capitalistas foram os colonizadores — podendo ser encontrado alguns dos traços capitalistas até em períodos anteriores, como no feudalismo. A concentração de renda e os monopólios já eram perceptíveis nessas sociedades. A escravidão protocolar é o modelo de função que beneficiou os grandes ricos da época. Assim como o produtivismo enriquece os grandes burgueses, que têm suas fortunas multiplicadas em função do capital, enquanto a classe popular se esforça para sobreviver, sem acesso a nenhum tipo de benefício, apenas o básico mesmo. As primeiras superempresas multinacionais foram os engenhos de cana, as plantações de café e outras atividades mercantis do passado. Sempre financiadas por capital e exploração da mão de obra. Então, hoje verificamos apenas adaptações mal planejadas de todo esse aparato produtivo. 

Na minha opinião, todas as ideias que foram e são elaboradas são também objetivas, servem de molde para a ação. Sempre que pensamos, organizamos os atos, as instituições e coisas relacionadas a nossa materialidade. Grandes filósofos e pensadores se dedicaram ao estudo e ao fornecimento do “cimento” social. Foram contribuições nobres para a evolução e para o desenvolvimento das tecnologias de que dispomos, sobretudo tecnologias de natureza subjetiva. Então, foram contribuintes da neurolinguística, da propaganda, da política pessoal, estética, institucional e adiante.

Hoje, as pessoas estão acomodadas, conformadas. A antropotécnica engessou os motivos revolucionários. Muitos pensam: “Não tem como mudar, é assim mesmo…”. Porém a própria dialética social presume evolução e mudança. Tudo vai ser substituído. Na realidade de outras espécies, tudo se mantém, talvez sendo remodeladas somente com a ação humana. Todavia, nós somos os arquitetos da realidade do nosso Universo, estaremos sempre a elaborar coisas novas. As pessoas são revolucionárias por natureza, mas essa revolução pode também acontecer de maneira inconsciente, apenas pelo nosso instinto próprio de transmutar. 

Levanto ilações que, durante a história, fomos nos ajustando somente devido às conveniências momentâneas, sem muito planejamento. Por consequência fomos desenvolvendo uma construção que só resolvia aquela demanda, sem considerar o geral. Aí criamos uma indústria que, embora possa facilitar a produção, agride o meio ambiente e destrói o planeta Terra. O materialismo de Marx foi fundamental para estipular que os recursos são findáveis. O mundo tem um limite, não consegue agregar tanta exploração de matérias primas. Vai chegar um tempo em que o planeta não vai conseguir se regenerar de tanto extrativismo. Sem contar que alguns recursos transformados não retornam à fase anterior, gerando outros produtos quimicamente modificados.

Uma revolução social, que atenda às nossas necessidades contemporâneas, só pode ser realizada de forma consciente e organizada. Já temos as condições de alterar a natureza de forma abrangente e satisfatória. Mas os impulsos são perigosos, pois também temos a capacidade técnica de acabar com o mundo através dos nossos aparatos. Logo, a mudança deve ser calculada, formalmente estudada e colocada em prática com método.

Só organizações de vanguarda, pensativas, auto-organizadas e críticas podem assumir o papel de revolucionar; caso contrário, estaremos reféns das adaptações, de seguir conforme o vento, e não ajustaríamos as nossas “velas dos barcos” para atingir objetivos satisfatórios. Completo que as organizações de massa também precisam se engajar, agir junto, ter autodeterminação de apoiar revoluções adequadas.

Em tempos atuais, o dinheiro manda e desmanda. É o motor de tudo que acontece. Se precisamos trabalhar, é para ganhar dinheiro; se queremos empreender, é pelo dinheiro; o marketing e a publicidade existem para favorecer o capital. Então, o capitalismo é o maior mandatário internacional. Os Parlamentos se ajustam em sua função — de proteger os seus senhores, os donos dos meios de produção e das grandes propriedades. Tudo gira em volta dos mecanismos de troca representados pelo capital. Os argumentos governativos, ou suas consequências, são financeiras ou econômicas. Perdemos nossa ancestralidade comum.

A revolução é necessária. Temos que repensar, individualmente e coletivamente. Só a conscientização alcançará resultados determinantes na possibilidade de continuarmos a existir. É estrutural. Não é só o Parlamento, não são só ações plenárias. Necessitamos de um novo jeito de avaliar nossas representações materiais, modificando de forma alicerçante o emprego dos nossos esforços. Enquanto nos esforçarmos e nos movermos apenas em função do capitalismo, continuaremos cegos em relação aos processos relevantes, essenciais e inteligentes. 

A mudança só acontecerá guiada pela vanguarda consciente. Eu não tenho as respostas, elas devem ser desenvolvidas a partir da partilha de conhecimentos. A entrega que eu posso dar eu tenho feito. Tenho somado voluntariamente, e não em virtude do dinheiro, e tento produzir e consumir sem degradar. Mesmo que o sistema me coopte, me entregue mecanismos sociais que eu não concordo e que quero mudar, eu sigo firme na minha missão que eu auto estabeleci. É preciso uma ruptura, o capital não pode continuar a estar acima dos direitos, da natureza, da dignidade e da vida. 

Somente um movimento autoconsciente e organizado pode revolucionar a sociedade!            




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